domingo, 27 de dezembro de 2009

Os noruegueses dizem que os suécos são burros.
Os suécos dizem que os noruegueses são burros.
Os dinamarqueses dizem que os finlandeses não existem.
Os finlandeses dizem algo, mas ninguém entende porra nenhuma.
Ahhh, a Escandinávia...

terça-feira, 17 de novembro de 2009

vogais anarquistas

æ
œ
y
ø
ü


domingo, 4 de outubro de 2009

Julia

“Well then, I ought to suit you, dear. I'm corrupt to the bones.”

1984

O torso se dobra para encarar o dorso, o dorso se alteia para relevar o torso, no torso o dorso se volteia para amaciar o corpo, o corpo se impõe para dentro do torso. Finja ser a relação de insubmissão, a relação equânime, o domínio do torso fora do dorso que levanta o lombo. O não-domínio que não será domado. Falseia o corpo que se esmera pelo tronco.

Assusto-me com a nossa longitude e com o que não devenimos. Assusto-me com o nosso diâmetro. Monstros graves e severos me repreendem, dentre os quais estou eu – e aqueles outros reconfigurados em mim. O que gera medo são as mutações e as continuidades – todas suas. As minhas foram pulverizadas – novamente. Se ainda ocultamos alguma proximidade, arranque-a pelos ossos e morda-a como jamais gostaria de usar seus dentes nos meus braços. Faça-a ebulir e sorva os seus vapores metálicos. Deseje-me então coberto com estes paralelepípedos. Esta entranhável agressividade nos recuperará.

Você é uma imagem, imaginária, empilhada sobre as minhas lembranças – assim como o restante. A partir do momento que já não são concretos e firmes sob meus sentidos, todos transmutam em imagens alucinadas que algum dia eu preservei e que então ecoam. Não foi só você, minha cara, a única dilacerada pela monstruosidade das horas. Os lugares - sobretudo os lugares, os sítios, os recintos, os espaços e os outros. Tudo está esmagado nesse impasse instável e fascinante que se encontra entre as ranhuras da memória e as fissuras do oblívio. Um espaço peculiar imprimido pelos arrepios de sua nuca. Você, e os demais, e os locais que perseguimos, são todos os ossos e os paralelepípedos de rocha que condensam meus dias. São todos os vapores metálicos que saem das tinas efervescentes - os cafés e os açúcares escorridos dos encontros em áreas vulgares que percorro. Os encontros ordinários são todos esses, fraturas do tempo que me estapeia as bochechas. Você deveria ser a mim um destes arranhões que não localizo, que não encontro por desatenção. Não é.

Pois que fale de outrem, sempre exteriorizado. Não há outrem. Há apenas o mesmo indivíduo, amálgama de coisas recordadas. Eu sou facilmente impressionável, e isso é um recurso retórico, e isso é uma dissimulação, e isso é uma inverdade polida. Você sabe da polidez e do lustre. Sabe com abundância. Sabe da abundância, mas pouco da escassez, ou talvez o inverso. Talvez saibamos do sarcasmo. Aqueles todos externos, exteriores, estrangeiros a nós. Toda esta pluralidade de fenômenos que inspiram não mais do que desinteresse. E, quando a sua carne flácida me olha com desgosto, conversamo-nos usando gestos, conversamo-nos todos em um diálogo sem repetições que se estende sobre as pálpebras sonolentas das palavras. Não se sabe daquilo que falta por se desconhecer a ausência, ou sabê-la interpretar sem poder identificar seu objeto. Eis que nos calamos, silêncio magro e irrespirável - devemos nos suportar.

Algumas abstrações de outras perseguições ainda aparecem espelhadas sobre nossos visores - estamos turvados. Os dedos longilíneos se insinuam a escrever, hesitantes como vozes, oscilando à temperatura dos temperamentos que se misturam com ícones criptográficos. Figura que me é familiar, veja em mim, você, como nos projetam de si as falésias das impertinências romanescas. As curvas desta elipse ainda estão por serem completadas - jamais talvez, linha longa que se desenrola para dentro dos degraus espiralados. E a repetição, e a repetitividade, antídoto fresco dessas curvas inaláveis, é só isso o que nos compõe. Eis que você está figurada, hipótese acima, enlevada.

Pretendamos que as relações afetuosas não sejam feitas de vísceras, não sejam evisceradas, não sejam hostis e brutas, repletas de dominação. Esqueçamos do turno de força empregado nos relacionamentos banais, interpessoalidades quaisquer. Enunciemos o manifesto andrógino, o suprafeminismo, a insubordinação e a planificação da horizontalidade. Embebamo-nos nos sufles das Sirènes como brumas nivosas de outras negritudes - senão belas imagens. Desvinculadas das imposições de sexo, as agudezas apunhaladas de lascívia se embrutecem embaçadas. As lágrimas destiladas de emoções que não se pertencem, e não se contêm, estas lágrimas se estufam para depois dos róis comuns de homens, os homens estufados.

E o ímpio que nos ecoará das mentes abastadas será veloz rajada de noites, ímpetos de maternidades escoadas, ancestralidade desfigurada, reconfigurada. A figura una e nunca, a figura nunca nua e una. Una à figura nua a nau de gentes. Não. Manifesto reconfigurado. Nem sexo, nem plural, relações agâmicas sem seus desgastes. Manifesto da agamia, da não-relação, do não-envolvimento, do não-celibato. Manifesto do não?

sábado, 26 de setembro de 2009

La vie en rose

Era um escritório pequeno, com paredes de uma tonalidade amarelo mostarda desgastada pelo tempo. Poucos eram os móveis neste ambiente: apenas uma cadeira, uma mesinha, e um divã. E todos eles estavam situados logo abaixo das pás de um antigo ventilador de teto que girava demoradamente. Além disso, de tão deteriorado que estava este último, parecia que estava prestes a cair a qualquer momento. Não havia janelas, e a iluminação, que provinha de um único abajur situado no canto esquerdo do cômodo, era muito fraca, de modo que o pequeno velho que estava a olhar para a estante de livros parecia ser apenas mais um objeto desse mórbido cenário.
O ar estava completamente estagnado, dando a impressão de que alma viva alguma passava por ali já fazia algum tempo.
De repente, escutam-se então passos do lado de fora, depois silêncio, porta rangendo, porta batendo, e por fim, passos do lado de dentro.
O homem de camisa azul e calça jeans adentra timidamente no cômodo, olha ao redor, e surpreende-se ao perceber que sua entrada não fora notada. Depois de alguns embaraçosos segundos, ele resolve pigarrear alto para chamar atenção. Nenhuma resposta. Seu pretenso interlocutor continua a olhar fixamente para a estante, quase que em transe.
-Hã, com licença, aqui é o escritório do doutor Astolfo Fagundes? – Disse em voz alta e clara.
Houve então um momento de silêncio duro e penetrante, interrompido finalmente pela voz do velho.
-Sim, é sim. – Respondeu, enquanto virava para trás e colocava os óculos. - Você está aqui para uma consulta?- Continuou, enquanto analisava o desconhecido.
O homem balança a cabeça afirmativamente.
-Meu nome é José, eu marquei o horário na terça feira com o senhor pelo telefone, lembra-se?
-Oh, sim, me lembro bem- Disse enquanto sentava em sua cadeira, e apontava para o divã. – Acomode-se.
-Eu prefiro ficar em pé, se não se importar.
-Tudo bem para mim. – disse enquanto pegava um bloco de papel, e um lápis. – Bem José, o que o traz aqui?
-Eu gostaria que o senhor dissesse o que há de errado comigo. – Respondeu de modo breve, e claramente perturbado.
-Explique-se, meu bom homem. - Disse o velho em tom grave. Apesar da idade, e do tamanho desvantajado, tinha um certo ar de imponência e seriedade.
-Bem, vou começar pelo começo. - Aquela situação claramente estava deixando José desconfortável. – Nunca tive problemas sérios, sempre fui um sujeito muito tranqüilo, muito quieto, de poucos vícios e menos mazelas. Da minha infância e adolescência nada tenho a reclamar, afinal, como eu já disse antes para o senhor, eu nunca me envolvi em questões muito graves. Tive muitos amigos, alguns bons, outros menos, nada de extraordinário no geral. Formei-me em administração aos vinte e três anos, sem muitos louvores, mas também sem muitos déficits. Casei-me aos vinte e sete, e atualmente tenho um bom emprego numa grande empresa, além de duas lindas filhas: Rafaela e Joana. – Olhou então para o psicanalista, que não parecia estar prestando muita atenção.
- Eu estou entediando o senhor?
-Não, de maneira alguma. Continue.
-Enfim, uma vida absolutamente normal. Mas de repente tudo mudou....- O tom de José foi se tornando cada vez mais sôfrego enquanto falava. - Bem, eu não sei como explicar.
-Faça o melhor que puder, tenho certeza que bastará.
-De alguns tempos para cá tenho tido alguns sonhos... Bem, como dizer? Estranhos, no mínimo.
-Estranhos como?
-Ontem a noite mesmo eu tive um destes. Sonhei que estava no deserto morrendo de sede, quando de repente eu avisto um Oasis, e corro em sua direção. Quando eu chego mais perto, o Oasis desaparece, e eu vejo um homem de bigode rosa, e terno laranja, que disse ser a reencarnação de Mustafá Mond, décimo quinto rei do império Inca. De repente então aparecem flamingos carregando xícaras de chá, que são colocadas numa mesa. Eu tomo o chá, e em seguida começo a dançar, até que caio na areia. Quando olho para cima vejo o homem novemente, daí ele olha em meus olhos e diz que Sheakspeare estava errado, que a vida não é um conto, e sim uma nota de rodapé. Daí, as nuvens escureceram, o ar começou a ficar pesado, e finalmente, então, caiu uma chuva que me encharcou completamente. –Tomou fôlego e continuou. – Quando acordei vi que havia mijado na cama, e o cachorro lambia meu pé.
-Hum... Mais alguma coisa de estranho? – Disse enquanto tomava algumas anotações.
-Bem, semana passada eu acordei no meio da noite sem motivo algum e fiquei a olhar pela janela da sala. Fiquei assim mais de uma hora até me dar conta do que estava fazendo, e voltar a dormir. – Havia certo desespero em sua voz, mas José fazia questão de continuar. – Outro dia eu estava no caminho para o trabalho e quase atropelei uma jovem porquê havia me distraído olhando para uma árvore que estava com as folhas todas rosas.
-Hum...
-Perdi o interesse em meu trabalho, meu apetite tem diminuído bastante, e tenho estado muito mais nervoso que o normal. Eu, que nunca tinha bebido, ou traído minha mulher em minha vida, comecei a freqüentar botecos, e trepar com desconhecidas. Minha rotina não tem sido a mesma. – Acrescentou enquanto olhava para o bloco de anotações. - No caminho para cá mesmo, eu me peguei cantando em voz alta.
José estava com a cara pálida, e gotas de suor escorriam sobre seu rosto.
-Acho melhor você se sentar enquanto eu vou ali pegar uma coisa.
Obedeceu prontamente, e ainda aproveitou para tirar os sapatos. Seus pés estavam lhe matando. Depois de alguns minutos de espera o doutor voltou, trazendo algumas folhas.
-O que você vê aqui? – Perguntou mostrando um borrão amarelo.
-Um rato.
-E aqui?
-Um travesseiro.
-E aqui?
-Nada.
-Certeza?
-Sim.
-Aqui?
-Um girassol.
-Aqui?
-Um menino.
-Um menino? – Abaixou os olhos e acrescentou. – Como ele está?
-Está chorando.
-E....
-Está deitado também.
-Um menino deitado e chorando. – Murmurou enquanto tomava notas.
-Não, peraí.
-O que foi?
-Não está mais chorando.
-Como?
-O menino, ele parou de chorar.
Tirou os óculos. Ao fazer isso, José pôde ver seus pequenos olhos castanhos mais claramente. Eles não demonstravam emoção alguma.
-Vou fazer algumas perguntas simples, tudo bem?
-Sim, claro.
-Qual é o seu nome completo?
-José Cândido Xavier.
-Data de nascimento?
-Vinte do sete de mil novecentos e setenta e dois.
-Profissão?
-Diretor assistente do setor de finanças.
-Qual a cor do céu?
-Azul.
-Qual a cor da grama?
-Verde.
-Que dia da semana é hoje?
-Sexta feira.
-E de que cor é a sexta feira?
-Vermelha.
-Hum....
-Hum o quê?
O senhor deixa as folhas e o bloco de anotações de lado. Em seguida, volta-se para José:
-Acho que já sei o que está acontecendo com você.
-Me diga então, por favor. – Disse automaticamente. Seu desespero ia se transformando em certa euforia.
-Bem, para começar, esse é um quadro muito raro nos dias de hoje, ainda mais considerando a sua idade. Costumava ocorrer muito há algumas décadas, principalmente entre os jovens entre quinze e vinte e dois anos de idade.
-Diga logo o que é.
-O senhor sofre de poetice aguda, tendendo a surtos filosóficos periódicos.
-E isso é grave?
-Sim, muito grave. Temo que não exista tratamento, quanto menos uma cura. Você terá que conviver com isso pelo resto da sua vida.
-Mas como isso é possível? Não há mesmo nada que eu possa fazer?
-Bem, eu recomendo que você assista de três a quatro horas de televisão por dia. O que deve retardar o processo da doença, mas não acredito que irá lhe curar.
O ar, que estava carregado, diminui seu peso de repente. O ventilador começara a ranger, e do lado de fora a chuva começara cair.
-Acho que é isso então. – Recomeçou José enquanto dirigia-se para a porta. – Bem doutor, obrigado pelo entendimento. Mandar-lhe-ei um cheque segunda feira pela manhã.
-Não precisa mandar. È melhor que guarde seu dinheiro, afinal, creio que em breve você não terá mais um emprego.
Girou a maçaneta sem dizer nada, e abriu a porta ganhando o corredor. Após descer as escadas, e chegar à portaria, notou que ainda estava de meias, mas não achou que isso importasse. Coçou o nariz, olhou para a calçada, e, apesar de toda a chuva, começou a descer a rua em direção ao botequim mais próximo.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

“ Tears, idle tears, I know not what they mean,
Tears from the depth of some divine despair
Rise in the heart, and gather to the eyes,
In looking on the happy autumn-fields,
And thinking of the days that are no more.


So sad, so fresh, the days that are no more.”

Lord Alfred Tennyson


It was sunny that afternoon, that late afternoon, while I lied in my couch in contemplative mood. Resting my head at the pillow, I stood glancing at the golden solar sphere, the raving clouds, the enduring mountains. I glanced, but with indifferent sight, as my mind strayed through uncertain realms of remembrance, thinking on things already past, ignoring everything yet to come. They were all pictures, my memories, nothing more than frozen scenes enshrined by a foggy frame of oblivion, and as I summoned memories of my early childhood, this blurry fog was still more present, as if trying to erase those scenes from me. Afternoons such as bright as this, joyful moods, smiles, that’s what I saw on the pictures, and streets bathed by warm sunbeams. Although distant, my childhood was the period I remembered the most. As I grew older I got every time more distracted, there was no present for me, neither past nor future, the abstraction of time presented itself to me in its whole form and my mind chosen many times to dwell in those immutable thoughts, enduring thoughts, such as the old mountains I observed. I remembered birthday parties, the travels, the good times with friends. I remembered my grandmother’s death, my mother crying while I held my tears, I remember the sudden indifference, the late woe, the grief of mourning. The late woe, now everlasting…

It was a burden, my past, it was a burden and started to suffocate me, to compress me against the very couch on which I lied. I was tired of carrying it. Suddenly I got struck by a strange exhaustion, and closed my eyes. For an uncertain period of time I stood in limbo, not sleeping nor awake, I would sometimes open my eyes unconsciously, incapable of thinking, and when my eyes were closed I had no dreams but a darkening slumberous visage, and darkness itself took control of my mind while I could do nothing but surrender to it. Darkness, abyssal and utter darkness, floated aloft my unconsciousness as the blackened clouds of fate which float upon every being, I was able to feel, while fainted and possessed by blank mirages, I was able to feel my destiny. Dissolved, reduced to dust of existence, I was carried by the Mystery through its unspoken words. So sad, so fresh, I knew not what they meant.

I finally woke up. The golden sun turned to opaque yellow, I was now caressed by a soft sorrow, unknown and unfelt before. While glancing at the sun once again I knew, I knew it was the pain from a dying season, I felt it all around me. The great star started to set behind those mountains, screaming in silence, suffering in silent resignation. As I do. From the east, a crow uttered its distant cry, and from that same direction I was able to sense the rain. Autumn approaches once more, to remind us of the cold, to drown the summer in tears, idle tears, for the days that are no more. So sad, so fresh…

quarta-feira, 12 de agosto de 2009


video

Nas estepes é sempre tempo de guerra,
não declarada, incessante, aberta,
escandalosa.

O vento bate, grudando areia no sangue fresco,
ainda não coagulado,
atraindo moscas para um banquete putrefato,
um festim de corpos de velhos,
mulheres e crianças,

impiedosamente massacrados,
cortados pelos caninos da máquina do tempo,
esmagados pelos molares duros e cruéis da vermelha máquina de guerra
constituída por homens e espadas, cascos e cavalos.

Os corpos apodrecem rapidamente sob o sol,
enquanto a areia os cobre, implacável.
É bom as moscas se apressarem.

sábado, 8 de agosto de 2009

Até que chegue o fresco do dia

Acordei muito cedo no dia dezessete de agosto de 1998, antes mesmo de amanhecer. Vesti minhas botas, peguei minha mochila, e cautelosamente, girei a maçaneta da porta para entrar no corredor que dava para a sala. Ele estava tão silencioso que era possível ouvir o ar entrando e saindo dentro de mim. Andei na ponta dos pés para não acordar ninguém, mas cada passo me custava um esforço enorme, pois meu corpo pesava uma tonelada. Era como se o chão daquela pequena cabana de madeira me atraísse com todas as suas forças. Enquanto andava senti uma gota de suor frio escorrer pela minha testa, e chegar à minha orelha esquerda. Minhas mãos tremiam, assim como cada fibra do meu corpo.
Parei em frente ao quarto onde minha irmã vivia, abri a porta, e entrei num pequeno cubículo, praticamente vazio a não ser por uma cama velha sem colchão, e uma mesa de cabeceira com uma moldura em cima. Apesar do mofo, e dos tantos meses passados, o cheiro dela ainda permanecia naquele lugar. Era um fraco odor de fuligem. Fechei os olhos, tentando memorizar cada detalhe desta mórbida fragrância, pois era a única coisa que eu queria levar daquela casa. Fui até a mesa e peguei seu retrato onde estava montada em um cavalo marrom, cavalgando próximo ao lago. Estava tão livre, tão sem limites, seu rosto encontrava-se repleto de uma alegria contagiante. Abaixei a moldura, e disse adeus com um sussurro. ´´Eu nunca mais olharei em seus olhos de novo``.
Antes de sair me ocorreu de tirar uma foto da antiga galeria, onde meu pai guarda seus prêmios ganhos em concursos de pesca. Ainda hoje, quando estou sozinho, e embriagado, eu a pego, e fico me lembrando dos tempos onde eu ficava o dia inteiro na beira do riacho, tentando pegar um peixe como os que papai trazia. Nunca consegui nada maior do que a palma de minha mão, mas certa vez eu fisguei uma lata de milho, e a enterrei no quintal, como se fosse um tesouro. De qualquer modo, após abandonar a cabana e andar por alguns minutos, passei pela porteira que servia de entrada para a fazenda. O mais difícil havia passado, mas ainda faltavam sete quilômetros até o vilarejo mais próximo, e para chegar lá tive que andar por uma velha estrada de terra, que estava seca e empoeirada devido à forte estiagem daquele inverno. Respirei fundo antes de dar início à caminhada, tão fundo e tão forte, que pareceu que era a primeira vez que os meus pulmões eram completamente preenchidos pelo ar. Olhei para trás uma ultima vez, depois comecei a andar por aquele caminho que serpenteava as montanhas, e parecia não ter fim. Chegando à metade da jornada o medo do início já havia se transformado em euforia, de modo que apesar da fina garoa que começava a cair, e do forte vento vindo do oeste que gelava a pele, eu me sentia feliz.
Quando cheguei ao vilarejo a garoa havia cessado, e apesar do tempo continuar cinza, o sol estava forte. Fui até a padaria, que ficava na principal rua do lugar, e pedi uma xícara de café fraco. Enquanto tomava o líquido marrom em pequenos goles, perguntei que horas o ônibus para a cidade saia a um senhor vestido de azul, que estava lendo um jornal ao meu lado.
-Dez e meia- disse, sem olhar para mim.
Olhei para meu relógio: dez e vinte e três. Paguei o café, e corri até o ponto. Quando cheguei o veículo ainda não tinha saído. Era um ônibus azul e pequeno, com apenas duas portas, ele estava praticamente vazio à exceção de duas freiras sentadas no primeiro banco, um homem acompanhado de uma criança, e uma mulher que dormia com a cabeça no vidro da janela. Subi os degraus, paguei a passagem e me sentei sozinho no fundo. O motorista deu a partida, e depois de cinco minutos pegou a estrada rumo à capital.
Passei o início da viagem olhando os carros, e as paisagens pela janela, mas depois de algum tempo cochilei apoiado em minha mochila. Acordei devido a uma freada brusca, e bati minha cabeça no encosto do assento da frente. A dor veio instantaneamente, junto com o susto. Gritei um palavrão e levei a mão à testa. Quando finalmente me recuperei, e olhei pela pelo vidro, a primeira coisa que vi foi um prédio enorme, acinzentado e cheio de janelas. Eu havia chegado à cidade, e tudo e tudo era simplesmente fascinante, desde os carros, até os outdoors gigantes. Antes que eu desse por mim o motorista veio em minha direção dizendo que a viagem havia acabado, e que era necessário descer do ônibus.
Não acho que valha a pena recordar aqui tudo o que aconteceu depois que pisei pela primeira vez naquele chão de concreto, e cimento. Logicamente, o deslumbramento não durou muito, em pouco tempo ele foi substituído por aquele aperto que dá no coração de todos que abandonam sua terra natal, esse aperto que repete insistentemente a palavra lar quando estou sozinho e em silêncio. Me virei como pude e como não pude para conseguir um salário que mal dá para uma cervejinha no final da semana, e uma cama que não atenua meu perene cansaço.
Aprendi com o passar do tempo que todos aqui têm muita pressa, pressa para comer, pressa para andar, pressa para dirigir, pressa para conversar. Até mesmo o sol deste lugar parece que está sempre atrasado em sua marcha no horizonte. Certa vez, enquanto ia para o trabalho, resolvi parar e cumprimentar um sujeito na rua. Nada demais, apenas sorri e disse bom dia da maneira mais educada possível. Mas ele não deu atenção, e continuou andando como se nada tivesse acontecido. Neste dia aprendi que não era só a calçada em que eu pisava que era feita de concreto. Assim como o céu opaco e vazio de todas as noites, acho que o coração das pessoas daqui vai se tornando aos poucos cada vez mais frio e cinzento. E eu não era exceção, transformei-me lentamente em um clichê de trabalhador subempregado e infeliz da era neoliberal.
Até o dia em que resolvi voltar. Não sei exatamente como, ou o porquê deu ter tomado essa decisão, só sei que no dia vinte e um de janeiro de 2004 eu voltei para a estação. Nesse dia eu não acordei de madrugada, não senti meu coração bater mais rápido ou minhas mãos suarem nem nada, acordei da mesma maneira em que acordo todos os dias, e com a mesma calma com que uma idosa rega suas plantas eu abandonei os meus pertences, e fui apenas com a roupa do corpo e alguns trocados pegar o mesmo ônibus azul que me levara.
A viagem foi a mesma de antes, à exceção apenas de que dessa vez o ônibus estava bem mais cheio. Chegando no ponto final, me surpreendi ao notar o tanto que aquele pequeno vilarejo crescera.A modesta padaria onde outrora eu tomei um cafezinho transformara-se num imenso supermercado, e mesmo a antiga estrada de terra que passava por minha casa agora era asfaltada. Caminhei lentamente por ela, sem medo ou euforia, sem remorso ou frustração. Apenas andei na marcha resignada e cansada de um menino que voltara homem.
Cheguei no lugar onde deveria estar a cabana de madeira que meu avô construíra, e sem perceber desandei a chorar, um choro forte, choro preso por seis anos. A cabana não existia mais, no lugar dela havia uma imensa plantação de milho que se estendia até aonde a vista conseguia alcançar. Mais tarde, quando me recompus um pouco, descobri na fazendo que a família que vivia ali antes havia vendido o terreno, e se mudado para a cidade. Cheguei a considerar a idéia de voltar para a capital e encontrar meus parentes, mas logo desisti. É uma pena, mas acho que foi melhor assim. Depois disso apenas continuei seguindo a estrada(que após alguns quilômetros voltara a ser de terra), em direção a um lugar que tenha algumas árvores, um córrego, e onde eu talvez possa construir um lar.

Possíveis falhas nos sist. -- .-s de comunicação

A comunicação humana é um processo que envolve a troca de informações, e utiliza os sistemas simbólicos como suporte para este fim. Estão . -. ...- --- .-.. ...- .. -.. --- ... neste processo uma infinidade de maneiras de se comunicar: duas pessoas tendo uma conversa face-a-face, ou através de --. . ... - --- ... com as mãos, mensagens enviadas utilizando a rede --. .-.. --- -... .- .-.. de telecomunicações, a fala, a escrita que permitem interagir -.-. --- -- as outras pessoas e efetuar algum tipo de troca .. -. ..-. --- .-. -- .- -.-. .. --- -. .- .-..

Sabe-se --.- ..- . os sistemas de comunição estão sujeitos a falhas constantes que, às ...- . --.. . ... , impedem as pessoas de se comunicarem umas com as outras. O próximo objetivo nesta área deve ser tornar os sistemas menos sujeitos a falhas que impossibilitem a compreensão das-- . -. ... .- --. . -. ... transmitidas.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

para Amanda

fui postar no blog

achando que era hoje;

quando me dei conta,

ainda era ontem.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

On Munch's "Love and Pain"




Lean on me your snow-white face

And my gloom shall brush away

The tender touch of your pale skin.


Spread on me your crimson hair

And my woe shall paint the room

With the blackness of my soul.


Breathe on me your silent breath

And I shall depict your love

In a still and quiet canvas.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

samba da política brasileira pro seu povo

tecu tuco
tecu tuco
tecu tuco

não me cutuca

tecu tuco
tecu tuco
tecu tuco

Do outro lado

Estendo a mão para o copo de uísque, o cigarro já no fim apago no cinzeiro. O papel em minha frente continua em branco; o mesmo branco de algumas horas atrás, quando me sentei para escrever.

Uma olhada rápida para o cinzeiro me diz que devo estar sem cigarros, fato confirmado pelo maço amassado no canto da mesa. Nem me lembrava de ter amassado o tal maço, mas devo tê-lo feito depois de pegar o último cigarro - é um movimento mecânico.

Termino o uísque em um gole rápido e saio para reabastecer os cigarros. Do lado de fora já está tudo escuro, mas a padaria na esquina continua aberta e lá mesmo compro os cigarros: “Me vê um maço de Marlboro vermelho, por favor”, devo ter dito sem prestar atenção.

A cabeça continua sem idéias, e apesar de tudo vários pensamentos cruzam minha mente. Não conseguia entender nada, provavelmente por isso o papel continuava branco. Papel que de repente já estava na minha frente de novo, como o cigarro na boca e o uísque no copo.

Vou até o armário ver o que mais podia fazer. Tinha ainda algumas latas de tinta e uma tela parcialmente branca, coisas que coloco sobre a mesa, ao lado do meu texto-que-viria.

Começo a pintar calmamente com o pincel mais fino, a próxima coisa de que sei é de uma pintura frenética em que todo o meu corpo é colocado na tela.

Pego a tinta e jogo na parede, dando tons de vermelho à parede anteriormente branca. Faço isso também com as outras tintas, estampo meu corpo na parede, apago cigarros, quebro as garrafas de uísque cheias - e também as vazias -, criando assim o caos naquela pequena sala.

Já estava cansado daquilo tudo. Olhei em volta pensando seco “que merda. Isso é tudo uma merda.” e foi nessa hora que meus olhos caíram sobre a salvação.

“Como é bom!” era o que eu pensava.




Chego em casa de manhã bem cedo, meu irmão tinha dito que ficaria em casa trabalhando algumas novas idéias que tinha tido.

Estranho logo quando entro: a luz da sala ainda estava acesa. Ele sempre dorme na sala com as cortinas hermeticamente fechadas criando total escuridão. O que vejo porém é luz vindo daquela direção.

Chego na porta da sala e me vêm lágrimas aos olhos.

À minha frente estava a imagem do corpo de meu irmão dependurado do teto.

- Arte. Meu irmão é um artista! Que existência sublime.


O que me trouxe lágrimas aos olhos não foi a morte de meu irmão. Parado na porta da sala, a única coisa que eu consigo ver é o trabalho incrível dele: todas aquelas cores e pinturas lindas que agora adornam a parede da sala, toda a destruição tão envolvente e, apesar de tudo, tranquilizadora, que a visão daquela sala de estar em pedaços me trouxe era linda, era sublime. Era Arte, pura e simplesmente. E fazia lágrimas correrem por minhas bochechas.

An Imitation of Blake

As I wept in valleys wild

Crying out in bowers green,

From a tree came out a child

Whom to others rest unseen.


“Why art thou in such a woe?”

- Oh, you’ll never understand.

So he glanced inside my soul

And then took me by my hand.


“Look the trees, the joy of spring,

See the bower, the smiling lea,

Hear the birds, they happily sing,

Feel the nature lean to thee.


These trees shall forever stay,

This bower will forever be,

Death will take these birds away

But others then shall sing to thee.


But thou shalt not forever stay

Neither shalt forever be.

One day, alas! The icy clay

Shall shut thy earthly revelry.


But if thou lovest thy living breath

And everything to thee is mild

Why canst thou love also thy death?”

And then I looked that merry child:


And I hugged him close to me,

And we played until we sate,

And when I close my eyes I see

That smiling boy, and call him Fate.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Carta de recepção - Clube da Maioridade



Brumadinho, 03 de Agosto de 2009

Caro Sr. Pedro Vianna,


Parabéns pelo seu aniversário de 18 anos. O Clube da Maioridade lhe deseja felicidades na sua vida nova. Em anexo a esta carta enviamos uma carteira de identidade nova, desta vez com seu nome e seus dados, que poderá ser usada a partir de hoje em todos os tipos de estabelecimentos comerciais. Quanto ao seu documento de identidade provisório, favor descartá-lo ou passá-lo para algum amigo que não seja membro de nosso clube. Além disso, a partir de hoje o senhor será sempre bem recebido nos bares, boates e casas noturnas do país. Caso seja do seu desejo consumir bebidas alcoólicas ou cigarros, poderá comprá-los livremente em todos os supermercados, padarias e locais semelhantes.
Devemos alertá-lo, porém, que a partir de hoje o senhor será responsabilizado por todos os seus atos e poderá ser preso, julgado e condenado por eles. Portanto, caso seja de seu interesse cometer atos ilícitos como o consumo de entorpecentes, por favor, faça-os no mais absoluto segredo.
Dentre outras vantagens disponíveis a partir de hoje, o senhor encontrará cursos de direção e acesso aos serviços bancários. Recomendamos que procure as instituições responsáveis e utilize essa nova gama de vantagens e privilégios.
Para obter mais mais informações ligue 0800 739 413, um de nossos atendentes certamente lhe dará todas as informações requisitadas.


Parabéns pelos seus 18 anos,



Eugênio Libertino,
Presidente do Clube da Maioridade




domingo, 2 de agosto de 2009

A Fulminação Figural

Em
fúria,
pernas
milípedes
erguem-se abruptas
às caudas febris e copiosas
que sustentam as veste de uma dama.

É o assombro, - - - - - - - - - - - - - - - - - – feminil e delicioso,
a se iniciar - - - - - - - - - - - - - - - - - - de uma maneira grotesca.
A dama mira enfastiada e incerta, repleta de desconfiança, sem demonstrar
[qualquer excitação.

Ganchos,
enquanto
estes
se
alçam
contidos
nas
unhas
das
miriápodes,
identificam-se qualidades
- - - - - - - que se derrubam.

Dama icônica
a portar
cor herética,
a trotar
sem estética,
a falar
voz lacônica.

Ela carrega no busto a vez da Folia.
As vagas do vestido roxo que amacia
são chagas do sentido denso de Poesia,
um rodopiar coxo de melancolia.

Fragrâncias de redundâncias em abundância,
constâncias e ânsias de extravagância.
Falta-lhas!
Manca!

Trôpego
e
sôfrego
ritmado
em veleidade
sem austeridade,
A Grande Leviandade.
Dama, Subtil Frivolidade.

A atrocidade jocosa
de motejo do ensejo,
a atrocidade chistosa,
lança-lhe à artilharia.

Dama à vanguarda,
que não se impõe
à concretude de atos,
torna a se esquivar
e a se expandir.

O corcel do crescimento, simples esquecimento, inibe toda a vastidão
[desta Senhora caduca
que se tem esmagada dentro de vielas do intelecto, onde é gerada
[e aonde pertence.

A progressão unânime
esgota a dama pusilânime.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

onipresença

Fui morar no mato
pra fugir da civilização
Mas a civilização me encontrou:
logo pela manhã, um rato

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Insistente insatisfação


Lá estava eu sentada em uma mesa de um restaurante num bairro boêmio num país que não fala a minha língua e sim algo muito parecido - e muito irritante. Numa mesa próxima, uma família sentou-se. Eram um homem, uma mulher, um menino e uma menina muito pequena, tipo uns 4 anos. A família fez o que uma família normal faz quando recebe um cardápio ao entrar em um restaurante: escolhe o quê comer.
Depois de ter escolhido - a muito custo pois ficou brigando com os pais dizendo algo que creio que deveria significar 'nada aqui me agrada' - qual seria o seu jantar nessa noite excepcionalmente gelada em Buenos Aires, a garotinha notou que eu estava a observa-los. Eu sorri. Ela não respondeu ao meu sorriso como eu esperava, mas não desviou o olhar. Eu insiti no sorriso - crianças sorrindo me dão esperança, me mostram que algo pode ser bom. Ela insistiu em não sorrir.
Desisti e voltei a conversar com meu pai e minhas irmãs, meus acompanhantes nessa viagem à terra onde a frase que mais digo é 'por favor, hable mas despacio' - ah, como odeio espanhol!.
Nossas porções argentinas (gigantes) de comida chegaram e eu arrisquei olhar mais uma vez para a mesa ao lado, em buscada garota. Agora ela estava comendo um pedaço de pão, concentrada.
O pai fez cócegas nela, ela continuou imóvel e pediu para ele parar. Putz, sem rir?!
Ela me pegou no flagrante, observando-a novamente enquanto eu comia. Sorri novamente. Ela insistia no seu olhar amorfo.

A criança reclama e não sorri. A minha noite no restaurante estava me levando ao descontentamento de uma satisfação não realizada. Será que é tão difícil sorrir para alguns, ainda que seja à toa?

(perdão pelo texto descontextualizado no blog, mas precisava divulgar isso de alguma maneira).

Foto por: Júlia Tessler

quarta-feira, 15 de julho de 2009

"Nos ditirambos musicais de minha folia"

Nos ditirambos musicais de minha folia

Lia obscuros aforismos na demência

De quem tomba nos pilares da filologia

Que erguem e fundamentam a eloqüência.


Numerava as palavras de um verso

E pranteava a decadência intelectual

Que volteia nas cismas do universo

E embebeda toda a história da moral.


Em minha mente a voz de Nietzsche canta,

E repetia a mim mesmo, como um mantra,

Tal elevação que só Heidegger alcançou:


Nos movimentos circulares de todo ente

Quero vir a ser, eternamente,

O devir aristocrático que hoje sou.


domingo, 12 de julho de 2009

Visão Primaveril

Eram 15:20 e andava pelas ruas de Reykjavík, caminhava pela njarðargata olhando para o chão e para o relógio, ainda tinha mais meia hora de luz do dia e não sabia o que fazer com ela. Era uma tarde de primavera agradável na costa islandesa, e as tardes agradáveis da Islândia podem conquistar o coração de qualquer um, as crianças brincam sorridentes pelas ruas e o sol ilumina os telhados coloridos das casas, que parecem retribuir os sorrisos dos transeuntes. Os homens pareciam inclinar-se para a felicidade e a natureza parecia inclinar-se para o descanso dos homens, somente eu vagava aflito, não sabendo o que fazer com o meu resquício de luz solar e temendo desperdiçá-lo. Parei e olhei ao redor: estava no meio do nada, alcançara aquele pedacinho vazio no meio de Reykjavík, onde o único som que se poderia ouvir era o de um avião em sua rota de aterrissagem ou decolagem, trazendo visitantes incertos e levando embora visitantes apaixonados. Despedir-se da Islândia em uma tarde como aquela era cruel, quase inumano. Inclinei-me sobre os joelhos e olhei o relógio novamente: 15:28. Os raios de sol pareciam escorregar pela minha mão e a sensação de impotência era enorme, pois não tinha como segurá-los. Decidi correr.
Corri para atravessar todo aquele vazio, aquele buraco no meio da cidade marcado por chegadas e partidas, marcado pelos horários e pela rigidez do tempo, este mesmo tempo intransigente que me fazia correr como um louco pela rua. Alcancei por fim a esquina com fjólugata e parei de correr para retomar o fôlego, olhei para o relógio e amaldiçoei a mim mesmo: 15:36. Olhei para frente e senti a brisa desarrumar o meu cabelo, era uma brisa salubre, cheia de vida, primaveril. Era uma brisa, porém, que me alertava que o anoitecer estava próximo, pois era à noite que esta brisa ganhava força, soprava com vontade, castigando os telhados e os transeuntes, desarrumando cabelos, e levando os fios loiros dos islandeses para o gélido mar do norte. Devo apressar-me.
Njarðargata se empunha a mim como um monte a um alpinista, eu estava na altura mais agradável da rua, a mais habitada e cheia de vida. O relógio em meu pulso, porém, continuava a assombrar-me com sua tirania, e me lembrava que dali à uma hora toda a vida retirar-se-ia para dentro das casas, e eu seria o único alvo do vento na noite escura. Como um alpinista que vê o cume próximo de si e recobra as forças e a coragem em sua ânsia de triunfo sobre o monte, assim eu recobrara minhas forças e avançava, agora de cabeça erguida, sobre a rua crepuscular das 15:40 da tarde. As casas passavam como borrões bi-coloridos pelo canto dos meus olhos, cada vez mais opacas, lembrando-me da escuridão iminente, enquanto o vento fazia-me lacrimejar, lembrando-me do frio iminente. Os minutos passavam e eu ficava cada vez mais cansado, as mãos cada vez mais soadas e escorregadias, e os raios solares deslizavam pelos meus dedos.
Chegara ao cume da njarðargata, “hurra!”, queria gritar, mas não senti o ânimo para fazê-lo. A escalada não me satisfizera e toda a força recobrada jazia ainda insaciada dentro do meu peito, pulsante. Minha jornada não acabara, ainda retinha um pouco de luz do dia comigo. Virei a eíriksgata, andei cem metros e parei, petrificado.

15:50

Encarei Leif Ericcson, marmóreo, que contemplava o horizonte. Quais terras, qual desconhecido, qual mistério contemplava este desbravador? Jamais saberei, era incapaz de girar o meu olhar para contemplar o mesmo horizonte, a mesma glória, que ele contemplava diante de mim. Sua imagem ficou embaçada, e foquei a Hallgrímskirka que se erguia majestosa sobre suas costas. O que é isto? Este tremor, esta ânsia que sinto, sinto que não sou capaz de me manter erguido por muito mais tempo. Não, era impossível, a catedral se erguia mais elevada do que eu.
Não era noite, mas a escuridão se mixava às nuvens sobre a catedral, e o céu era tingido do azul celeste mais caótico que as mãos misteriosas do demiurgo eram capazes de tingir. O secular se misturava com a eternidade, o particular com o uno-primordial e minha alma que se ajoelhava comigo parecia ao mesmo tempo elevar-se e seguir a rota parabólica do domo que se impunha diante de meus olhos. Sentia-me desmaiar de frenesi estético extra-sensorial, sentia ao mesmo tempo um vazio silencioso e o rugido dos versos de Steinn Steinarr rasgando as nuvens no firmamento. Tremia em convulsões frenéticas contemplando a arquitetura idealística, perfeita, fundamentada sobre o equilíbrio aristocrático dos contrafortes ocultos da igreja de eíriksgata.
O relógio de Hallgrímskirka marcou 15:51. O Perlan brilhava e a mobilidade e o tempo voltaram a rugir sobre Reykjavík, mas os versos de Steinarr ainda ecoavam por todos os lados:

“Tíminn er eins og vatnið,
og vatnið er kalt og djúpt
eins og vitund mín sjálfs.

Og tíminn er eins og mynd,
sem er máluð af vatninu
og mér til hálfs.

Og tíminn og vatnið
renna veglaust til þurrðar
inn í vitund mín sjálfs.”*




*Time is like the water,

and the water is cold and deep
like my own consciousness.

And time is like a picture,
which is painted of water,
half of it by me.

And time and the water
flow trackless to extinction
into my own consciousness.
(Tradução de Marshall Brement)

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Equação problema

Seja x = eu + você, tal que
x² - 2x + 3 = 0
Não há solução real,
Não há solução real,
Buscaríamos a solução complexa?

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Poema Brasileiro (Versão Liberal)

No Brasil de cada 10 empresas que nascem
7 morrem antes de completar 5 anos de idade
No Brasil
de cada 10 empresas que nascem
7 morrem antes de completar 5 anos de idade
No Brasil
de cada 10 empresas
que nascem
7 morrem
antes
de completar
5 anos de idade
antes de completar 5 anos de idade
antes de completar 5 anos de idade
antes de completar 5 anos de idade
antes de completar 5 anos de idade

terça-feira, 30 de junho de 2009

Meus solenes transmutando em musgos

Hei-me enfastiado. Um sujeito decíduo, envergado, com vãos murchos entre os beiços decadentes de quem assobia canções inauditas. Um sujeito nascido enrugado, residente dos paços frondosos daqueles que ainda se querem ter com tez verdejante, tez ainda viçosa. Dizei, súditos meus, séquito impertinente, para que hei de vos ter? Para que me hei hierarquizado? Apoio-me completamente sobre mim, o báculo que possuo, tão retorcido quanto foram árvores a me produzir, tão pulverizado quanto foram os animais alimentícios a se dissipar. É vassalagem toda rejuvenescente, vassalagem polida tal os meus calçados lustrosos e deturpados, demasiado excessivos. Vassalagem não me sustenta, não obtenho apoio. Serviçais meus que poucas épocas cruzastes, rostos moços, ponde o monarca ancião sobre as meias de seda, dai-me o banquete, que hei de me suster. O monarca há de se suster por si, há no reino somente submissos e submissos serão gerados a cada nova reprodução. Não há novo, ó monarca senil, teu reino é só escombros, homem; e tu nem homem és, ó figura esquálida. Tens fissuras na face, mofino, e o que restas a ti é definhar cotidianamente. Rouquidão minha é coisa inaudível, de suspiro pedregoso, pois coleciono os bramidos de minha pessoal avalanche viscosa. Escorrei, foz de muco, escorrei até desintoxicar todo o vasto trono onde me hei assentado, até varrer de minha coroa pegajosa todo o pus infeccioso. O indivíduo consistindo no amálgama dérmico, o individual coexistindo coletivamente, e o rei que enceno sendo fruto dos tecidos dos tímpanos. “O que haveis ouvido, proclamai” e hei-me tomado por linho embebido em líquido amniótico, hei-me tomado como medula do que jamais haverei de governar. Apenas me hei exaurido, extraído da juventude recusada. Os subordinados sendo tenros em excesso, sendo meus membros, sendo quaisquer membros, sendo vitais ou dispensáveis e percorrendo os meus átrios soberbos, aqueles que hão de crepusculejar junto deles, aqueles átrios resplandecentes. Pena que me hei fatigado, eu, peça capital, regente que conduz, mas não deseja tal. Com que finalidade iria o restante me cultivar? Um cajado queixoso que ousa ranger além da permissão que tem. Não me deram permissão, tampouco estabeleceram limitações. Hei-me aqui, papiro a resmungar, relíquia mumificada e inutilizável. Concedo-vos alforria, concedo-vos o que for. Sede mutualidade, sede corpo, sede unidade, ó pilhas de moléculas pouco desgastadas! Sede a sede saciada das eras que não fui, e hei ficado.
As vezes em que meu sopro brevemente jazer, aqui este visitará imperceptivelmente e estender-se-á como duque sobre o divã. Ele será um testemunho pérfido, um escrivão herético, e disso não há de passar enquanto me hei contente. Não sede concisos, exceto quando o contrário não for praticável; tende a prolixidade como um dom sublime, todavia, não considerai a profusão tal dogma. O que veementemente almejo é que metaforizeis alegoricamente, em um pouso dúbio, porém plano, que decaia semelhante aos pêndulos das minhas cãs quando grandes vórtices de mim se aproximam. Súditos com menos de pares de décadas acumuladas, obedecei-me derradeiramente e movimentai-me – já que à locomoção não há trégua e esta deve perdurar. Tenho-me um todo incompleto, fragmentário, que se acumula, a se empilhar. Os beiços estão ambos dependurados sobre e sob o vão escuro que se abre imensamente, a bocejar, a comprovar o agastamento de minha soberania – e esta a ser enfadonha. O trono reclama como as articulações dele, como as minhas, mas os servos estão frequentemente dispostos a serem funcionais – a serem coisas que me compõem e que me higienizam, que higienizam o meu reinar. Algumas vezes poucas eles me advertem que sobre a minha calva acumulam-se quantidades consideráveis de poeira, de ociosidade; algumas vezes poucas eu os escuto – e, quando tal ocorre, dou-lhes meus ouvidos para que também possam ser higienizados e dou-lhes o cerúmen para que este sirva de alimento. Meus súditos não requerem quase nada de mim, alguns caprichos, alguma vaidades, e outras dádivas que lhes concedo e eles chamam de necessidades. Substâncias de forma geral servem para mantê-los próximo aos meus calçados, uns diminutos capachos deslizantes – que vezes me fazem ir ao solo, vezes de infortúnio. O cetim é algo terrivelmente escorregadio, terrivelmente lustroso, ofusca-me e deslumbra meu séquito – eis algo pernicioso. Eu sou todo ósseo e rarefeito, eles não, eles correm para muito distante, eles são todos cartilaginosos e densos, possuidores de vigor medonho que me consterna. Eles são linhas horizontais, paralelos entre si, e eu sequer passo de segmento. Contudo, abrigo heranças, tenho um cofre de ancestralidade, um baú multiplamente lacrado no qual eu me escondo. Lá é que reside minha coroa, ela é completamente plúmbea, e o pus que se acumula em redor absolutamente ebúrneo. São dois elementos que se misturam ao terceiro elemento intruso que sou. Quando me abrigo da jovialidade da criadagem, eles me acolhem com ingratidão, repudiam-me sem me deixar perceber. E eu me exausto de ser tão singular, tão individual, tão elemento intruso, e descanso. No meu descansar, ronco – e, assim, meus criados fazem música. Muitas vezes acredito que, em realidade, são eles que me fazem ressonar com tanto fragor, apenas para se certificarem de que não evaporei. Ao levantar, percebo que hibernei alguns pares de milênios, que minha fortaleza ganhou novos liquens e que não há mais nenhuma face conhecida entre os súditos, pelo contrário, vejo que há cada vez maior juventude, e maior juventude anônima e distante de meus calçados, longe de serem capachos – mas também longe de serem algo além de serviçais.
Uma varanda onividente cinge a fortaleza. Ela não é onividente, isso é um simbolismo, da mesma forma que os olhos que caminham sobre ela tampouco o são. O terraço tinha como campo de visão os meus domínios – no pretérito. Minha vista está estancada, estagnada na era de marfim. Minha vista é feita de visão e de flocos brancos – e isso é ainda mais intenso a cada nova hibernação. Vista de marfim, ou pus, que omite minhas ruínas. Elas estão lá, está tudo lá, porém tenho um véu que me cobre o cristalino, um véu de senilidade. Tenho as mãos vitimadas pela onicofagia e, entre suas rugas, há vestígios de tato, de um tato lento que se apoia vacilante sobre o parapeito e com o qual posso sentir os liquens, os fungos, os musgos. Esse tato rugoso cofia as cãs escassas que se cultivam em minha calva descoroada e para, desce até o veludo de minhas vestes - está ralo, veludo puído, de outros milênios, de eras recusadas – desce mais, até o mármore do parapeito, até as formas tênues de vida que ali habitam, e repousa. Hospedo progressivamente mais musgos, fungos e liquens à medida que meus servos aumentam. Cada vez os vejo menos, cada vez os sinto mais – e não os quero, não quero ninguém hospedado. “Saí de meus paços, frívolos, fugi!” – só que eles não se vão. Não me ouvem, esses levianos. Pensam que não faço mais do que grunhir, pensam que não formo diálogo, que não formo discurso. “Ouvi-me!” – e entendem como se eu estivesse a tossir. Estou em condições parceladas: o fastio degradável, desagradável, ocupa frações medonhas de meu dia e, de restante, há o vulto das vontades. Meu espaço é nulo. O que há de fato são meus deveres reais, de realeza. Realeza surreal, supra-real, ultra-real – uma outra condição, condição abastada, abstrata. Vagueza incondicional, mas compulsória. Vagueza de um trono varado, de coroa decapitada, da Coroa. Se já posso não reinar, ou se irei reinar em condições de indiferença, desejo minha guarda pessoal ajuntada derradeiramente, e que ela traga consigo todos os quadrúpedes montáveis que se abrigam nos meus paços. Os quadrúpedes montáveis existentes somente são aqueles de pescoços compridos, aqueles visionários que enxergam em lugar de minha vista esbranquiçada e baça, aqueles que veem longinquamente, que veem em campos remotos, e que são incoerentes augúrios. O maior capricho e prazer da senilidade, ou da senil idade, é o de poder montar girafas. Cavalgá-las frequentemente e nem se dar conta disso. Agarro-me àquele pescoço rijo e finjo que posso falar, agarro-me àquele lombo que se fricciona contra mim e finjo que posso me locomover – talvez eu até possa, mas não que eu lembre. Grandes girafas, imponentes, têm o poder de seus pescoços, e, por segundos, eu experimento essa sensação. Segundos ou minutos ou horas ou eras inteiras que podem ter sido sufocadas pelas neves das hibernações – não que eu me lembre. O que é mesmo relevante – ou talvez nem isso seja – é que posso cavalgar girafas e, com convicção, afirmar: “Estou montado em um visionário”.
Largo e longo bocejar – eis meu maior dom. Depois do centenário das eras, muito após o centenário das hibernações, aquilo tudo que era fragmentado e delgado em mim se agrupa em camadas adiposas deslizantes. Eu sou somente camada adiposa, ó juventude em meus territórios hospedada, aceita isso e me sirva mais do banquete à mesa, pois meus pés estão ficando inchados de ter de dar passadas. Eu deslizo de uma hibernação para a outra e para outra era e para outro baú da ancestralidade. Deslizo agora viscoso, limácida vagarosa, eis minha condição mais honrável. Divagar devagar, a única norma que sancionei em todo o meu reinado e também a única que outorguei aos meus criados; para o resto não tenho pressa. Nunca hei de me extinguir, pois moro em cada um que perto de mim mora e, cada outro que efetua êxodo, leva fatias de mim. Posso de todo me despedaçar, mas continuarei morando em cada um, eu e minha mucosa que me locomove. Eu não preciso governar, que esses todos façam os seus êxodos e construam seus próprios feudos – minha responsabilidade parasitária foi delegada. De sanguessuga me chamariam, mas o problema é que não sugo sangue, e tal catacrese não convém. Sou um molusco ubíquo, carregando o lar de todos sobre o meu báculo nodoso. São precisas comparações específicas a fim de justificar minha animalidade, metáforas breves. Ah, estivessem os nós empilhados só sobre o carvalho austero de minha medula... Por que devo eu ter dedos inchados, como se girinos flutuassem livres e natantes entre o ouro denso dos meus sinetes? Um sinete para cada dedo, e isso é suficiente, e isso é necessário? Não desejo identificar minhas correspondências: sou discreto, sou sigiloso. A velhice escorregadia muge sob a sujeira das minhas unhas finas, muge previsões a passar no pretérito. O estalar das vozes dos meus serviçais, aqueles que são um Quase ou um Talvez, estas vozes felpudas cochilam sobre as ovas de anfíbios. Pois não disse eu dos anfíbios? Disse das girafas, mas estes dois tipos de animais são figuras parecidas, com certas peculiaridades, porém irritantemente similares. Tenho idade debaixo da minha copa de arranhões de garganta (palavras quase termos), tenho idade o suficiente para não bem me lembrar das tais semelhanças entre as girafas de torres sobre o dorso e os anfíbios moles dos meus anéis. É, adquiri idades. Futilidades, vaidades, solenidades... Maldades não, das maldades eu tenho pavor. Sim, tenho um horror absurdo às maldades, um enrugamento cutâneo se apossa da região superciliar do meu resto, o buço se expande em uma batalha contra as estalactites do meu nariz. É curioso, porque maldade sempre me pareceu algo constantemente distante, de outros reinos, sem girafas, sem que ninguém pudesse visionar. Devo ter esmagado algumas maldades com meu calcanhar, não sei, elas não doeram tanto como doem os ouriços das minhas presunções. Eles sim, fios longos de rigidez, penetram sob as unhas, arrancam-nas, e coçam-me cortantes as dermatites. Ocorreu a mim só agora o meu aspecto repugnante. É provável que até eu o aprecie, e ainda o aprecie solenemente, por isso não me dou por mim. A repugnância deve ser-me atrativa, atraente... Basta de infecções sutis, maldades não cutucam chagas. Tempos chegam quando um rei deve mastigar seus minúsculos e irrelevantes musgos, fazer deles chá, degluti-los suave e perenemente na garganta. Tempo chegam, ou chegariam, se chegarem. Há probabilidades; sim, idades e prováveis idades.
É meio voluptuoso de minha parte, quando efetuo a punição física nas parcelas menores de mim, mas é apreciável. Não que eu fustigue os meus subalternos, só que por vezes acabo os exaurindo, quase os exaustando. A exaustão desses meus membros parece incrivelmente agradável, como a única maneira de exaltar a minha coroa à devida condição de fosca lucidez. Não sei se eles me encaram como sádico. Sou um velho leviano, não percebo muito além de um palmo da catarata de minha vista. As questões régias, os problemas que requerem disciplina, tudo isso é erudito demais para a pequenez de minha boa vontade, fazem as minhas articulações tilintarem. Ser velho não dói como muitos pensam, o que acontece é que um ancião se desgasta compadecido com os camundongos que limpam as manchas ao longo de suas coxas arrepiadas. Ser velho tem gosto de calcário, meu privativo o sabor helênico. Não vou falar do mármore das colunas, é previsível demais. Até porque sempre repudiei mármore, sendo adepto do breve granito. Entretanto, são questões de boa postura, um rei sem mármore é algo inadmissível. Ao ficar antigo e acumular idades, acabei percebendo que conduta é uma coisa de significância minuta. Porém mármore não é algo tão modificável quanto parece, e retirá-lo dos parapeitos e dos assoalhos das varandas me é custoso. Meu alento é mergulhar na terra desnuda que faz rodeios nos jardins, empestada por larvas amigas e anelídeos condescendentes. Lá eu colho os granitos dos meus caprichos, isolo os quartzos, que são tentativas falhas de projetos desvairados, e arranho as coisas que ficam em volta. Futuros insetos eu arranho, e eles fogem. Moscas em potência, vespas e libélulas que serão, tudo que é novo e fresco escapa de mim. Os anelídeos não, eles apreciam a minha aparência de varizes e estrume, e, portanto, se aninham junto às minhas dobras. É curiosamente abafado esse processo, e ainda bem mais aprazível do que as hibernações nos baús. Dar-me-ei a liberdade momentânea de efetuar uma comparação dispensável, que é a de supor que me empilhar no jardim é como entrar em uma urna, não em um baú nem em um vaso, mas só e unicamente em uma urna. Afirmo tal inadequação literária por causa de um episódio inconveniente que certa vez me ocorreu. Meus pajens, vós, se é que possuís a aptidão de depositar qualquer em vossas mentes gelatinosas, deveis estar cientes da dita ocasião. Um infortunado evento, em uma das vezes distantes nas quais recebi pessoas de idades equivalentes à minha em meus domínios. Veio a mim, então, um muito obsequioso senhor de modos contemporâneos, trejeitos afáveis e polidos, requisitar-me qualquer coisa ou oferecer-me serviços, algo que não posso reconvocar à minha memória no momento. Creio que ele oferecia companheirismo, e especulava sobre o assunto com ânimo e vigor, chegando mesmo a me oferecer algo completamente inusitado e encantador, pois ficava exaltado com intensidade e frequência - consultarei meus subalternos posteriormente para averiguar o que era. Francamente, acredito que ele me vendia a girafa que possuo, eu me lembro de fechar algum negócio, barganhar, trocar peças metálicas. Ao fim, tenho certo que supliquei ao homem que experimentasse a infusão das mais nobres plântulas que nasciam pelas frestas de minha edificação. Submisso e meão, aceitou sem qualquer relutância. No dia, eu carregava em mim doses grandes de orgulho e garbo, e pus-me a preparar a bebida com as mãos que levava nuas. Havia já um estoque das plântulas que, como idéias a brotar, estavam tão vedadas e empacotadas quanto poderiam ficar ao lado da chaleira. Notei que o material para o preparo havia, mas não o continente. Foi quando decidi usar a urna. Não demorou muito para que eu a retivesse entre minhas palmas desvendadas e me esgueirasse para dentro dela. Não hibernei, fixei-me à parede interna e me quedei sem repousar. Adquiri uma girafa sem pagar. O senhor homem saiu de meu estabelecimento satisfeito com a minha majestade, sabia com clareza incorruptível que eu, representante absoluto da vanguarda moral, adiantava a ele, com a exclusividade daquele momento breve, a conduta futura de minhas gerações: a esquiva. Foi um instante de tolice fulminante que o tomou, ignorando que não deixarei descendentes justamente pelo fato de que jamais serei um ancestral. Perdurarei além de todas as esculturas e mausoléus contemplativos. O hálito das chagas me carregará.
Correto, as chagas. Eis que chega, portanto, o momento o qual desejo nomear sublime, justamente por ser este o termo que aglutina tantas pretensões e calamidades quanto qualquer entusiasta poderia prontamente cobiçar. Pois sim, bem, calamidades, é exatamente este o instante. O hiperbólico segundo hiperdesenvolvido no qual as protagonistas serão vós, ó vós, minhas magnânimas chagas! Deleitosas pragas de mim. Que se desenvolva o procedimento, pois, com a paciência que me é peculiar, aguardar-vos-ei. Indagais-me vós se sois frutos dos meus vermes anelídeos, se é possível que eles me tenham carcomido as banhas a tal ponto desinteressante. Sois minha heranças, não percebeis, caras filhas enjeitadas? Sois o que deixarei para rondar o meu reino com outros rinocerontes e outros hipopótamos. Sois o que restará, o que será abundante. Por que motivo obscuro ainda me indagais vós sobre o que virá? Por que razão insensata ainda credes vós no poder transcendental das parasitoses? Mas atendei! Percebei, gentis hóspedes, se eu cair, vós expirareis! Não extraí mais nada da matéria de meu organismo, é isto o que vos rogo! Eu caio e vós sereis cessadas! Não haverá mais nada a vós depois, atende àquilo que possuís agora. O momento vosso, o momento de vossa herança é este. Vós restareis, sim, porém somente enquanto eu sobreviver. Vossa herança é antecipada, e para tanto me fiz um monumento. Não que eu tenha erguido algo em minha homenagem, pelo contrário, eu me tornei um monumento, fiz-me do meu respeitado granito. Podeis me contemplar agora, herdeiras ingratas! Ó úlceras corrosivas! Encaremo-nos, somos aristocratas frustrados. Faltou-nos algo, não soubemos usufruir bem dos frondosos paços. Adquiri tanta coisa antes de erguer um depósito, um armazém de recordações. Vede vós o que me tornei, e por desleixo; vós me dominastes. Minha debilidade foi tamanha que larguei certas frequências de mim ao relento. Relento que se tornou nevasca, geada sobre mim, e acumularam-se as cãs do oblívio sobre minha cabeça. Isso se faz pesar, pressiona-me. Ó feridas expostas de meus caprichos, cicatrizes imundas, estigmas que inspiram nojo, sabeis o que é não me lembrar de vossa imagem passada? Sabeis o que é ver fuligem do que fostes? Endereço-me à lareira, à grande obra do meu mármore profundo, e está lá. Lá, pretérito. Entre as marcas de meu punho, meus pulsos hirsutos contemplam cinzas. É isso o que posso ver! Cinzas são tudo o que podeis ter como lembrança daquele que herdou inevitavelmente a monarquia, mas que na aristocracia se embalou em pó, e de pó se fez. Foram as traças que me deixaram assim, com vós, chagas, úlceras, marcas asquerosas! As traças deixaram tudo o que eu sustentava roto! Tenho as ideias rotas! E é lá, onde já vos indiquei, na lareira, é lá onde preservo resquícios de preciosidades. As pratas oxidadas, as que não refletem mais, os cobres cobertos de azinhavre, aqueles aspirantes a esmeraldas, é disso que me nutro. Se sabeis o que é haver uma película que vos perfura, sabeis de mim. Essa crosta de material pouco nobre sobre os objetos é que me atormenta. Essas porções heterogêneas de impurezas me ocultam os artigos de primeira necessidade. Perco as lunetas em meio a tanta partícula desprezível, perco a visão junto com as lunetas, e ainda junto com elas perco também as imagens especulares, além daquelas espetaculares com as quais nem conto mais.
Hei-me então aturdido com a pequenez das obras domésticas. Apenas porque a criadagem não possui a capacidade devida para polir os metais do palácio, estou cá a me impacientar. Juventude, tenho ciência de vossa incapacidade, vossa fatuidade, vossa frivolidade, vossa volubilidade. Ó Juventude de pouca idade, inexperiente diriam os mais desdenhosos, Juventude de muitos cabelos. Sois um bando de frescor que me rodeia e vos desprezo solenemente. Corte minha desprovida de rugas, não me segui mais! Não salvo um metal sequer nos cofres, nem o mais baixo deles habita lá, até latão me renega. Corja depravada de amenidades, vossa honra é a de seduzir o espelho! Lamentai, não dou crédito algum a vossas vozes. Menosprezo vossa loquacidade, escarro sobre vossos argumentos. Falta-vos a erudição que apenas batalhas letais contra o firme braço do definhamento poderia vos fornecer. Que tenhais a sutileza de vossas faces espancada pelos dias e pelas insonolências até atingirdes o grau de deformidade que hoje possuo. Que engulais toneladas maciças de celulose rabiscada, até poderdes citar todos os teoremas já enunciados. No momento, contudo, o que vos peço não é de todo intricado, pelo contrário, efetuo uma requisição simplória. Por obséquio, deixai repousar as minhas pernas varicosas, elas já estão túmidas a ponto de incapacitar minha locomoção. Sede mais uma vez a poltrona longa sobre a qual eu me assento, caminhai pelos campos meus herdados, e levai-me finalmente aos outros reinos, levai-me para dialogar com os monarcas que não tenho contato, os soberanos que repudio. Levai-me a um sarau esta noite, embebei-me em vermute e me jogai às Fontes do Tempo, pois já me preparo para a próxima hibernação.