quinta-feira, 30 de abril de 2009

Alucinação

O vento gélido que a lua sopra
Bate em minha pele e meus ossos toca,
Sobe-me um calafrio.
Passam por mim assombrações velozes,
Milhões de imagens e milhões de vozes,
Fluindo como um rio.

É justamente à noite, esta mãe sombria,
Que olhando ao homem eu nele só via
O seu miúdo existir.
E as estrelas, que rodeavam sua rainha,
Formavam uma criança celeste que vinha
Alentar o meu dormir.

Era este céu noturno que eu observava
Parecia-me glorioso, como que estava:
De luz prata a se banhar.
E o célebre espetáculo da estrela cadente
Que do firmamento descia, e num repente,
Convidava-me a sonhar.

E sonhava, a cada instante e a cada momento,
A eternidade cósmica que no céu represento,
Que alucinado ansiava ter.
Mas depois despertava, suarento, a berrar
E ouvia novamente a lua triste suspirar,
E o vento sussurrava: Morrer...

"Solitário trilhei longo e árduo caminho"

Solitário trilhei longo e árduo caminho,

E fiz dessa tempesta um dia radiante,

Solitário, seguindo minha estrada errante

Matei todos à vontade de viver sozinho.

Solitário, vi a noite com especial carinho

E encontrei no ar puro especial torpor,

Solitário eu abri mão de todo teu amor

Para aprender eu mesmo a amar sozinho.

E essa solidão que todos buscam evitar

Tive de andar muito para encontrar

Vagueando, muitas vezes que a esmo.

E a sombra negra que me seguia relutante

Abandonou aos poucos o meu ser viajante

Até que me vi na companhia de mim mesmo.

Desnudai-vos

Chegarão os dois em casa, coincidentemente, no mesmo horário – como é a coincidência de todas as sextas-feiras. Estará ela de escarpim, vestindo uma saia justa de mesmo padrão que seu paletó, sutil. Estará ele de sapatos bem lustrados, camisa bem engomada - bem alvejada, também com um paletó, entretanto sem padrão (não convém), todo preto, combinando com as calças devidamente passadas, a gravata de um tom sóbrio. Não se falarão. Não, não haverá cumprimentos. Suas pupilas não se encontrarão, não haverá qualquer olhar. Com os ombros juntos, embrenhar-se-ão pelos corredores intermináveis, desembocando em uma sala com uma larga lareira central. Lá, no imo do lar, despir-se-ão agressivamente, sim, em um frenesi absurdo, sádico, e, contudo, frígido. Ela principiará por lançar o escarpim por uma grande porta de vidro, que se estilhaçará. Ele firmará seu punho sobre a fileira de botões de sua camisa e, sem qualquer expressão facial, puxará com força aquela região central sob a gravata, deixando o peito fustigado transparecer. A blusa da mulher, de alças, será retirada tranquilamente, primeiro o lado esquerdo, depois o direito, sem auxílio do homem, revelando também marcas de látego sobre o colo. A gravata dele será calculadamente retirada, dobrada com zelo e lançada ao fogo da lareira que, aparentemente, parecerá alimentada por flâmulas perenes a estalar em um chiado manso. O calor será azul, isento de fuligens. O coque dela será desfeito, deslizando sereno pelos ombros, e, à luz vacilante das chamas, confundir-se-á entre a cor de uma palidez profunda e do negro reluzente. O paletó de ambos escorrerá pelos braços, caindo ao fogo anil. As calças e a saia, bem como as peças íntimas, serão repuxadas com fúria moribunda tendo picos intensos e movimentos leves, que desencadearão no fato de todos tecidos serem entregues à lareira. O restante - joias, relógios – despencará pela janela. As alianças douradas, agarradas aos nós dos dedos, arrancarão com os dentes e as engolirão como um ato corriqueiro. Ao término, ele sucumbirá com as mãos na fronte, plangendo e murmurando lamentoso, ela apoiará a espinha à parede sombreada, cofiando as sobrancelhas e fechando as pálpebras pesadas de maquiagem. Os gestos femininos demonstrarão asco pela figura máscula ali ajoelhada, e esta, por sua vez, lamentar-se-á, tendo toda a sua compaixão voltada a si. Os peitos de ambos estarão visivelmente flagelados, preenchidos com estigmas severos, cicatrizes doloridas, nódoas forjadas sobre a epiderme.
Ele cessará o soluçar ao mesmo tempo em que ela se desapoiar da parede, e encaminhar-se-ão a uma extensa casa de banho cortada por uma iluminação tênue que provirá de luzes externas atravessando a janela. Sobre uma longa pia, estarão produtos cosméticos dispostos organizadamente. A mulher, inexpressiva, jogará os braços moles por cima dos frascos e derrubá-los-á todos fazendo movimentos de ziguezague com os cotovelos. Seu marido, aquele que, como ela, engoliu a aliança, debruçará sobres os esmaltes multicoloridos da esposa que estarão no chão, em potes quebrados e com as tonalidades misturadas, e espalhá-los-á pelos lábios, fazendo-os luzir sob o brilho que lhes cruzará. Ela então apanhará o creme de barbear do homem e aplicá-lo-á sobre as pálpebras pesadas de maquiagem, de forma a criar uma viscosidade cintilante e escura, e também sobre os lábios, fazendo seu batom dissipar-se em tons indefinidos. Ele pegará, próximo ao vaso sanitário e a um ralo repleto de fios capilares, um batom destampado e delineará sobre o busto os contornos feitos pelas cicatrizes, tingindo-as como que com sangue, mas sabendo que não é. Já sua esposa, aquela que, como ele, engoliu a aliança, estará a vasculhar pelos azulejos do chão os cacos dos frascos, premindo as palmas contra estes sem deixá-las sangrar. Encontrará uma tesoura bem ao lado da bancada da pia, no assoalho, empunhá-la-á e cortará rente os cílios e os pêlos da cabeça, deixando falhas e irregularidades. O homem fará o mesmo, pegando o utensílio das mãos dela sem fitá-la. Ambos retirarão das gavetas navalhas e, com elas, apararão o restante dos cabelos desordenadamente e deixando tufos. Também, com a mesma meticulosidade, rasparão os pêlos púbicos e as sobrancelhas. A mulher irá novamente se apossar do creme de barbear, pincelando-o sobre as unhas. Ele amontoará os esmaltes espalhados pelo assoalho e, usando-os tal tinta, com as mãos espalmadas, pintará todo o rosto. Apossar-se-á também daquele mesmo batom que já haveria usado e, com este, riscará suas costas onde puder alcançar. Com a navalha e a tesoura, depilará as axilas.
Aquele casal de aparência andrógina regressará, portanto, à sala da lareira e sentará ao redor do fogo, como se estivessem em volta de uma fogueira, reavivando sensações primevas. Gritarão silenciosamente, asfixiando dilemas contemporâneos e libertando um rugido rouco puramente entranhado. A agonia imperará na expressão de ambos. Ficarão os músculos do pescoço tesos, a traquéia relevada em um óbvio aspecto de terror, os glóbulos oculares exaltados sob a pálpebra cerrada e inquieta. Terão o mesmo arrebatamento daquele que vê o fogo pela primeira vez e o mesmo assombro de quem o ousa tocar. Circundarão a emanação anilada com um caminhar cambaleante, como nômades exaustos de uma jornada infinita e extremamente demandante. Quando pararem, haverá o êxtase da convulsão, da implosão total, o desmoronamento interno das paredes e tecidos que compõe preceitos, princípios e normas de convivência. Grunhirão ariscos e destoados, como quem tudo desconhece. Por fim, deitar-se-ão ao solo bruscamente, desmaiados, desfalecidos, dormentes. Esparramar-se-ão à base da combustão azulada, com sombras fátuas cobrindo-lhes e descobrindo-lhes os semblantes apaziguados. Estes variarão entre o funesto e o prazeroso, o que se mostrará por suas constantes palpitações musculares. Ao se libertarem da modorra, embrenhar-se-ão novamente, ombro a ombro, pelas passagens labirínticas da casa. Percorrerão, dando voltas, a extensa casa de banho, uma cozinha, outros banheiros, despensas, adegas, átrios, salas, câmaras, antecâmaras, para chegarem, enfim, à alcova. Dentro do aposento, a mulher, tendo engolido a aliança, engolirá também a espuma dos travesseiros, enquanto seu marido, também tendo engolido a representação áurea e material do matrimônio, por sua vez, engolirá os cabelos raspados de sua mulher, encaminhando-se à tal e não distante casa de banho onde haveriam sofrido a transformação. Farto, ele retornará ao tálamo e debruçar-se-á sobre o mesmo, regurgitando o que haveria consumido. Ela também o fará, todavia, seu vômito formará um córrego esverdeado, acre e gelatinoso sobre o criado-mudo no qual se encontrarão alguns papéis e um telefone. O líquido de bílis e substâncias parcialmente digeridas cascateará através das gavetas semi-abertas e empoçar-se-á sobre o tapete de feltro estendido sobre os mármores do assoalho. Ambos deitar-se-ão à cama, com a cabeça e as costas apoiadas à parede e os quadris firmes sobre os destroços de espuma, vômito e pêlos. Entreolhar-se-ão com as pálpebras fechadas, as mãos sobre o ventre. Poderá ser percebida a inquietante semelhança. A mulher sem bustos fartos ou quadris bojudos, o homem sem musculatura muito definida ou torso robusto. Delgados, lânguidos, flácidos, abatidos, lívidos, pálidos, doentios. Androides.

Untitled #8

Olhavam-se. Não conseguiam - nem queriam - desviar o olhar. Não haviam trocado uma palavra sequer até o tal instante. O mundo se resumia àqueles dois e aos desenhos que estavam fazendo um do outro. E só se olhavam, sem uma palavrinha. Na verdade, não precisavam de palavras. Ali, naquele momento, conseguiam provar de que se fala muito mais com os olhos do que com palavras. ‘Palavras podem errar. Olhares, não.’, pensavam. Era como se estivessem esperando por esse momento há muito tempo, mas não queriam que acabasse.

Sorriam como nunca. Analisavam cada milímetro do rosto do outro.

-Eu te amo.
-Oi? - Parou de desenhar e olhou diretamente nos olhos.
-Eu te amo...
-Mas o que é que...
-Eu te amo!
-Você... Está se sentindo bem?
-Claro! Eu te amo!
-Não sei o que dizer...
-Tome um gole de café... Você se sentirá melhor.
-Não... Não é isso... Acho que...
-O que você sente?
-Eu gosto muito de você.
-Você também?
-É. Eu amo você.
-E agora? – sorria docemente, como se o tempo tivesse parado naquele instante.
-Podemos fazer qualquer coisa... Ir para qualquer lugar... Para mim, só você basta.

Desviando a direção dos olhos pela primeira vez, pagaram por todos os cafés que não perceberam ter tomado durante toda a tarde naquele lugar. Mas não importava. Naquele momento se davam o benefício do egoísmo. O que importava era que estavam lá... Isso bastava.
Parou. Pensou um pouco:

-Para que amar?
-Por que não amar?
-Não, não... Por que isso tudo?
-É bom, né?
-Mas... Espere... Veja: por que amor? Para que amor? O que é amor? Você sabe?
-Não, não sei. Mas sei o que sinto. E sei que é amor e eu... (gosto).
-Você acredita mesmo nisso?
-Quando a gente sente, não precisa acreditar. Está ali, basta perceber.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Crônicas Carpe Diemnianas volume dois: Magnolia

Não se viam há muito tempo.
Tanto tempo que, quando seus corpos se tocaram pela primeira vez na noite de começo de outono, estranharam o sentimento de confiança que tranquilamente os invadiu. Ele se encontrava nela. Ela se encontrava nele. A perfeita reunião do andrógeno.
Na realidade, não se viam há tanto tempo que o sexo foi realmente especial. Não que antes não fosse, mas desta vez foi outra coisa.
Um beijo e se separam. Voltam por um curto período de tempo a serem dois.



Ela chora.
Ele abraça, acaricia, beija a face.



- Desculpa - ela diz.
- Não precisa se desculpar... está tudo bem.
- É só que...
- Eu sei. Vai ficar tudo bem.
- É, vai ficar tudo bem. Confio em você.

- Por que tem que ser assim?
- Não tem que ser assim... - ele responde, acariciando-a levemente - e não vai ser assim. - E a coloca tranquilamente para dormir.
Beijou-a de leve e saiu, com cuidado, para não acordá-la.
Fumou devagar, fumou toda aquela conversa, sempre dando voltas naquela pergunta que tinha respondido com tanta segurança e sinceridade.

Voltou. Ela estava sentada no meio da cama.
Chorava.
Se abraçaram.

- Está tudo bem... tudo bem...
- Eu não quero ter que te deixar...
- Você não precisa... Vou estar sempre com você. Sempre.
Voltaram a deitar, ainda abraçados.



- Eu te amo.
- Eu te amo.

Desnude-se

Desnude-se; não é tão complicado como parece ser.
É simples: a proposta do blog é postar o que quer que seja que nós façamos, e o nome reflete a crença de que através de cada 'trabalho de arte' que criamos, deixamos um pedaço nosso, como uma assinatura invisível.
Podemos dizer que cada obra é uma correspondência de seu autor, um reflexo de sua personalidade, e que - após um tempo - é possível conhecer o autor pelo simples conteúdo e linguagem usados; sem assinatura, sem nome, sem nada.
Vamos aqui postar, na medida da creatividade, o que criarmos, o que 'produzirmos', e espero que você - quem quer que você seja -, goste do que seja postado aqui.
E um muito obrigado para todos aqueles que resolverem no acompanhar nessa jornada!