domingo, 31 de maio de 2009

Até semana que vem

As crianças foram embora do parquinho. A noite se aproximava, lançando a escuridão que lhe clareava as idéias. Seu balanço já não balançava mais, estava quieto, olhando não sabe exatamente para onde. Resolveu não fumar, apesar de o melhor dos climas chuvosos de Londres assolar o dia. Na melhor das hipóteses, ficaria por ali até que amanhecesse novamente porque, afinal, amanheceria. Como não a via, tentava imaginá-la. Perdera a oportunidade que, apesar de não ser a última, era a certa. Flashbacks em sua cabeça sussuravam-lhe mostrando como ela dançava, como sorria, como olhava - apesar de não lembrar do que ele próprio fizera no dia anterior. Poderiam ter feito caminhada na praça pela manhã e ido à sorveteria pelo entardecer. Mas não, estava no maldito balanço e sabe-se lá onde estava ela.

Passados vinte minutos, amanheceu. Não, não era o sol, o poste acendera-se automaticamente. Irritou-se. Ainda sem saber onde ela estava, mas sabendo que queria estar lá, levantou-se, rumou ao ponto de ônibus, encontrava-se do outro lado da cidade. Por sorte, o ônibus dobrou a esquina justamente quando ele chegou ao ponto. Entrou, cumprimentou o trocador, sentou-se. Chegou em casa, esvaziou-se, esvaziou os bolsos - apesar de ainda estar com toneladas nos ombros. Deitou, tentou dormir, levantou-se, passou o café e ficou na janela do escritório esperando-a. Ela não viria; e ele esperaria até a próxima semana, quando enfim teria o derradeiro momento necessário.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Linhas a um Natimorto

Contemplem o olhar do infante,
Esquecido pelo Zodíaco, abortado,
Embriologicamente sepultado
No ventre de esquálida gestante.

O néctar amniótico inda fluindo,
Fruto maldito d’ ilacrimado parto,
Nos olhinhos mortos já parece farto
Da resignação de quem padece o limbo.

Ser inumano de estranha sorte,
Ao encarar prematuramente a morte,
De um nativivo não sofreu o ar.

Expande os teus ácidos aminóicos,
Estás no berço lógico dos estóicos,
Etéreo respirar!

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Crônicas Carpe Diemnianas volume oito: Cutting Ice to Snow


"Te vejo às cinco?"
Foi pega de surpresa pela mensagem. Estava completamente perdida em seus pensamentos quando o celular tocou e, apesar de saber quem era, estranhou a interrogação no final da frase.
Sabia não precisar responder; "errou quando estava escrevendo, só isso", pensou.
Foi ouvir os pássaros cantando na varanda. A primavera fazia-a feliz. Uma felicidade simples, que não pedia muito.
Nova mensagem: " Te vejo às cinco?"
Começou a ficar inquieta. O mesmo 'erro', apesar de a segunda vez confirmar que desda primeira já não era, e uma insistência que ainda não conhecia.
Respondeu com um 'claro' e foi se arrumar, não queria se atrasar.

Chegou às cinco em ponto.
Viu-o. Estava com um amigo, uma face conhecida. Bebiam. Fumava; no momento em que entrou apagava um cigarro no cinzeiro com a mão direita, enquanto a esquerda já buscava o maço de cigarro pousado sobre a mesa.
Também a viram e levantaram-se instantaneamente. Quando chegou na mesa já estava só. Hoje tinha chamado-a ali por uma razão - razão que, apesar de toda a curiosidade, ela sabia que preferia não saber.
Sentaram-se. Silêncio; ainda fumava. Do tipo de silêncio que dói, que é pior do que todas as bobagens já pronunciadas.

- Tudo bem com você? - ele finalmente começara a falar.
- Sim, tudo bem... e com você?
- É... - novo silêncio - pode ser...

- Que foi? Tem alguma coisa errada?
- Eu... estou tentando falar isso da maneira não terrível...
Ela sabia que não queria muito escutar o que ele tinha para falar, mas também sabia que era necessário. A confiança no outro, e ela confiava; cegamente.

- Pode falar... é algum problema na sua família?
- Não, em casa está tudo bem...
Isso acabava com a 'melhor' possibilidade; ainda não falava.

- Me traiu? Tudo bem... pode falar, eu posso entender as suas razões...
- Não, nunca te traí. Não é isso, é só...
Expectativa.
- Acho que não adianta mais continuarmos com isso... - e começou a falar: falou de tudo, de todo o tempo que tinham passado juntos, todas as coisas boas, as risadas, as brincadeiras, mesmo os momentos mais difíceis, e mesmo assim... mesmo assim falava que era hora para terminarem.
Não conseguia acreditar; estava sem palavras.
Não falou nada durante todo o discurso, e olhava também para o nada.
Enquanto ele terminava, tudo o que ela conseguia pensar era nas manhãs em que ele comparava os potes de mousse para escolher o com mais chantilly e estender o vencedor para ela.


[foto por: Daniel Nunes]

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Bons homens
são como pedras
na areia:
encontrá-los dói.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Motion

The infinite blur of the sea I beheld
And there on azure dreams I got lost
And refracted my soul neglected.
The secret vastness that ocean held
In non-epicurean buildings of frost
The blue blur of the sky reflected.

Those shells I held pierced my hand,
Red rushing blood carried by waves,
Red stains on paintings – The Scream.
Oh water and salt, oh stones and sand,
Life’s nothing more than a dream!

The night passed by and soon was dawn
And along with the sun no sound came
Nor winds nor waves, no noise there was.
My eyes were still, I breathed in yawns.

My eyes were closing, I bred no longer.


Explodes the night, the elements fight,
In furious rotations all planets collide,
Black holes devour, expands every hour,
Nothing is greater than Power!

sábado, 23 de maio de 2009

Evolução

Ajoelha-te, homem
Ora com fé a teu Deus,
Roga-lhe a vida
Qu'Ele é o Senhor teu Deus,
Sede humilde homem
Que um dia esse Deus
Do mal salvar-te-á.

Levantou-se o homem
Cansou-se de orar
Fadigou-lhe a espera
Teu deus não virá
Percebeu-se uma vez
Não como servo
Mas livre para andar.

Andou a esmo o homem
Adorou a terra, o mar
Percebeu que nesse mundo
De infinita beleza para olhar
Nunca houve sentido
A procura do ente perfeito,
Do deus que nunca existirá.

Vanguarda – O batedor

Frente aos íngremes caminhos de terra,
volteia insanamente uma figura
que, descendendo de alarmante altura,
retorna de seu percurso de guerra.

Em seu ouvido a tempestade berra,
do vento o grito seus sensos perfura,
vagueia indigente sem achar cura
à úlcera adquirida além da serra.

Tombam na face as cruas cicatrizes
de povos marcados pela demência
das eras sumariamente devastadas.

Perdida, a figura forma raízes
sobre a invalidez da sapiência
de fátuas teorias antiquadas.

A vigília e seu pesadelo

- Não creio nos diálogos. São monólogos entrecortados, interrompidos, em conflito, em consonância, em ressonância, em dissonância; mas são monólogos. Só os monólogos carregam conceitos. Diálogos não passam de monólogos a dois.
- Completo desvario! Total incoerência! Diálogos são a reabsorção e o câmbio de ideias. Diálogos são o fluxo consciente redobrado e revertido, em expansão.
- É impossível a manutenção de um diálogo, ele se esgota por si só, em sua suma inconstância. Nenhuma forma de diálogo se mantém, ele se esvai em amenidades, em desinteresse, em polidez; é um desgaste crescente e inevitável.
- Há, contudo, um ápice, um momento culminante da conversação no qual se dá o instante preciso de câmbio de conceitos. Neste instante o diálogo enriquece e engrandece, havendo uma troca de saberes, desenvolvendo todas as partes abarcadas pelo intelecto.
- Ocorrem puramente debates, discussão. A comunicação já é perdida antes mesmo do princípio da interação. Não há uma linha de ligação, de coesão, apenas termos esparsos desvanecendo em uma lava de retórica falseada e repleta de afetação. Ora pode ocorrer a total concordância, a paralisia crítica por ambas as partes, e, por consequência, reduzir-se tudo a nulidade e irrelevância. Ora pode ocorrer também a submissão completa, a aceitação pura e irresoluta do argumento contrário, por conta do desânimo a se engajar em um parlatório fervoroso. Ou ainda este último pode se revelar, a discussão exaltada, a absoluta discordância, a desrazão - o perene, incessante e infatigável desacordo. Ainda que se tente...
Uma boca repleta de sons que se fecha. Uma caneta que se deita sobre uma mesa de canto.
- Vejo diálogos, e os escuto obviamente, por todas as partes. Mesmo os mais ínfimos ruídos são diálogos, e mesmo os cobiçados, por assim dizer, monólogos, também são diálogos aos meus sensos. Pois não passam aqueles, os monólogos, de diálogos entre duas pessoas que são a mesma, ou ainda como gritos ecoados da consciência que responde a si própria. O diálogo é um abismo que se basta, suficiente nas congruências das formas que possui e que se completam. São grandes formatos cônicos que se correspondem e que, neste processo, exercitam...
Manifestações de impaciência. Dois dedos que pousam sobre um copo. Uma palma que gira o pulso no ar. Movimentações vagas. Movimentos insignificantes do pescoço e da cabeça. Gestos e outras posturas sem qualquer importância.
- Há certos diálogos que norteiam a conduta de indivíduos e que impedem qualquer tipo de interação verdadeira. Sendo esse código intraduzível em conversação, é, portanto, impossível que ele seja superado e talvez até indesejável que tal aconteça; isso confere ao diálogo e à comunicação um aspecto de distorção e mesmo de irrealidade, o que faz com que a explanação de ideias, conceitos, termos e mesmo representações jamais sejam válidos. A invalidez é uma característica inerente ao diálogo, e, por conseguinte, a sua inexistência concreta e utilitária é assim uma maneira de...
Agitação brusca de plena inquietação. O ranger de mobílias. O farfalhar de cortinas alvejadas e a textura de um sapato escuro bem lustrado que desliza sobre o tapete. Quietude.
- A afirmação é uma peculiaridade da conversa, ainda que guiada pela dúvida. É irracional negar a presença de respostas dentro de uma conversa. Ainda que obscurecida e omissa, desviada de seu curso direito, a resposta acaba por se revelar em um diálogo. E a gênese desta resposta é a especulação que pode ser provida somente pela duração e pelo vigor de um diálogo bem constituído. Até mesmo o monólogo, que é o diálogo privado, mostra esta duplicidade exercida pela...
Vapores que se envolvem com tecidos. Bruma que perpassa a janela aberta. Luzes que penetram pelo vidro. Vozes exteriores que espreitam o espaço curto do jardim. Inquietude.
- O diálogo é o reflexo do monólogo em um espelho baço, impolido e distorcido. O diálogo é todo de vozes espectrais e especulares.
- O monólogo é também duplicidade, porém auto-suficiente e rebatida. O diálogo é a essência de qualquer fenômeno já compreendido, pois só a compreensão do diálogo é capaz de gerar tal nível de sapiência e realidade. Assim, o diálogo é o concerto de vozes atuantes que se repelem ou se unem para reter conceitos preciosos.
Passos na escada coberta por carpetes felpudos. Ruídos surdos. Uma porta de entrada que se abre e que se fecha novamente. O portão do jardim que oscila ao vento intermitente. Corujas e camundongos. A mudez de um cadeado que se destranca. Desespero. Abalos sísmicos. Pedras que caem. Móveis ao chão. A estrutura que chacoalha. Fuga e desespero. Termina o diálogo.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Para você

[A vida nos propõe encontros engraçados, coisas que subitamente quebram o costumeiro decorrer do dia; surpresas inesperadas.]


Já tinha esperado vinte minutos pelo trem atrasado de manhã, feito prova de inglês no primeiro horário e apresentado em geografia no quarto; fui para a escola com uma mochila do tamanho do mundo e arrastando um saco-de-dormir, já que não planejava passar em casa antes de viajar.

No terceiro horário percebi que minha câmera estava sem baterias - uma surpresa não tão surpreendente, considerando que eu a tinha usado durante toda a semana anterior. 'Pegar um trem mais cedo e ir em casa pegar o carregador', pensei. E sem problemas, contando a parte que eu cobri a distância entre a escola e a estação em cinco minutos.


Até então o fato de ter esquecido o carregador tinha sido só um problema, mas quando me sentei no trem tudo mudou. Santa Rosalia começou para alegrar a minha viagem, acompanhada de uma avó com seu neto.


Sentaram-se do outro lado do trem, a avó com o neto no colo, olhando para fora da janela. Apesar de ser bastante comum, o menino provavelmente ainda não tinha feito muitas viagens de trem; nem conseguia falar, não era surpresa.


A música já tinha me feito abstrair do mundo, até que, sem querer, encontrei o olhar do pequeno. Foi uma conexão instantânea: o mundo - que já não existia mais - estava agora ali, na minha frente. O menino me olhava com intensidade, apesar de não mostrar nenhuma emoção em seu rosto - que por sua vez era idêntico ao da avó - e de, quem sabe, ainda não ser capaz de me julgar.


Tal olhar de uma criança é bem mais duro do que o resultado de um check-up fisio-psicologico completo. Eu abstraido nele; ele abstraido em mim. A paz centrífuga que tinha me invadido com Santa Rosalia de repente se acalmou. Era como se aquele menino pudesse me ver como sou, a nudez completa de corpo e alma.


De uma maneira tão estranha quanto a minha, o menino também não desviava o olhar, mesmo enquanto sua avó o chamava e o convidava a admirar a paisagem correndo do lado de fora da janela. Eu, por outro lado, não conseguia pensar, meu corpo já tinha sido desligado pela música e pelo olhar fundo.


Como que sendo puxado para fora da água, tive que quebrar o momento e sair do trem já que era minha parada e eu ainda tinha um carregador para pegar em casa.


Desci e, enquanto flanqueava o trem para chegar às escadas, vi o menino, que agora tentava também sair do trem, mas sem sucesso.

domingo, 17 de maio de 2009

Crônicas Carpe Diemnianas volume sete: Jeroen Van Aken

Estava sentado esperando o seu cappuccino. A letra que acompanharia já sabia: recebia sempre a mesma.
Agonizava.
O que esperava não era o cappuccino. Ansiava por esse momento o dia inteiro. Vivia só para chegar essa hora em que a veria passar pela porta, em que finalmente se encontrariam. Cada momento que vinha depois fazia com que o dia parecesse longo demais, inútil, arrastado - apesar de que após apenas cinco minutos o dia já era uma realidade distante, quase uma história lida em um livro.
Não marcavam hora, mas se encontravam ritualmente todos os dias.
Já começava a ser tomado pela angústia. Não sabia quanto tempo já esperava: horas, pensava, ou quem sabe apenas poucos minutos eternizados pela espera.
Viu-a: as sapatilhas - sempre pretas -, os jeans - sempre colados -, o suéter - sempre masculino e alguns números maior -, o cabelo - sempre solto e escorrido -, e o sorriso... o sorriso que o conquistara, o sorriso que o fazia sorrir. A visão que procurava, em vão, por todos os cantos; e que só conseguia encontrar ali. Há muito tempo a única coisa que conseguia ver.
É difícil retratar o que aconteceu depois, difícil precisar quanto tempo se passou.
Normalmente, se diria que não fizeram nada: tomaram um café junto, e foi isso. Mas para aqueles dois, aquele café é muito mais. Falaram, brincaram, sorriram, comeram, beberam. Aquele café era sempre acompanhado de mundanices preciosas, mundanices que só não era mundanices ali.

Já era quase hora, os dois sabiam que em pouco tempo teriam que ir embora.
- Tem uma coisa que eu preciso te falar... - começou.
Começou, mas emudeceu. Perdeu as palavras enquanto sentia o mundo se distanciando; não conseguia.
Como falar para a mulher que você ama que é tudo um sonho? Que ela é um sonho? Que o café, as risadas... não é possível...
- Por favor... Nunca deixe de vir me ver... Vou estar sempre aqui esperando por você...
Ela não conseguia entender.
Começou a ficar tudo muito claro, as imagens todas embaçando. Não distinguia mais onde estava, se continuava o sonho ou se já tinha emergido na realidade dura e sem cores.
Enquanto abria os olhos, a única coisa que via era aquele sorriso. Na mão, um guardanapo onde lia: "Vou estar aqui esperando por você para sempre, e provavelmente depois disso ainda vou continuar esperando".

quarta-feira, 13 de maio de 2009

O fim do dia

O Começo do fim do dia (dedicado ao taxista)

Quarta-feira. É um dia que demora a terminar. Abstendo-me de contar-vos os pormenores que permeiam o meu dia, vou direto ao começo do fim deste. Às nove horas da noite entro num táxi e digo automaticamente: “Para a Serra, por favor”. Qual não é a minha surpresa ao ouvir “só levo para o Venda Nova”. Brincadeirinhas à parte, o taxista guia para o endereço correto. No meio do caminho, em mais uma brincadeirinha, tenho a oportunidade única de ouvir uma narração à moda futebolística de um enterro, que terminava mais ou menos assim: “Enterrooooou, e ele voltou pra casa R$5.000 mais pobre”.

Na ânsia de descer do veículo, paro um quarteirão antes, na padaria. Compro um cigarro picado e uma cerveja long neck. Efetuada a transação sento-me numa bancada entre a padaria e a farmácia. Por algum tempo observei o ônibus que passava, a mulher que esperava no carro enquanto a amiga buscava duas latas de cerveja e os velinhos que saíam do estabelecimento rumo ao lar. Esse momento durou aproximadamente um cigarro fumado a tragadas profundas. Ao fim, minha mochila já não pesa um dia inteiro.


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O fim do dia (dedicado ao porteiro)

Ah! Como se eu pudesse terminar meu dia de maneira tão poética e relaxante. Mas não, resta-me o caminho até o computador, de onde vos escrevo. Da bancada onde estava sentado, caminho aquele quarteirão até a portaria do prédio. Espanto-me quando recebo das mãos do porteiro um jornal que não queria ter assinado (vou ligar reclamando que o tempo de assinatura já acabou). Mas, acalmem-se, não é por isso que dedico esta segunda parte ao porteiro. O infeliz amigo grita meu nome, quando já me encontrava pelas escadas do prédio, e conta-me a mais nova piada que circula na torcida do Cruzeiro (o desprazer desse momento concentra-se na piada, não nos times em questão). Tento desvencilhar-me do piadista o mais rápido possível, entrando no elevador. Vou direto ao banho, onde gasto alguns breves minutos. No caminho para o computador ouço algo como “pegue suas roupas sujas”; ligo o computador. Escrevo-lhes. Já não sei quanto pesa minha mochila.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Crônicas Carpe Diemnianas volume seis: Ágætis byrjun

Casa... nada como ir para casa. Apesar de que, mesmo em casa, já não me sinto como antes... é como se a casa não fosse mais minha, como se alguma coisa lá me incomodasse.
Entrei em casa e dei um 'boa noite' desatento para meu marido, ou para a televisão ligada, não vi. Não quis olhar.
Fui para o quarto tirar o casaco - dentro de casa é insuportável usar roupas tão pesadas.
Tinha fome.
Fui até a cozinha; encontrando-o lá só peguei um copo d'água e fui para a sala.
Qual não seria a minha surpresa ao encontrar um homem que nunca vira, sentado em frente à minha televisão, com um balde de pipoca entre as pernas?
Voltei.
- Quem é?
- É...
- Que foi? Arrumou mais problemas ou o que?
Vi o cinzeiro, já praticamente cheio, e instintivamente procurei pelo maço de cigarros no bolso direito.
Chamou-o.
- Esse é...
Expectativa.
Outro cigarro.
Ele corou.
O homem veio em minha direção e me estendeu a mão:
- Prazer, eu sou o namorado. - mantinha um sorriso no rosto, talvez como quem me dissesse que assim não era traição.
Choque.
Caio sentada.
Choque?
Olho para meu marido: alívio, relaxamento.
Foi inexperado, mas quando vi meu marido e seu namorado sentados do outro lado da mesa, mãos dadas, me senti estranhamente bem.
Foi como se um fardo tivesse sido retirado das minhas costas, e de repente o mundo ganhasse cores de novo.
- O que vão fazer?
- Ele tem um apartamento, vou me mudar para lá.
- Certo...
- Que foi?
- Nada... - sorri - digo: tudo de bom para vocês dois - e pela primeira vez em muito tempo sorri sinceramente para meu marido.
E ele sorriu de volta.

domingo, 10 de maio de 2009

As jardineiras

Eram duas irmãs e, infelizmente, inseparáveis. Uma era mais velha que a outra, pode-se dizer uma vida a mais de experiência. Talvez por sua maior experiência, a mais velha sempre vinha a desgraçar os sonhos da mais nova. Sempre que a pequena tinha aquela idéia brilhante que todos temos em algum momento, a mais velha destruía o novo sonho: "Fiz isso quando era mais nova, não dá certo, desista". 

Viviam a brigar, por esse e por outros motivos. Mas não se separavam, conheciam-se e sabiam como eram dependentes uma da outra. A mais nova dependia da mais velha porque nela estava seu medo, não queria crescer assim. À mais velha, cabia-lhe o papel de educar sua irmã, já que nunca nenhuma delas havia conhecido seus genitores.

Num tempo distante, ambas por fim concordaram numa coisa. Tiveram a mesma idéia: resolveram construir um jardim. Afinal, a mais velha vivia no ócio e a mais nova talvez teria botado os pés no chão e acordado para a realidade. Talvez. O jardim não era um negócio, era um passatempo. Se divertiam vendo suas novas plantas crescendo e evoluindo. As árvores lhes falavam coisas aos sussurros, lhes contavam casos da época em que eram sementes. As duas irmãs dividiram suas funções. À mais nova, foi dada a jovial função de semear, à mais velha coube podar as árvores quando necessário.

Depois de muito tempo as árvores do jardim resolveram criar a discórdia entre as irmãs. Revoltadas com a agressividade da mais velha, sussuram-lhes coisas aos ouvidos (sabe-se lá o que) que as tornaram inimigas. A primogênita respondeu num tom ainda pior. Num momento de raiva, queimou todo o jardim e nele enterrou a irmã que matara.

Soube-se depois que as árvores que viviam naqueles jardim eram conhecidas como homens e que no túmulo da irmã assassinada estava escrito:

"Mais uma Vida queimada pela Morte."

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Crônicas Carpe Diemnianas volume cinco: Little Kids

Sentam-se lado a lado. Às costas sempre o sol, à frente o mundo inteiro.
Sem aviso prévio, a vida começa com seu frenesi, trazendo nada além de preocupações. Preocupações que são ignoradas, postas de lado, o mundo que vêem toma toda a atenção - por vezes até demais, sendo necessário que se tragam de volta à realidade. A realidade que bate às suas portas, seguida de responsabilidades, pessoas, o futuro.
O futuro... Não conseguem ver o futuro. Este é apenas um borrão indistinguível no qual não se encaixam.
Porque?
Não sabem.
Tudo o que tem à frente é o que acontece. A vida, em sua beleza e velocidade únicas, que a tornam indigerível.
Conversam, riem, sorriem nos momentos de silêncio de segredos que os outros não conseguem ver ou ouvir. São livres, são despreocupados, são felizes. Se amam. E são odiados.

Com as essências da vida nas mãos, conversam sobre este filme de que todos fazemos parte mas o qual poucos chegam a ver, a aperceber. Conversas secretas, sobre tudo, incompreendíveis a outros. Em seu mundo, solucionam todos os mistérios, acabam com todas as preocupações. Encontram as raízes de tudo e as desvendam. Vivem apenas a mais pura felicidade. Um feito de dois, ligados de maneira invisível, mas que todos conseguem sentir. E invejar.

Chegam ao clímax, o êxtase de tudo. Lado a lado, falam sem parar. Nada de tema, rumo, sentido.
Falam.
Não procuram chegar a ponto algum, apenas procuram, ou nem isso. São instigados pela música que escutam, se é verdade que não sai de suas cabeças.
São um. Não apenas neste agora, este momento ínfimo que sempre perdemos, mas no sempre agora, pois este é o único momento em que vivemos e não podemos nos dar ao luxo de deixá-lo passar em branco. Estão em um agora que se extende infinitamente.
Agora, lado a lado, o mundo deixou de existir. A janela em que se apoiavam para assistir se transformou no tablado onde agora é tudo revelado. Algumas vezes nítido, algumas vezes borrado, mas sempre de importância absoluta.

Quando o mundo volta a ser estão em branco, mas sempre assistindo a tudo de perto, recebendo as imagens frescas, antes que fiquem velhas e corrompidas.
Se deixam de ser um, não são. Não conseguem mais ver.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Gota d'água

Sabia que não havia mais como adiar a conversa. 'A hora é agora', pensei. Minha mente me dizia para seguir, mas meu corpo não respondia. Consegui convencer a mim mesma que precisava de um copo d'água. 'Um cigarro seria o ideal', mas as circunstâncias não permitiam.
Fui até a cozinha. Tremia tanto que cheguei a pensar que quebraria a garrafa d'água a qualquer momento. Um gole. Outro gole. Um pequeno gole e o som de vidro de estilhaçando no chão.
-Está tudo bem aí, filha? - perguntava meu pai da sala, onde estava assistindo o jogo de futebol.
-Claro... Só quebrei um copo. - seria possível que até a minha voz tremesse?

Tratei de limpar a sujeira que fizera.
Tirei outro copo do armário. Mais água.
Lancei um olhar de soslaio para meu pai, que estava distraído demais com o jogo para notar que eu o observava. 'Meu maior medo'.

Som dos comerciais vindo da TV. Poltrona arrastando no chão de madeira. Som de passos lentos. 'É agora'.
Minha mão, apoiada em meu ventre, provou o que eu já imaginava: minhas vísceras se contraindo.

-Pai, eu preciso te dizer algo... - falei tão baixo que mal consegui ouvir.
-O que foi, filha?

-Eu estou grávida. - 'pelo menos não matei ninguém'.

D'aquém

Isso o transborda,
insuficientemente
o transborda de
entusiasmo, de
pleonasmo, de
marasmo.

Terrível,
tórrido avesso,
polegares ressequidos
perfilando-se sobre
calçados, e
sobre o que mais?
Calçadas?
Calçamentos e
- adventos de –
(ou)
intentos?

Que seja, coisa ou
algo (alguém) ou
objeto que lhe é caro.
Que seja, ou
que não,
a polidez é
nivosa, paz
fulgurosa,
tenebrosa,
assombrosa,
a luzidia glosa;
a nota da
invalidez, da
invalidação, e
daquilo (aquilo)
(isto) (aquele)
(este) (aquele)
(de alguém)
(porém) (porém)
(não lhe pertence)
(inabitável, inóspito).

E assim sai-se,
ou flui-se,
ou cai-se.
Tropeça-se,
contorce-se.

Nivosas solas de
calçamentos,
firmamentos,
frugais intentos,
(os poucos; de
resto, mais poucos).

Menor, diminuindo
e escalando
(menor)
(melhor – avesso).
Sutilmente mais
do que isso, mas
ainda bem escasso.

Fracasso.
Ele não.
Regaço
do que
não pode
haver, não
haverá,
regaço dos
milésimos
(as partículas)
(as traças ínfimas).

Sutilmente
impregnando,
estagnando,
incrustando,
muitos medos
perfilando.

Nulos,
nulos e
negativos,
negativistas,
negativados.
Aniquilentos,
aniquilosos,
(niquefeitos).

Duração estreita,
frieza que espreita,
(ato que não se deleita),
(voz desfeita)
(teia refeita).
Aquele (este),
ele (isto)
é sua seita.

Três, nove
(multiplicadores de
compartimentos)
- partilha de
compartimentos.
Esta é a seleta de:
um – estreiteza,
um – frieza,
um – ranhuras,
um – fissuras,
um – e o mecanismo de
(um) – não contar.

Rasuras comedidas,
mesuras, comidas.
Comidas alimentícias.
Comidas, comidas.
Um vírgula noventa
e três palmo de
comidas.

A ele (este/aquilo)
comidas são
subterfúgios
(jura que não refúgios).
(jura que não
naufrágios).
Sufrágios!
Sufrágios!
Sobre a caixa,
um pé longe,
uma unha anil,
uma unha senil.
- Ele elege um par,
- par de lentes
de fazer enxergar.
- “Retira-me, retira-me
de mim” –
que o transbordamento
de ele para si se
incha, rel-
incha.

Relincha que o
entusiasta que
seria, que este,
que este para!
Relincha-se verbalmente,
dura e penosamente,
- e nisso mente.

É visibilidade sobre
nitidez, criando
sensatez que sobrepuja
a sujeira da fala. Suja.

Enrijecimento do
cimento (aquele)
(este) cinzento,
petrificado logo
abaixo das bochechas.
Mandíbulas
d’água
d’aço
(dente).
D’ente,
D’entidades.
A mandíbula
das bochechas
derrama-se
em sorrisos
de funil,
que lhe espremem
as paciências,
as convivências
(suficiências)
(conveniências).
Polidez cortês,
polidez de
camponês.
Ultra.
Supra;
sub-
serviência
animosa,
d’ânimo.
D’agrado inerente
desagrado.
Nimboso membro
renegado,
membro da
seita (desta)
(daquela).
(d’aquele)
(de aquele – aquele).

Neve nimbosa,
vasta e prolixa,
contemplando seu
temperamento
subsistente.

Recaimento argêntico
sobre sedimentos
e condimentos de
temperamentos
sutilmente
abaláveis/modificáveis.
Suprimentos
desatentos,
(desalentos)
(insuficiência)
(ineficiência, coisa cara).
------ vocativo!
------ invocativo!

Intra.
Infra.
Condicional – e –
condicionado.
In-
condicionável.

Frequência
do hábito,
d’habitat,
d’habitação.
Frequenciado.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

"Eu, ser incandescente de hidrogênio puro"

Eu, ser incandescente de hidrogênio puro,
Filho rarefeito da mais densa nebulosa,
Nas rotas elípticas de força grandiosa
Sou o poder e a razão das forças do futuro.

Sou parte deste logos cósmico gigante,
Sou parte de um todo que aspira a unidade,
Tempestade e ímpeto, potência e vontade,
Sou pneuma de todo um organismo inda infante.

Eu, que sofro do mais puro sofrimento
Procuro na abstração cósmica um alento
Para minha alma, embuçada em aflição.

Eu, que delirante pela noite o céu contemplo
E que em lugares ermos procuro isolamento
Hei de encontrar nas etéreas planícies solidão.
[Hei de encontrar no universo a última solidão]

domingo, 3 de maio de 2009

Revivendo-se

Sempre mais do mesmo. Acontecem muitas coisas em um dia, diz-se que o mundo pode mudar em alguns segundos. Mas não vemos. Todo dia, o que vemos é só mais do mesmo. Nada parece novo, mas, lembre-se, pode ser. É na repetência das coisas e dos fatos que se constrói a novidade.  "Escrever bem é [...] servir-se do que já foi dito para dizer pela primeira vez", disse Fernando Sabino. Parece que isso vale para viver. Nem todos se reinventam, se revivem, porém os que o fazem, com certeza, marcam o tempo em que se refazem e, intencionalmente ou não, refazem os que os cercam. Pena que são poucos, mas vamos aprendendo, reviver-se não é um dom, é um aprendizado. Reviva-se também.


Terreno

Os termos enganchados em nossa ebriedade jugular prosseguiam. A
foice da terra à poeira das ideias havia sido lançada. Nós ganhamos um deserto
de impenetrabilidades vulcânicas, e o tóxico do ar impedia a nossa desidratação.
Respiramos desde então a sequidão a nós estabelecida.

Urbe não
existe mais.


Temos a lembrança de terra solta, exposta, descoberta e desprotegida. Uma terra ascendente em abruptos e maleáveis desfiladeiros que nos faziam afundar os pés. Recordamos as botas de cano protetor, propícias àquela umidade quase pantanosa. Devíamos habitar não muito distante daquele ponto, sendo que ali era onde passávamos a maior parte do tempo. Sabíamos, e temos a memória disso até hoje, que ali era um ambiente inusual, de conflitos, confrontos e contrastes, que cativava os nativos ou nômades que éramos. Devíamos ser nativos que foram nômades outrora. De qualquer maneira, aquilo era como um templo, na sua mais esplendorosa aparência de catedral profanada, repleto de nudismos, como se o pudor e todas as outras temporalidades morais não lhe referissem. Era um exílio tumultuado, e a reminiscência mais forte que guardamos é de uma mulher de aparência e de estética renascentista, que não sabíamos definir como organismo, escultura ou pintura. Lembramos dela em trejeitos e trajes de banhos, apenas sem a voluptuosidade de uma odalisca. O ambiente não nos parecia exótico pela composição de coisas novas ou desconhecidas, mas porque ele era de um bronze borrado que se desenvolvia em tons áureos, qual uma poeira confusa de pântanos odoríferos que o tornasse levemente recluso, sem arrancar a sua imponência. As lembranças nos ditam esse edifício como construído em muitos níveis, todos um pouco virados à ribanceira encharcada de um rio que antes existira. Imaginávamos como seriam os dias de chuva naquele lugar, se cascatas penderiam pelos terraços escancarados. Nunca choveu para confirmar ou refutar nossas expectativas, tampouco se fez sol. Seria equivocado dizer que o céu era sempre nimboso, não víamos nuvens, em nenhum dia vimos. O que se erguia sobre nossos couros cabeludos arrepiados de frio e água era uma chapa castanha, opaca e impolida em toda a sua unanimidade. O lugar não mudava à nossa vista, sublimemente homogêneo e constante. Era todos os dias imutável, aguardando a nossa chegada sem perceber a nossa partida.
A construção, na realidade, era formada por termas labirínticas, sobrepondo-se nos incontáveis pavimentos de mármores uma vez lustrosos e eternamente encardidos. A impressão que tínhamos era essa, de que jamais aqueles mármores poderiam ser limpos, restaurados ou alvejados. Acreditávamos que eles estavam fadados a se comportarem daquela maneira, como tapetes lisos substituindo as toalhas que nunca chegariam aos banhistas. Isso tudo significava que eles forneciam uma atmosfera mais acolhedora aos hóspedes instalados. Lembramos que, todas as vezes que íamos lá, íamos vestidos, diferentes dos demais, que não sabíamos se estavam ali mesmo ou se eram suspiros de outras estações, de outras humanidades prévias. Inferíamos isso porque jamais conversávamos ou sequer cumprimentávamos os banhistas, eles estavam com os seus próprios afazeres e nós é que éramos visitantes. Tínhamos como que temor e admiração, assustados e deslumbrados com o insólito estabelecimento. Havia ainda, e disso bem sabíamos, lugares um pouco mais distantes (e, portanto, mais próximos da ribanceira barrosa) que se assemelhavam a antigos bananais. Isso fazia-nos pensar que ali era para ser alguma zona tropical, antes alagada por um algum dilúvio medonho, e que perdera sua capacidade de aquecer, oferecendo-nos timidamente não mais do que aquele ar soturno, porém ainda revigorante aos sôfregos de imaginação. É curioso que não conseguimos hoje saber se passamos por lá vezes diversas ou se foi uma única vez incrível que se esboçou aos caracóis de nossas memórias como repetições frequentes e muito breves, repletas de pequenos espantos. Outra peculiaridade era que então não conseguíamos atinar se efetivamente era bronze o que havia pelas paredes ou se o barro de sujeira bruta era capaz de glorificar o irrecuperável mármore a tal ponto reluzente. Essas dúvidas miúdas eram plenamente satisfatórias a todos os nossos anseios, e, como a noite não chegasse a nenhum horário naquele templo de água e barro, adquiríamos diariamente o júbilo de não descansar, de não precisar nos deitar ao solo. Juramos que foi uma época passageira demais, fugidia aos nossos prazeres e sentidos, só que nem sequer conseguimos recordar como é que fomos nos perder e sair de lá sem retorno premeditado – e porque é que nunca fomos nos banhar nas profundas poças fumegantes se sentíamos tanto frio nos pés acolchoados.
Sentamos certa vez – e se a hipótese de que essa foi a única pudesse ser confirmada, logo esta seria a vez oficial – em redor de uma fonte seca, derivada de algum poço extinto. Lá não sabíamos o que fazer, e quando íamos à fonte nunca dizíamos nada uns aos outros. Isso era fato, não dirigíamos a palavra entre nós quando nos aproximávamos daquela coisa inerte. Ficávamos absortos na pedra marrom de tudo em volta, éramos um grupo pouco numeroso. Hoje não lembramos uns dos outros, e naqueles momentos de conversas interrompidas era isso que imaginávamos. As nossas elucubrações adejavam até os dias que nos encontramos agora e nos víamos assim, esbarrando uns nos outros sem nos reconhecer. Isso tinha um gosto de raízes roídas, e ele se sugeria em nossas papilas gustativas toda vez que optávamos pelo silêncio das cachoeiras de devaneios para nos acalentar. Esta situação não nos pungia, estávamos absolutamente conformados. O que, com efeito, nos assolava era ter de sair de lá algum dia, além do oblívio inevitável da véspera. Os companheiros iriam mudar ou repentinamente sumir, sobre isso não havia dúvida, só que o que era inquietante era ter de ir para algum outro lugar onde tivéssemos que jazer, e repousar por horas ininterruptas. Indagávamos secretamente se sentíamos afeição entre nós, ou se aquilo não passava de uma cumplicidade muda e lúgubre que nos amarrava com disposição magistral a fim de nos unir juntos às nossas últimas lástimas ancoradas em grãos de relacionamentos. Depois de tudo passado, podemos encarar esses pensamentos; não carecíamos muito uns dos outros, era só uma situação evanescente que se assentava sobre nós. Atualmente gostamos de assumir isso, a resignação e a letargia, mas pode ser mesmo que, naquele templo, dedos de lama nos fizessem rejubilar ao pé de nossa excentricidade temperamental. Foi assim que passamos aquelas tardes, ou aquilo que não foi mais que um solitário período vespertino da nossa convivência inteira. É dolente acreditar que tudo se passou de súbito, assim tão fugaz, tão explosivo. Seria como se um único dia jorrasse de dentro das coisas nas quais mais cremos e este instante se ausentasse nas engrenagens dos nossos ânimos. É dolente e fabuloso acreditar nisso, nesse único dia alienado no tempo, alheio a nós.
Devastamos aquele local, isso temos emaranhado junto aos nossos pingos de recordações. Fizemos aquilo inexistir, fizemos cada bloco rolar firmemente na lama, afundando como punhos em punhais. Largamos tudo lá, como a aldeia que é deixada quando se torna improlífica. Trocamos mapas e avisos, tocamos a harpa final das recomendações, e isso parou de chofre. Cada mapa seguia sua trilha para longe, cada nota da harpa chamava a um banhista, e estes eram as personificações que nos impúnhamos. E, quando todos os que lá habitavam ou que por lá passavam se reuniram em redor da fonte seca, é que fomos embora. Pegamos o mar, todos nós do grupo de visitantes, todos nós apanhamos o mar. Nós o guardamos dentro dos rins, com a esperança de que ele nos expusesse algo extraordinário. Pode ter sido isso, só que temos como certo que o efeito de guardá-lo até que ele virasse urina era meramente jocoso. Deve ter sido isso, não seria mais. Cada um agarrou-se a uma nau também, e fez dela uma escrivaninha para se redigir cartas, para enviar cobre embrulhado em calças desusadas, cambiar o estalo das articulações e repartir demais amenidades. É concebível que agora imaginemos que então morávamos em uma ilha, já que todos pegaram suas respectivas naus, e todos fizeram delas bancadas de escritos. Para tal, arrancamos as penas que brotavam em nossas cristas para escrever nos papiros de nossa epiderme. Até que fomos olvidados, um a um, através de novos respingos do suor oceânico. A nua nau naufragou e se desfez. Os mapas que tínhamos eram distintos, até suas denominações, seus idiomas. Nossas ânsias continentais nos fizeram negligenciar uns aos outros. O que nos faltou foram sentinelas, nem que fossem faróis, alguns guias engendrados pela água. A água que nos bastava, e nos nutria, era aquela dos nossos discursos, aquela que causava a erosão gutural dos nossos diálogos. O pó da fala nos embotou em face de ondas espumosas. Empurrados fomos por correntes de toda espécie, multiplicidades pastosas e firmes, com a finalidade apoteótica de nos projetar aos continentes verdadeiramente grandiosos e de nos pregar sobre pedras incertas. Sedentarismo preciso, sem resvalos - cá em territórios desligados, criamos aldeia. Não nos ocorre mais à mente onde podemos haver guardado tão zelosamente nossas máquinas de intercambiar aromas. Guardamos as saudações e as erudições, as formalidades e as solenidades, não mais.
Queria saber escrever algo diferente.
Algo que ninguém nunca escreveu...ou melhor ainda, escrever algo que ninguém nunca pensou.
Mas eu penso, penso e penso sem nunca chegar em nenhuma conclusão sobre o que escrever. A única conclusão que chego é a de que é impossível escrever qualquer coisa que nunca foi escrita.
Chego a conclusão de que todos nós somos um só, fazemos parte de uma só rede conectada por pensamentos e faltas de tempo.
Por isso, estou aqui para tentar escrever sobre algo que já foi escrito e pensado.


Mas não chego em lugar algum. Parece que minha cabeça insiste em se prender no espaço e tentar se sentir única.

Volte para mim, pensamento, volte para mim e nunca mais desapareça.

Mesmo assim ele não volta. Não volta



Qual é a razão das coisas se as coisas já são coisas usadas antes de serem coisas novas?

Näonäonäo.

Me desculpe, Júlia...mas saia dessa agonia e aprenda a viver com esse peso. Peso de que tudo o que você criar em toda sua vida será pode já ter sido criado. De que você não é e nunca vai ser única.
Why not? I ask.
É tão difícil assim?
"Não" - disse a cabeça " Näo é tão difícil criar algo único"
A única coisa que faz algo único ser único é o sentimento de ser único e querer ser único. Sem querer quebrar nenhum padrão, sem querer ser único. Algo só é realmente único se for único em sua essência. Se for algo por ser só.
Se for por for, por ser, por ter sido, por serei, será...será?

Crônicas Carpe Diemnianas volume quatro: Metamorphosis

Desciam a rua de mãos dadas.
Era um sentimento estranho, aquele de saber de que o contato - agora já tão cotidiano - de suas mãos não tinha data de retorno. Uma mudança que na realidade nem passava pelas duas cabeças enquanto desciam despreocupados aquela rua relativamente tranquila em uma tarde ensolarada de terça-feira.
- Já vai esfriar - disse. O frio vinha com o escuro naquela época do ano.
Sentaram-se em um banco na praça, vendo as pessoas passarem. Quanto mais o sol descia, mais pessoas passava. Mas estavam ambos desligados de tudo: eram seu próprio mundo naquele dia e só se apercebiam do pôr do sol - tão difícil de se ver entre tantos prédios e construções, mas que em nenhuma ocasião perde sua beleza e sua mágica.



- Vou comprar um maço de cigarros. - Disse após constatar com uma leve batida na perna qze o seu já tinha acabado.
- Mas você já fumou tanto hoje...
- É...? - Disse levantando-se, procurando em sua mente uma razão para ter fumado tanto. Não encontrou nenhuma.



- Meu ônibus já parou de passar... Meus pais vão me matar amanhã
- Tudo bem... - disse se levantando e puxando o maço do bolso - É melhor irmos para o ponto, de qualquer jeito.
E foram. Para o outro lado da rua, na verdade. Um movimento já automatizado pelo tempo.



- Meu ônibus já vem.
- Tudo bem, vou com você.

Pela primeira vez pararam perto de casa, e pela primeira vez viram aquela rua sem carros, sem apresentar nenhum obstáculo para que cruzassem.

- Bom... acho que aqui nos despedimos...
- É... Quando vou te ver de novo?
- Não sei... - perdia a voz.

- Já tinha pensado nisso?
- Já... só não queria acreditar que ia ficar tão... tão para agora...
- É...
Tirou a jaqueta e jogou em volta do corpo que tinha nas mãos. Tinham que ir, ambos.



Chegando em casa via o nascer do sol.
Completamente diferente.

sábado, 2 de maio de 2009

A saga de Domingos

Antes de mais nada, não tenho certeza se o nome era Domingos. Pelo menos é assim que alguns o chamam. Domingos ou não, ele sempre estava lá. Sua figura atarracada, já com alguma calvice, bronzeado pelo sol. Domingos era o homem das latinhas. De tanto tempo que o era, para mim virou o homem-latinha. O único que nem sob chuva enferrujava. Seus olhos refletiam apenas uma imagem assim como suas narinas reconheciam de longe aquele cheiro. Ele amava as latinhas.

Nunca descobri exatamente onde ele morava, apesar de tê-lo visto cruzando o bairro em que moro, sempre rumando para a Savassi. Ali, no coração de Belo Horizonte, o homem-lata travava diariamente a sua batalha. Esperto como era, sempre iniciava ele o conflito:

- Se ocê toma uma latinha, cê guada pra mim? (assim mesmo, sem “r”)

- Pode deixar.

- Muitobrigado.

E ele sempre vencia, ninguém ousava negar-lhe sua preciosa latinha. Seus olhos arregalados sempre mirando a preciosa chegavam a amendrontar os coitados que matavam sua sede. Um dia, porém, certa moça resolveu desafiá-lo:

- Se ocê toma uma latinha. cê guada pra mim?

Seus olhos fixaram o metal colorido; a moça tentou, em vão, estabelecer uma troca de olhares. Respirou fundo e disse:

- Não. - Assim, seco. Domingos não fora treinado para isso. Nunca antes, e isso é muita coisa, ninguém ousara negar-lhe o direito de coletar nas ruas o seu sustento. Mas ele é duro, metálico, e insiste:

- Cê guada por favor? - A moça tenta resistir, não consegue. Dá um trago profundo no cigarro e lhe entrega o metal tão precioso.

Domingos prossegue então na sua batalha, vencera o mais difícil confronto. Ao fim do dia, pega seu saco, vai para o seu canto, tradicionalmente na Rua Pernambuco entre Inconfidentes e Tomé de Souza, esvazia-o no chão. Enfileira todas as latinhas de boca para baixo e começa a amassá-las uma a uma. Mas pára, olha para aquela latinha, era apenas mais uma latinha de guaraná. Recolhe-a cuidadosamente e põe no bolso. Era o seu troféu, e era mais que merecido. Parabéns Domingos, por fazer daquilo que aos outros não presta o seu pão, a sua paixão.

Crônicas Carpe Diemnianas volume três: É, morena

Chegou um pouco atrasado. Estava sentado em um café nas redondezas escrevendo cartas, tão entretido que quando checou as horas seu primeiro instinto foi pedir a conta: três expressos com chantilly e um maço de cigarros. 'Nada mal', foi o primeiro pensamento, seguido por um 'ainda bem que trocam os cinzeiros de tempos em tempos', colocando os cigarros no bolso enquanto saia.
Não foi difícil encontrá-la, estava no lugar de sempre e não conversava com ninguém.
- Vamos?
Começaram a andar, as mãos se juntaram. A conversa achou seu rumo sozinha, e os quarteirões foram vencidos um a um, vagarosamente.
Já chegavam em casa, e como de costume pararam um pouco antes. Já não falavam nada desde o final do último quarteirão. Inconscientemente, estavam ambos decididos a resolver a tal situação.
- Olha... - ela começou - Eu gosto muito de você.
- Também gosto muito de você, é...
- E acho que isso realmente daria certo, não acha?
- É que... não sei se quero isso... - falou, tão baixo que foi quase para si mesmo. - Não sei...
- Mas... Acho que nós só vamos descobrir tentando, não?
- Não sei...
- Que foi? Que acha que pode dar tão errado?
- É só que... - hesitou, perdeu as palavras por um instante - ...não vai dar certo. - Se recompôs. - Não vai dar certo, sei que não vai...
- Mas...
Tinha encostado no muro, e agora olhava na direção oposta a ela, onde o sinal ficara verde e os carros cruzavam.

- Acho que é isso então... - ela quebrou finalmente o silêncio.
- Pois é... - não tinha mais o que dizer, mas não suportava não dizer nada.
Ela checou o relógio:
- Acho melhor subir...
- Tudo bem...
Se despediram, e ele esperou ela desaparecer por detrás do jardim de entrada.
Começou a fazer o caminho de volta.
Tentava ao máximo não pensar sobre o que tinha acabado de fazer. Puxou os cigarros, quem sabe ajudariam. Pensou em voltar ao café, mas achou melhor ir para casa, podia tomar café em casa também.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Uno

Nível zero. Sem evolução alguma.
Indivíduo um: pronuncia-se. Indivíduo a cogitar, indivíduo nu. Apoia-se sobre uma pilha de tomos. Gesticula gravemente, exprimindo suas inconsistências. Movimenta-se em seu meio, ambiente a se experimentar, relaciona-se com os demais. Recai sobre seu trono desleal. Torna a cogitar, indivíduo nu.
Nível zero. Sem evolução alguma.
Indivíduo um: sem reação. Os outros que o rodeiam são raros, são populosos. Camadas de pessoas, órbitas de cabeças. O indivíduo em seu meio a ser pesquisado. Ambiente a ser explorado. Não se escuta os demais, eles se movimentam, esferas todos. Muitos pulsos frementes, gargantas exorbitadas. Círculos que se encaminham a finalidade nenhuma.
Nível zero. Sem evolução alguma.
Indivíduo um: urbe. Da chama lacrimal se faz tempestade, chuva branda. Pés sobre paralelepípedos, todos tolos indivíduos. Ninguém se pronuncia, a verdade dormita latente, desacordada, não despertará. Ela é desconhecida e ninguém se ousará pronunciar aleatoriamente. Folias desenraizadas se desenroscam das tempestades de asas, ninguém despertará. Alguém sabe que dorme, mas outros não o sabem. Ninguém dorme de fato, alguns muitos, raramente, dormitam. Verseja-se sobre peculiaridades, indivíduo nenhum. Alguém nada pronuncia – alguém não se pronunciará. Indagou-se já em outrem. Camadas da superfície.
Nível zero. Sem evolução alguma.
Indivíduo um: como se percebe. Agitam-se os impulsos sensórios. Vagas de impulsos sensórios. Nada se volta para os demais, que se memorizam. Torsos populosos se agitam, pulsos frementes desenroscados dos ventos. Empilhados sobre a memória. Memoriáveis situações individualizadas. Pélagos frementes como punhos. Oscilações de temperamentos. Um que se vê pelo caminho tropeça, desfeito. Um.
Nível zero. Sem evolução alguma.
Indivíduo um: involução. Invólucro, carapaça armada. Expelem-se lanças. Cimitarras desenroscadas dos tempos. Tentativas de conciliação, atentados tardios. Fios desenlaçados dos tecidos que os recobrem são novamente percorridos pelas palmas aviltadas. Uma trama rejuvenescida. Indivíduos nus que se recobrem com mantos.
Nível zero. Sem evolução alguma.
Indivíduo um: experimentação. Crânios acoplados entre si. Repelem-se. Rachaduras se estendem em fendas que se aprofundam. Alguém avista algo, outros aviltam algo. Desnecessários os convívios. Palavras impressas em tecidos se mutilam mutuamente. Os tecidos viram tomos, troncos nus que um corpo revestido escala. Toques e encontros perceptivos se enveredam por vielas dos braços. Ramos de músculos fibrosos que tombam com a brisa. Desperdiça-se uma sombra depositada sobre a relva, acúmulo de tênebras. Cada um diminui em substância sob as marcas nimbosas impostas sobre si. Desconexão. Fecham-se as luzes para os arredores que começam a se esmagar.
Nível zero. Sem evolução alguma.
Indivíduo um: abstrato. Concretizam-se fenômenos nas escadas amontoadas, delimitam-se caminhos. Todos circulares, revoltos, envoltos em si. Os passos enviados a distância. Encouraçados ancorados em baías nevoentas. Reflexões espiraladas, consumindo-se internamente. Nada emana nada. Forças que se unem por encadeamento multipolar. Figuras que se acossam e se assediam. A perda do fôlego, hálito, alento. Resfolegantes figuras que se perpetuam na discórdia. A discórdia, o movimento, a unificação inabalável, união inalcançável.
Nível zero. Sem evolução alguma.
Indivíduo um: coletivo. Criaturas que se repelem em desordem. O caos soberano. Cólera comprimida em dois atos. Átomo zero, século zero. Ano nenhum – era pagã. Solstício do equinócio, eclipse terrestre. Invariavelmente. Encaminham-se as três sombras, veleidades diáfanas que se complementam. Pairam os silentes ecos daqueles vales. O córrego que se agiganta por entre os hemisférios é que se complementa. Esferas que nunca se chocam.
Nível zero. Sem evolução alguma. Tratado sobre a incomunicabilidade.