sexta-feira, 8 de maio de 2009

Crônicas Carpe Diemnianas volume cinco: Little Kids

Sentam-se lado a lado. Às costas sempre o sol, à frente o mundo inteiro.
Sem aviso prévio, a vida começa com seu frenesi, trazendo nada além de preocupações. Preocupações que são ignoradas, postas de lado, o mundo que vêem toma toda a atenção - por vezes até demais, sendo necessário que se tragam de volta à realidade. A realidade que bate às suas portas, seguida de responsabilidades, pessoas, o futuro.
O futuro... Não conseguem ver o futuro. Este é apenas um borrão indistinguível no qual não se encaixam.
Porque?
Não sabem.
Tudo o que tem à frente é o que acontece. A vida, em sua beleza e velocidade únicas, que a tornam indigerível.
Conversam, riem, sorriem nos momentos de silêncio de segredos que os outros não conseguem ver ou ouvir. São livres, são despreocupados, são felizes. Se amam. E são odiados.

Com as essências da vida nas mãos, conversam sobre este filme de que todos fazemos parte mas o qual poucos chegam a ver, a aperceber. Conversas secretas, sobre tudo, incompreendíveis a outros. Em seu mundo, solucionam todos os mistérios, acabam com todas as preocupações. Encontram as raízes de tudo e as desvendam. Vivem apenas a mais pura felicidade. Um feito de dois, ligados de maneira invisível, mas que todos conseguem sentir. E invejar.

Chegam ao clímax, o êxtase de tudo. Lado a lado, falam sem parar. Nada de tema, rumo, sentido.
Falam.
Não procuram chegar a ponto algum, apenas procuram, ou nem isso. São instigados pela música que escutam, se é verdade que não sai de suas cabeças.
São um. Não apenas neste agora, este momento ínfimo que sempre perdemos, mas no sempre agora, pois este é o único momento em que vivemos e não podemos nos dar ao luxo de deixá-lo passar em branco. Estão em um agora que se extende infinitamente.
Agora, lado a lado, o mundo deixou de existir. A janela em que se apoiavam para assistir se transformou no tablado onde agora é tudo revelado. Algumas vezes nítido, algumas vezes borrado, mas sempre de importância absoluta.

Quando o mundo volta a ser estão em branco, mas sempre assistindo a tudo de perto, recebendo as imagens frescas, antes que fiquem velhas e corrompidas.
Se deixam de ser um, não são. Não conseguem mais ver.

3 comentários:

  1. I like this one. I'll tell you one day when I've learnt enough portuguese to understand all the words (yes, i know that's different to understanding the meaning). Write in english though once maybe?

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  2. Ficou muito bom, de todos que você escreveu é com certeza aquele que eu mais gostei e que está mais bem escrito (em minha opinião).
    Certo, é um texto que fala sobre o presente e sobre vivê-lo com intensidade, ou ao menos tentar enxergá-lo na sua intensidade. Justamente por isso você fez um texto fragmentado, o presente não é nada além de um ínfimo espaço de tempo, logo não se pode falar sobre ele em períodos enormes e ininterruptos, mas apenas com frases ínfimas e pouco duradouras. Não sei se você pensou realmente nisso na hora de escrever, já que quando se quer escrever sobre um espaço de tempo tão curto um texto fragmentado acaba por sair naturalmente, acontece que você usou a forma certa pare o seu texto e eu tiro meu chapéu para você. Minha única observação é que em um texto fragmentado tal como esse seu, composto de pequenas frases separadas por pontos, deve-se evitar ao máximo o uso de frases desnecessárias. Por exemplo:
    "Não procuram chegar a ponto algum, apenas procuram, ou nem isso. São instigados pela música que escutam, se é verdade que não sai de suas cabeças."
    No período antes do ponto eu consegui entender perfeitamente onde você queria chegar, mas ainda assim acho que você pode trabalhar melhor essa passagem, já o segundo período eu o considero extremamente desnecessário, até mesmo com certa ausência de nexo. Não gosto de apontar os defeitos no texto dos outros, mas digo isso justamente porque é difícil manter o interesse e a absorção do leitor em um texto deste tipo, pois com várias frases aparentemente desconexas é preciso manter um fio condutor narrativo que dê um sentido e um objetivo para o texto. Você conseguiu fazer isso de forma louvável, e é por isso que aponto esta falha (este trecho que citei acima não é o único do texto) porque acho uma pena que um texto tão foda fique comprometido por três ou quatro frases.
    No mais, parabéns, de coração s2

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  3. Nossa, valeuzão, Gui!
    Ah sim, eu não pensei nisso quando escrevi o texto, eu na realidade não pensei em nada quando escrevi o texto: tinha todas as imagens na minha cabeça e elas foram descendo pro papel em forma de palavras.
    Eu consigo imaginar as frases que você considera desnecessárias e vou reler o texto agora e ver se devo mudar alguma coisa.
    O problema em mudar esse texto é que ele é provavelmente o mais pessoal que eu já fiz, então alguma coisas bobas e desnecessárias para você são só poucas coisas bobas e desnecessárias também para mim, que apesar disso fazem toda a diferença.
    And off we go to work!

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