quinta-feira, 28 de maio de 2009

Crônicas Carpe Diemnianas volume oito: Cutting Ice to Snow


"Te vejo às cinco?"
Foi pega de surpresa pela mensagem. Estava completamente perdida em seus pensamentos quando o celular tocou e, apesar de saber quem era, estranhou a interrogação no final da frase.
Sabia não precisar responder; "errou quando estava escrevendo, só isso", pensou.
Foi ouvir os pássaros cantando na varanda. A primavera fazia-a feliz. Uma felicidade simples, que não pedia muito.
Nova mensagem: " Te vejo às cinco?"
Começou a ficar inquieta. O mesmo 'erro', apesar de a segunda vez confirmar que desda primeira já não era, e uma insistência que ainda não conhecia.
Respondeu com um 'claro' e foi se arrumar, não queria se atrasar.

Chegou às cinco em ponto.
Viu-o. Estava com um amigo, uma face conhecida. Bebiam. Fumava; no momento em que entrou apagava um cigarro no cinzeiro com a mão direita, enquanto a esquerda já buscava o maço de cigarro pousado sobre a mesa.
Também a viram e levantaram-se instantaneamente. Quando chegou na mesa já estava só. Hoje tinha chamado-a ali por uma razão - razão que, apesar de toda a curiosidade, ela sabia que preferia não saber.
Sentaram-se. Silêncio; ainda fumava. Do tipo de silêncio que dói, que é pior do que todas as bobagens já pronunciadas.

- Tudo bem com você? - ele finalmente começara a falar.
- Sim, tudo bem... e com você?
- É... - novo silêncio - pode ser...

- Que foi? Tem alguma coisa errada?
- Eu... estou tentando falar isso da maneira não terrível...
Ela sabia que não queria muito escutar o que ele tinha para falar, mas também sabia que era necessário. A confiança no outro, e ela confiava; cegamente.

- Pode falar... é algum problema na sua família?
- Não, em casa está tudo bem...
Isso acabava com a 'melhor' possibilidade; ainda não falava.

- Me traiu? Tudo bem... pode falar, eu posso entender as suas razões...
- Não, nunca te traí. Não é isso, é só...
Expectativa.
- Acho que não adianta mais continuarmos com isso... - e começou a falar: falou de tudo, de todo o tempo que tinham passado juntos, todas as coisas boas, as risadas, as brincadeiras, mesmo os momentos mais difíceis, e mesmo assim... mesmo assim falava que era hora para terminarem.
Não conseguia acreditar; estava sem palavras.
Não falou nada durante todo o discurso, e olhava também para o nada.
Enquanto ele terminava, tudo o que ela conseguia pensar era nas manhãs em que ele comparava os potes de mousse para escolher o com mais chantilly e estender o vencedor para ela.


[foto por: Daniel Nunes]

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