quinta-feira, 30 de abril de 2009

Desnudai-vos

Chegarão os dois em casa, coincidentemente, no mesmo horário – como é a coincidência de todas as sextas-feiras. Estará ela de escarpim, vestindo uma saia justa de mesmo padrão que seu paletó, sutil. Estará ele de sapatos bem lustrados, camisa bem engomada - bem alvejada, também com um paletó, entretanto sem padrão (não convém), todo preto, combinando com as calças devidamente passadas, a gravata de um tom sóbrio. Não se falarão. Não, não haverá cumprimentos. Suas pupilas não se encontrarão, não haverá qualquer olhar. Com os ombros juntos, embrenhar-se-ão pelos corredores intermináveis, desembocando em uma sala com uma larga lareira central. Lá, no imo do lar, despir-se-ão agressivamente, sim, em um frenesi absurdo, sádico, e, contudo, frígido. Ela principiará por lançar o escarpim por uma grande porta de vidro, que se estilhaçará. Ele firmará seu punho sobre a fileira de botões de sua camisa e, sem qualquer expressão facial, puxará com força aquela região central sob a gravata, deixando o peito fustigado transparecer. A blusa da mulher, de alças, será retirada tranquilamente, primeiro o lado esquerdo, depois o direito, sem auxílio do homem, revelando também marcas de látego sobre o colo. A gravata dele será calculadamente retirada, dobrada com zelo e lançada ao fogo da lareira que, aparentemente, parecerá alimentada por flâmulas perenes a estalar em um chiado manso. O calor será azul, isento de fuligens. O coque dela será desfeito, deslizando sereno pelos ombros, e, à luz vacilante das chamas, confundir-se-á entre a cor de uma palidez profunda e do negro reluzente. O paletó de ambos escorrerá pelos braços, caindo ao fogo anil. As calças e a saia, bem como as peças íntimas, serão repuxadas com fúria moribunda tendo picos intensos e movimentos leves, que desencadearão no fato de todos tecidos serem entregues à lareira. O restante - joias, relógios – despencará pela janela. As alianças douradas, agarradas aos nós dos dedos, arrancarão com os dentes e as engolirão como um ato corriqueiro. Ao término, ele sucumbirá com as mãos na fronte, plangendo e murmurando lamentoso, ela apoiará a espinha à parede sombreada, cofiando as sobrancelhas e fechando as pálpebras pesadas de maquiagem. Os gestos femininos demonstrarão asco pela figura máscula ali ajoelhada, e esta, por sua vez, lamentar-se-á, tendo toda a sua compaixão voltada a si. Os peitos de ambos estarão visivelmente flagelados, preenchidos com estigmas severos, cicatrizes doloridas, nódoas forjadas sobre a epiderme.
Ele cessará o soluçar ao mesmo tempo em que ela se desapoiar da parede, e encaminhar-se-ão a uma extensa casa de banho cortada por uma iluminação tênue que provirá de luzes externas atravessando a janela. Sobre uma longa pia, estarão produtos cosméticos dispostos organizadamente. A mulher, inexpressiva, jogará os braços moles por cima dos frascos e derrubá-los-á todos fazendo movimentos de ziguezague com os cotovelos. Seu marido, aquele que, como ela, engoliu a aliança, debruçará sobres os esmaltes multicoloridos da esposa que estarão no chão, em potes quebrados e com as tonalidades misturadas, e espalhá-los-á pelos lábios, fazendo-os luzir sob o brilho que lhes cruzará. Ela então apanhará o creme de barbear do homem e aplicá-lo-á sobre as pálpebras pesadas de maquiagem, de forma a criar uma viscosidade cintilante e escura, e também sobre os lábios, fazendo seu batom dissipar-se em tons indefinidos. Ele pegará, próximo ao vaso sanitário e a um ralo repleto de fios capilares, um batom destampado e delineará sobre o busto os contornos feitos pelas cicatrizes, tingindo-as como que com sangue, mas sabendo que não é. Já sua esposa, aquela que, como ele, engoliu a aliança, estará a vasculhar pelos azulejos do chão os cacos dos frascos, premindo as palmas contra estes sem deixá-las sangrar. Encontrará uma tesoura bem ao lado da bancada da pia, no assoalho, empunhá-la-á e cortará rente os cílios e os pêlos da cabeça, deixando falhas e irregularidades. O homem fará o mesmo, pegando o utensílio das mãos dela sem fitá-la. Ambos retirarão das gavetas navalhas e, com elas, apararão o restante dos cabelos desordenadamente e deixando tufos. Também, com a mesma meticulosidade, rasparão os pêlos púbicos e as sobrancelhas. A mulher irá novamente se apossar do creme de barbear, pincelando-o sobre as unhas. Ele amontoará os esmaltes espalhados pelo assoalho e, usando-os tal tinta, com as mãos espalmadas, pintará todo o rosto. Apossar-se-á também daquele mesmo batom que já haveria usado e, com este, riscará suas costas onde puder alcançar. Com a navalha e a tesoura, depilará as axilas.
Aquele casal de aparência andrógina regressará, portanto, à sala da lareira e sentará ao redor do fogo, como se estivessem em volta de uma fogueira, reavivando sensações primevas. Gritarão silenciosamente, asfixiando dilemas contemporâneos e libertando um rugido rouco puramente entranhado. A agonia imperará na expressão de ambos. Ficarão os músculos do pescoço tesos, a traquéia relevada em um óbvio aspecto de terror, os glóbulos oculares exaltados sob a pálpebra cerrada e inquieta. Terão o mesmo arrebatamento daquele que vê o fogo pela primeira vez e o mesmo assombro de quem o ousa tocar. Circundarão a emanação anilada com um caminhar cambaleante, como nômades exaustos de uma jornada infinita e extremamente demandante. Quando pararem, haverá o êxtase da convulsão, da implosão total, o desmoronamento interno das paredes e tecidos que compõe preceitos, princípios e normas de convivência. Grunhirão ariscos e destoados, como quem tudo desconhece. Por fim, deitar-se-ão ao solo bruscamente, desmaiados, desfalecidos, dormentes. Esparramar-se-ão à base da combustão azulada, com sombras fátuas cobrindo-lhes e descobrindo-lhes os semblantes apaziguados. Estes variarão entre o funesto e o prazeroso, o que se mostrará por suas constantes palpitações musculares. Ao se libertarem da modorra, embrenhar-se-ão novamente, ombro a ombro, pelas passagens labirínticas da casa. Percorrerão, dando voltas, a extensa casa de banho, uma cozinha, outros banheiros, despensas, adegas, átrios, salas, câmaras, antecâmaras, para chegarem, enfim, à alcova. Dentro do aposento, a mulher, tendo engolido a aliança, engolirá também a espuma dos travesseiros, enquanto seu marido, também tendo engolido a representação áurea e material do matrimônio, por sua vez, engolirá os cabelos raspados de sua mulher, encaminhando-se à tal e não distante casa de banho onde haveriam sofrido a transformação. Farto, ele retornará ao tálamo e debruçar-se-á sobre o mesmo, regurgitando o que haveria consumido. Ela também o fará, todavia, seu vômito formará um córrego esverdeado, acre e gelatinoso sobre o criado-mudo no qual se encontrarão alguns papéis e um telefone. O líquido de bílis e substâncias parcialmente digeridas cascateará através das gavetas semi-abertas e empoçar-se-á sobre o tapete de feltro estendido sobre os mármores do assoalho. Ambos deitar-se-ão à cama, com a cabeça e as costas apoiadas à parede e os quadris firmes sobre os destroços de espuma, vômito e pêlos. Entreolhar-se-ão com as pálpebras fechadas, as mãos sobre o ventre. Poderá ser percebida a inquietante semelhança. A mulher sem bustos fartos ou quadris bojudos, o homem sem musculatura muito definida ou torso robusto. Delgados, lânguidos, flácidos, abatidos, lívidos, pálidos, doentios. Androides.

3 comentários:

  1. Wow, muito bom! Até um pouco hipnótico, eu diria.

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  2. Como o Gui disse, bastante hipnótico. E não sei dele, mas eu consegui sentir o frenesi enquanto lia; algumas partes simplesmente lia freneticamente, enquanto outras lia com mais calma, como se os acontecimentos demandassem uma velocidade maior.
    Muito bom, Dane!

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  3. Grato.

    É curioso que eu já tinha escrito isso há algum tempo numa tentativa de agrupar quatro pequenos contos.
    Quando vi o título do blog, me lembrei imediatamente deste e pensei que viesse a calhar.

    Sim, diria que escrevo coisas meio "febris" de vez em quando.

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