quinta-feira, 7 de maio de 2009

Gota d'água

Sabia que não havia mais como adiar a conversa. 'A hora é agora', pensei. Minha mente me dizia para seguir, mas meu corpo não respondia. Consegui convencer a mim mesma que precisava de um copo d'água. 'Um cigarro seria o ideal', mas as circunstâncias não permitiam.
Fui até a cozinha. Tremia tanto que cheguei a pensar que quebraria a garrafa d'água a qualquer momento. Um gole. Outro gole. Um pequeno gole e o som de vidro de estilhaçando no chão.
-Está tudo bem aí, filha? - perguntava meu pai da sala, onde estava assistindo o jogo de futebol.
-Claro... Só quebrei um copo. - seria possível que até a minha voz tremesse?

Tratei de limpar a sujeira que fizera.
Tirei outro copo do armário. Mais água.
Lancei um olhar de soslaio para meu pai, que estava distraído demais com o jogo para notar que eu o observava. 'Meu maior medo'.

Som dos comerciais vindo da TV. Poltrona arrastando no chão de madeira. Som de passos lentos. 'É agora'.
Minha mão, apoiada em meu ventre, provou o que eu já imaginava: minhas vísceras se contraindo.

-Pai, eu preciso te dizer algo... - falei tão baixo que mal consegui ouvir.
-O que foi, filha?

-Eu estou grávida. - 'pelo menos não matei ninguém'.

3 comentários:

  1. Muito bom, Jú. Podemos falar literalmente que ela está 'parindo' (é, eu não tenho jeito mesmo...)
    E que bom que os direitos autorais estão sob meu nome, porque aí eu posso roubar a idéia. MUAHAHAHA.
    (te amo.)

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  2. quero ver o que vai sair de você a respeito disso (:
    sorte a sua que eu te amo.

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  3. caraca, e como é que eu nunca tinha lido isso antes? Jú, que foda! você escreve muy bem, querida! :)

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