segunda-feira, 18 de maio de 2009

Para você

[A vida nos propõe encontros engraçados, coisas que subitamente quebram o costumeiro decorrer do dia; surpresas inesperadas.]


Já tinha esperado vinte minutos pelo trem atrasado de manhã, feito prova de inglês no primeiro horário e apresentado em geografia no quarto; fui para a escola com uma mochila do tamanho do mundo e arrastando um saco-de-dormir, já que não planejava passar em casa antes de viajar.

No terceiro horário percebi que minha câmera estava sem baterias - uma surpresa não tão surpreendente, considerando que eu a tinha usado durante toda a semana anterior. 'Pegar um trem mais cedo e ir em casa pegar o carregador', pensei. E sem problemas, contando a parte que eu cobri a distância entre a escola e a estação em cinco minutos.


Até então o fato de ter esquecido o carregador tinha sido só um problema, mas quando me sentei no trem tudo mudou. Santa Rosalia começou para alegrar a minha viagem, acompanhada de uma avó com seu neto.


Sentaram-se do outro lado do trem, a avó com o neto no colo, olhando para fora da janela. Apesar de ser bastante comum, o menino provavelmente ainda não tinha feito muitas viagens de trem; nem conseguia falar, não era surpresa.


A música já tinha me feito abstrair do mundo, até que, sem querer, encontrei o olhar do pequeno. Foi uma conexão instantânea: o mundo - que já não existia mais - estava agora ali, na minha frente. O menino me olhava com intensidade, apesar de não mostrar nenhuma emoção em seu rosto - que por sua vez era idêntico ao da avó - e de, quem sabe, ainda não ser capaz de me julgar.


Tal olhar de uma criança é bem mais duro do que o resultado de um check-up fisio-psicologico completo. Eu abstraido nele; ele abstraido em mim. A paz centrífuga que tinha me invadido com Santa Rosalia de repente se acalmou. Era como se aquele menino pudesse me ver como sou, a nudez completa de corpo e alma.


De uma maneira tão estranha quanto a minha, o menino também não desviava o olhar, mesmo enquanto sua avó o chamava e o convidava a admirar a paisagem correndo do lado de fora da janela. Eu, por outro lado, não conseguia pensar, meu corpo já tinha sido desligado pela música e pelo olhar fundo.


Como que sendo puxado para fora da água, tive que quebrar o momento e sair do trem já que era minha parada e eu ainda tinha um carregador para pegar em casa.


Desci e, enquanto flanqueava o trem para chegar às escadas, vi o menino, que agora tentava também sair do trem, mas sem sucesso.

Nenhum comentário:

Postar um comentário