sábado, 2 de maio de 2009

A saga de Domingos

Antes de mais nada, não tenho certeza se o nome era Domingos. Pelo menos é assim que alguns o chamam. Domingos ou não, ele sempre estava lá. Sua figura atarracada, já com alguma calvice, bronzeado pelo sol. Domingos era o homem das latinhas. De tanto tempo que o era, para mim virou o homem-latinha. O único que nem sob chuva enferrujava. Seus olhos refletiam apenas uma imagem assim como suas narinas reconheciam de longe aquele cheiro. Ele amava as latinhas.

Nunca descobri exatamente onde ele morava, apesar de tê-lo visto cruzando o bairro em que moro, sempre rumando para a Savassi. Ali, no coração de Belo Horizonte, o homem-lata travava diariamente a sua batalha. Esperto como era, sempre iniciava ele o conflito:

- Se ocê toma uma latinha, cê guada pra mim? (assim mesmo, sem “r”)

- Pode deixar.

- Muitobrigado.

E ele sempre vencia, ninguém ousava negar-lhe sua preciosa latinha. Seus olhos arregalados sempre mirando a preciosa chegavam a amendrontar os coitados que matavam sua sede. Um dia, porém, certa moça resolveu desafiá-lo:

- Se ocê toma uma latinha. cê guada pra mim?

Seus olhos fixaram o metal colorido; a moça tentou, em vão, estabelecer uma troca de olhares. Respirou fundo e disse:

- Não. - Assim, seco. Domingos não fora treinado para isso. Nunca antes, e isso é muita coisa, ninguém ousara negar-lhe o direito de coletar nas ruas o seu sustento. Mas ele é duro, metálico, e insiste:

- Cê guada por favor? - A moça tenta resistir, não consegue. Dá um trago profundo no cigarro e lhe entrega o metal tão precioso.

Domingos prossegue então na sua batalha, vencera o mais difícil confronto. Ao fim do dia, pega seu saco, vai para o seu canto, tradicionalmente na Rua Pernambuco entre Inconfidentes e Tomé de Souza, esvazia-o no chão. Enfileira todas as latinhas de boca para baixo e começa a amassá-las uma a uma. Mas pára, olha para aquela latinha, era apenas mais uma latinha de guaraná. Recolhe-a cuidadosamente e põe no bolso. Era o seu troféu, e era mais que merecido. Parabéns Domingos, por fazer daquilo que aos outros não presta o seu pão, a sua paixão.

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