domingo, 3 de maio de 2009

Terreno

Os termos enganchados em nossa ebriedade jugular prosseguiam. A
foice da terra à poeira das ideias havia sido lançada. Nós ganhamos um deserto
de impenetrabilidades vulcânicas, e o tóxico do ar impedia a nossa desidratação.
Respiramos desde então a sequidão a nós estabelecida.

Urbe não
existe mais.


Temos a lembrança de terra solta, exposta, descoberta e desprotegida. Uma terra ascendente em abruptos e maleáveis desfiladeiros que nos faziam afundar os pés. Recordamos as botas de cano protetor, propícias àquela umidade quase pantanosa. Devíamos habitar não muito distante daquele ponto, sendo que ali era onde passávamos a maior parte do tempo. Sabíamos, e temos a memória disso até hoje, que ali era um ambiente inusual, de conflitos, confrontos e contrastes, que cativava os nativos ou nômades que éramos. Devíamos ser nativos que foram nômades outrora. De qualquer maneira, aquilo era como um templo, na sua mais esplendorosa aparência de catedral profanada, repleto de nudismos, como se o pudor e todas as outras temporalidades morais não lhe referissem. Era um exílio tumultuado, e a reminiscência mais forte que guardamos é de uma mulher de aparência e de estética renascentista, que não sabíamos definir como organismo, escultura ou pintura. Lembramos dela em trejeitos e trajes de banhos, apenas sem a voluptuosidade de uma odalisca. O ambiente não nos parecia exótico pela composição de coisas novas ou desconhecidas, mas porque ele era de um bronze borrado que se desenvolvia em tons áureos, qual uma poeira confusa de pântanos odoríferos que o tornasse levemente recluso, sem arrancar a sua imponência. As lembranças nos ditam esse edifício como construído em muitos níveis, todos um pouco virados à ribanceira encharcada de um rio que antes existira. Imaginávamos como seriam os dias de chuva naquele lugar, se cascatas penderiam pelos terraços escancarados. Nunca choveu para confirmar ou refutar nossas expectativas, tampouco se fez sol. Seria equivocado dizer que o céu era sempre nimboso, não víamos nuvens, em nenhum dia vimos. O que se erguia sobre nossos couros cabeludos arrepiados de frio e água era uma chapa castanha, opaca e impolida em toda a sua unanimidade. O lugar não mudava à nossa vista, sublimemente homogêneo e constante. Era todos os dias imutável, aguardando a nossa chegada sem perceber a nossa partida.
A construção, na realidade, era formada por termas labirínticas, sobrepondo-se nos incontáveis pavimentos de mármores uma vez lustrosos e eternamente encardidos. A impressão que tínhamos era essa, de que jamais aqueles mármores poderiam ser limpos, restaurados ou alvejados. Acreditávamos que eles estavam fadados a se comportarem daquela maneira, como tapetes lisos substituindo as toalhas que nunca chegariam aos banhistas. Isso tudo significava que eles forneciam uma atmosfera mais acolhedora aos hóspedes instalados. Lembramos que, todas as vezes que íamos lá, íamos vestidos, diferentes dos demais, que não sabíamos se estavam ali mesmo ou se eram suspiros de outras estações, de outras humanidades prévias. Inferíamos isso porque jamais conversávamos ou sequer cumprimentávamos os banhistas, eles estavam com os seus próprios afazeres e nós é que éramos visitantes. Tínhamos como que temor e admiração, assustados e deslumbrados com o insólito estabelecimento. Havia ainda, e disso bem sabíamos, lugares um pouco mais distantes (e, portanto, mais próximos da ribanceira barrosa) que se assemelhavam a antigos bananais. Isso fazia-nos pensar que ali era para ser alguma zona tropical, antes alagada por um algum dilúvio medonho, e que perdera sua capacidade de aquecer, oferecendo-nos timidamente não mais do que aquele ar soturno, porém ainda revigorante aos sôfregos de imaginação. É curioso que não conseguimos hoje saber se passamos por lá vezes diversas ou se foi uma única vez incrível que se esboçou aos caracóis de nossas memórias como repetições frequentes e muito breves, repletas de pequenos espantos. Outra peculiaridade era que então não conseguíamos atinar se efetivamente era bronze o que havia pelas paredes ou se o barro de sujeira bruta era capaz de glorificar o irrecuperável mármore a tal ponto reluzente. Essas dúvidas miúdas eram plenamente satisfatórias a todos os nossos anseios, e, como a noite não chegasse a nenhum horário naquele templo de água e barro, adquiríamos diariamente o júbilo de não descansar, de não precisar nos deitar ao solo. Juramos que foi uma época passageira demais, fugidia aos nossos prazeres e sentidos, só que nem sequer conseguimos recordar como é que fomos nos perder e sair de lá sem retorno premeditado – e porque é que nunca fomos nos banhar nas profundas poças fumegantes se sentíamos tanto frio nos pés acolchoados.
Sentamos certa vez – e se a hipótese de que essa foi a única pudesse ser confirmada, logo esta seria a vez oficial – em redor de uma fonte seca, derivada de algum poço extinto. Lá não sabíamos o que fazer, e quando íamos à fonte nunca dizíamos nada uns aos outros. Isso era fato, não dirigíamos a palavra entre nós quando nos aproximávamos daquela coisa inerte. Ficávamos absortos na pedra marrom de tudo em volta, éramos um grupo pouco numeroso. Hoje não lembramos uns dos outros, e naqueles momentos de conversas interrompidas era isso que imaginávamos. As nossas elucubrações adejavam até os dias que nos encontramos agora e nos víamos assim, esbarrando uns nos outros sem nos reconhecer. Isso tinha um gosto de raízes roídas, e ele se sugeria em nossas papilas gustativas toda vez que optávamos pelo silêncio das cachoeiras de devaneios para nos acalentar. Esta situação não nos pungia, estávamos absolutamente conformados. O que, com efeito, nos assolava era ter de sair de lá algum dia, além do oblívio inevitável da véspera. Os companheiros iriam mudar ou repentinamente sumir, sobre isso não havia dúvida, só que o que era inquietante era ter de ir para algum outro lugar onde tivéssemos que jazer, e repousar por horas ininterruptas. Indagávamos secretamente se sentíamos afeição entre nós, ou se aquilo não passava de uma cumplicidade muda e lúgubre que nos amarrava com disposição magistral a fim de nos unir juntos às nossas últimas lástimas ancoradas em grãos de relacionamentos. Depois de tudo passado, podemos encarar esses pensamentos; não carecíamos muito uns dos outros, era só uma situação evanescente que se assentava sobre nós. Atualmente gostamos de assumir isso, a resignação e a letargia, mas pode ser mesmo que, naquele templo, dedos de lama nos fizessem rejubilar ao pé de nossa excentricidade temperamental. Foi assim que passamos aquelas tardes, ou aquilo que não foi mais que um solitário período vespertino da nossa convivência inteira. É dolente acreditar que tudo se passou de súbito, assim tão fugaz, tão explosivo. Seria como se um único dia jorrasse de dentro das coisas nas quais mais cremos e este instante se ausentasse nas engrenagens dos nossos ânimos. É dolente e fabuloso acreditar nisso, nesse único dia alienado no tempo, alheio a nós.
Devastamos aquele local, isso temos emaranhado junto aos nossos pingos de recordações. Fizemos aquilo inexistir, fizemos cada bloco rolar firmemente na lama, afundando como punhos em punhais. Largamos tudo lá, como a aldeia que é deixada quando se torna improlífica. Trocamos mapas e avisos, tocamos a harpa final das recomendações, e isso parou de chofre. Cada mapa seguia sua trilha para longe, cada nota da harpa chamava a um banhista, e estes eram as personificações que nos impúnhamos. E, quando todos os que lá habitavam ou que por lá passavam se reuniram em redor da fonte seca, é que fomos embora. Pegamos o mar, todos nós do grupo de visitantes, todos nós apanhamos o mar. Nós o guardamos dentro dos rins, com a esperança de que ele nos expusesse algo extraordinário. Pode ter sido isso, só que temos como certo que o efeito de guardá-lo até que ele virasse urina era meramente jocoso. Deve ter sido isso, não seria mais. Cada um agarrou-se a uma nau também, e fez dela uma escrivaninha para se redigir cartas, para enviar cobre embrulhado em calças desusadas, cambiar o estalo das articulações e repartir demais amenidades. É concebível que agora imaginemos que então morávamos em uma ilha, já que todos pegaram suas respectivas naus, e todos fizeram delas bancadas de escritos. Para tal, arrancamos as penas que brotavam em nossas cristas para escrever nos papiros de nossa epiderme. Até que fomos olvidados, um a um, através de novos respingos do suor oceânico. A nua nau naufragou e se desfez. Os mapas que tínhamos eram distintos, até suas denominações, seus idiomas. Nossas ânsias continentais nos fizeram negligenciar uns aos outros. O que nos faltou foram sentinelas, nem que fossem faróis, alguns guias engendrados pela água. A água que nos bastava, e nos nutria, era aquela dos nossos discursos, aquela que causava a erosão gutural dos nossos diálogos. O pó da fala nos embotou em face de ondas espumosas. Empurrados fomos por correntes de toda espécie, multiplicidades pastosas e firmes, com a finalidade apoteótica de nos projetar aos continentes verdadeiramente grandiosos e de nos pregar sobre pedras incertas. Sedentarismo preciso, sem resvalos - cá em territórios desligados, criamos aldeia. Não nos ocorre mais à mente onde podemos haver guardado tão zelosamente nossas máquinas de intercambiar aromas. Guardamos as saudações e as erudições, as formalidades e as solenidades, não mais.

Nenhum comentário:

Postar um comentário