terça-feira, 30 de junho de 2009

Meus solenes transmutando em musgos

Hei-me enfastiado. Um sujeito decíduo, envergado, com vãos murchos entre os beiços decadentes de quem assobia canções inauditas. Um sujeito nascido enrugado, residente dos paços frondosos daqueles que ainda se querem ter com tez verdejante, tez ainda viçosa. Dizei, súditos meus, séquito impertinente, para que hei de vos ter? Para que me hei hierarquizado? Apoio-me completamente sobre mim, o báculo que possuo, tão retorcido quanto foram árvores a me produzir, tão pulverizado quanto foram os animais alimentícios a se dissipar. É vassalagem toda rejuvenescente, vassalagem polida tal os meus calçados lustrosos e deturpados, demasiado excessivos. Vassalagem não me sustenta, não obtenho apoio. Serviçais meus que poucas épocas cruzastes, rostos moços, ponde o monarca ancião sobre as meias de seda, dai-me o banquete, que hei de me suster. O monarca há de se suster por si, há no reino somente submissos e submissos serão gerados a cada nova reprodução. Não há novo, ó monarca senil, teu reino é só escombros, homem; e tu nem homem és, ó figura esquálida. Tens fissuras na face, mofino, e o que restas a ti é definhar cotidianamente. Rouquidão minha é coisa inaudível, de suspiro pedregoso, pois coleciono os bramidos de minha pessoal avalanche viscosa. Escorrei, foz de muco, escorrei até desintoxicar todo o vasto trono onde me hei assentado, até varrer de minha coroa pegajosa todo o pus infeccioso. O indivíduo consistindo no amálgama dérmico, o individual coexistindo coletivamente, e o rei que enceno sendo fruto dos tecidos dos tímpanos. “O que haveis ouvido, proclamai” e hei-me tomado por linho embebido em líquido amniótico, hei-me tomado como medula do que jamais haverei de governar. Apenas me hei exaurido, extraído da juventude recusada. Os subordinados sendo tenros em excesso, sendo meus membros, sendo quaisquer membros, sendo vitais ou dispensáveis e percorrendo os meus átrios soberbos, aqueles que hão de crepusculejar junto deles, aqueles átrios resplandecentes. Pena que me hei fatigado, eu, peça capital, regente que conduz, mas não deseja tal. Com que finalidade iria o restante me cultivar? Um cajado queixoso que ousa ranger além da permissão que tem. Não me deram permissão, tampouco estabeleceram limitações. Hei-me aqui, papiro a resmungar, relíquia mumificada e inutilizável. Concedo-vos alforria, concedo-vos o que for. Sede mutualidade, sede corpo, sede unidade, ó pilhas de moléculas pouco desgastadas! Sede a sede saciada das eras que não fui, e hei ficado.
As vezes em que meu sopro brevemente jazer, aqui este visitará imperceptivelmente e estender-se-á como duque sobre o divã. Ele será um testemunho pérfido, um escrivão herético, e disso não há de passar enquanto me hei contente. Não sede concisos, exceto quando o contrário não for praticável; tende a prolixidade como um dom sublime, todavia, não considerai a profusão tal dogma. O que veementemente almejo é que metaforizeis alegoricamente, em um pouso dúbio, porém plano, que decaia semelhante aos pêndulos das minhas cãs quando grandes vórtices de mim se aproximam. Súditos com menos de pares de décadas acumuladas, obedecei-me derradeiramente e movimentai-me – já que à locomoção não há trégua e esta deve perdurar. Tenho-me um todo incompleto, fragmentário, que se acumula, a se empilhar. Os beiços estão ambos dependurados sobre e sob o vão escuro que se abre imensamente, a bocejar, a comprovar o agastamento de minha soberania – e esta a ser enfadonha. O trono reclama como as articulações dele, como as minhas, mas os servos estão frequentemente dispostos a serem funcionais – a serem coisas que me compõem e que me higienizam, que higienizam o meu reinar. Algumas vezes poucas eles me advertem que sobre a minha calva acumulam-se quantidades consideráveis de poeira, de ociosidade; algumas vezes poucas eu os escuto – e, quando tal ocorre, dou-lhes meus ouvidos para que também possam ser higienizados e dou-lhes o cerúmen para que este sirva de alimento. Meus súditos não requerem quase nada de mim, alguns caprichos, alguma vaidades, e outras dádivas que lhes concedo e eles chamam de necessidades. Substâncias de forma geral servem para mantê-los próximo aos meus calçados, uns diminutos capachos deslizantes – que vezes me fazem ir ao solo, vezes de infortúnio. O cetim é algo terrivelmente escorregadio, terrivelmente lustroso, ofusca-me e deslumbra meu séquito – eis algo pernicioso. Eu sou todo ósseo e rarefeito, eles não, eles correm para muito distante, eles são todos cartilaginosos e densos, possuidores de vigor medonho que me consterna. Eles são linhas horizontais, paralelos entre si, e eu sequer passo de segmento. Contudo, abrigo heranças, tenho um cofre de ancestralidade, um baú multiplamente lacrado no qual eu me escondo. Lá é que reside minha coroa, ela é completamente plúmbea, e o pus que se acumula em redor absolutamente ebúrneo. São dois elementos que se misturam ao terceiro elemento intruso que sou. Quando me abrigo da jovialidade da criadagem, eles me acolhem com ingratidão, repudiam-me sem me deixar perceber. E eu me exausto de ser tão singular, tão individual, tão elemento intruso, e descanso. No meu descansar, ronco – e, assim, meus criados fazem música. Muitas vezes acredito que, em realidade, são eles que me fazem ressonar com tanto fragor, apenas para se certificarem de que não evaporei. Ao levantar, percebo que hibernei alguns pares de milênios, que minha fortaleza ganhou novos liquens e que não há mais nenhuma face conhecida entre os súditos, pelo contrário, vejo que há cada vez maior juventude, e maior juventude anônima e distante de meus calçados, longe de serem capachos – mas também longe de serem algo além de serviçais.
Uma varanda onividente cinge a fortaleza. Ela não é onividente, isso é um simbolismo, da mesma forma que os olhos que caminham sobre ela tampouco o são. O terraço tinha como campo de visão os meus domínios – no pretérito. Minha vista está estancada, estagnada na era de marfim. Minha vista é feita de visão e de flocos brancos – e isso é ainda mais intenso a cada nova hibernação. Vista de marfim, ou pus, que omite minhas ruínas. Elas estão lá, está tudo lá, porém tenho um véu que me cobre o cristalino, um véu de senilidade. Tenho as mãos vitimadas pela onicofagia e, entre suas rugas, há vestígios de tato, de um tato lento que se apoia vacilante sobre o parapeito e com o qual posso sentir os liquens, os fungos, os musgos. Esse tato rugoso cofia as cãs escassas que se cultivam em minha calva descoroada e para, desce até o veludo de minhas vestes - está ralo, veludo puído, de outros milênios, de eras recusadas – desce mais, até o mármore do parapeito, até as formas tênues de vida que ali habitam, e repousa. Hospedo progressivamente mais musgos, fungos e liquens à medida que meus servos aumentam. Cada vez os vejo menos, cada vez os sinto mais – e não os quero, não quero ninguém hospedado. “Saí de meus paços, frívolos, fugi!” – só que eles não se vão. Não me ouvem, esses levianos. Pensam que não faço mais do que grunhir, pensam que não formo diálogo, que não formo discurso. “Ouvi-me!” – e entendem como se eu estivesse a tossir. Estou em condições parceladas: o fastio degradável, desagradável, ocupa frações medonhas de meu dia e, de restante, há o vulto das vontades. Meu espaço é nulo. O que há de fato são meus deveres reais, de realeza. Realeza surreal, supra-real, ultra-real – uma outra condição, condição abastada, abstrata. Vagueza incondicional, mas compulsória. Vagueza de um trono varado, de coroa decapitada, da Coroa. Se já posso não reinar, ou se irei reinar em condições de indiferença, desejo minha guarda pessoal ajuntada derradeiramente, e que ela traga consigo todos os quadrúpedes montáveis que se abrigam nos meus paços. Os quadrúpedes montáveis existentes somente são aqueles de pescoços compridos, aqueles visionários que enxergam em lugar de minha vista esbranquiçada e baça, aqueles que veem longinquamente, que veem em campos remotos, e que são incoerentes augúrios. O maior capricho e prazer da senilidade, ou da senil idade, é o de poder montar girafas. Cavalgá-las frequentemente e nem se dar conta disso. Agarro-me àquele pescoço rijo e finjo que posso falar, agarro-me àquele lombo que se fricciona contra mim e finjo que posso me locomover – talvez eu até possa, mas não que eu lembre. Grandes girafas, imponentes, têm o poder de seus pescoços, e, por segundos, eu experimento essa sensação. Segundos ou minutos ou horas ou eras inteiras que podem ter sido sufocadas pelas neves das hibernações – não que eu me lembre. O que é mesmo relevante – ou talvez nem isso seja – é que posso cavalgar girafas e, com convicção, afirmar: “Estou montado em um visionário”.
Largo e longo bocejar – eis meu maior dom. Depois do centenário das eras, muito após o centenário das hibernações, aquilo tudo que era fragmentado e delgado em mim se agrupa em camadas adiposas deslizantes. Eu sou somente camada adiposa, ó juventude em meus territórios hospedada, aceita isso e me sirva mais do banquete à mesa, pois meus pés estão ficando inchados de ter de dar passadas. Eu deslizo de uma hibernação para a outra e para outra era e para outro baú da ancestralidade. Deslizo agora viscoso, limácida vagarosa, eis minha condição mais honrável. Divagar devagar, a única norma que sancionei em todo o meu reinado e também a única que outorguei aos meus criados; para o resto não tenho pressa. Nunca hei de me extinguir, pois moro em cada um que perto de mim mora e, cada outro que efetua êxodo, leva fatias de mim. Posso de todo me despedaçar, mas continuarei morando em cada um, eu e minha mucosa que me locomove. Eu não preciso governar, que esses todos façam os seus êxodos e construam seus próprios feudos – minha responsabilidade parasitária foi delegada. De sanguessuga me chamariam, mas o problema é que não sugo sangue, e tal catacrese não convém. Sou um molusco ubíquo, carregando o lar de todos sobre o meu báculo nodoso. São precisas comparações específicas a fim de justificar minha animalidade, metáforas breves. Ah, estivessem os nós empilhados só sobre o carvalho austero de minha medula... Por que devo eu ter dedos inchados, como se girinos flutuassem livres e natantes entre o ouro denso dos meus sinetes? Um sinete para cada dedo, e isso é suficiente, e isso é necessário? Não desejo identificar minhas correspondências: sou discreto, sou sigiloso. A velhice escorregadia muge sob a sujeira das minhas unhas finas, muge previsões a passar no pretérito. O estalar das vozes dos meus serviçais, aqueles que são um Quase ou um Talvez, estas vozes felpudas cochilam sobre as ovas de anfíbios. Pois não disse eu dos anfíbios? Disse das girafas, mas estes dois tipos de animais são figuras parecidas, com certas peculiaridades, porém irritantemente similares. Tenho idade debaixo da minha copa de arranhões de garganta (palavras quase termos), tenho idade o suficiente para não bem me lembrar das tais semelhanças entre as girafas de torres sobre o dorso e os anfíbios moles dos meus anéis. É, adquiri idades. Futilidades, vaidades, solenidades... Maldades não, das maldades eu tenho pavor. Sim, tenho um horror absurdo às maldades, um enrugamento cutâneo se apossa da região superciliar do meu resto, o buço se expande em uma batalha contra as estalactites do meu nariz. É curioso, porque maldade sempre me pareceu algo constantemente distante, de outros reinos, sem girafas, sem que ninguém pudesse visionar. Devo ter esmagado algumas maldades com meu calcanhar, não sei, elas não doeram tanto como doem os ouriços das minhas presunções. Eles sim, fios longos de rigidez, penetram sob as unhas, arrancam-nas, e coçam-me cortantes as dermatites. Ocorreu a mim só agora o meu aspecto repugnante. É provável que até eu o aprecie, e ainda o aprecie solenemente, por isso não me dou por mim. A repugnância deve ser-me atrativa, atraente... Basta de infecções sutis, maldades não cutucam chagas. Tempos chegam quando um rei deve mastigar seus minúsculos e irrelevantes musgos, fazer deles chá, degluti-los suave e perenemente na garganta. Tempo chegam, ou chegariam, se chegarem. Há probabilidades; sim, idades e prováveis idades.
É meio voluptuoso de minha parte, quando efetuo a punição física nas parcelas menores de mim, mas é apreciável. Não que eu fustigue os meus subalternos, só que por vezes acabo os exaurindo, quase os exaustando. A exaustão desses meus membros parece incrivelmente agradável, como a única maneira de exaltar a minha coroa à devida condição de fosca lucidez. Não sei se eles me encaram como sádico. Sou um velho leviano, não percebo muito além de um palmo da catarata de minha vista. As questões régias, os problemas que requerem disciplina, tudo isso é erudito demais para a pequenez de minha boa vontade, fazem as minhas articulações tilintarem. Ser velho não dói como muitos pensam, o que acontece é que um ancião se desgasta compadecido com os camundongos que limpam as manchas ao longo de suas coxas arrepiadas. Ser velho tem gosto de calcário, meu privativo o sabor helênico. Não vou falar do mármore das colunas, é previsível demais. Até porque sempre repudiei mármore, sendo adepto do breve granito. Entretanto, são questões de boa postura, um rei sem mármore é algo inadmissível. Ao ficar antigo e acumular idades, acabei percebendo que conduta é uma coisa de significância minuta. Porém mármore não é algo tão modificável quanto parece, e retirá-lo dos parapeitos e dos assoalhos das varandas me é custoso. Meu alento é mergulhar na terra desnuda que faz rodeios nos jardins, empestada por larvas amigas e anelídeos condescendentes. Lá eu colho os granitos dos meus caprichos, isolo os quartzos, que são tentativas falhas de projetos desvairados, e arranho as coisas que ficam em volta. Futuros insetos eu arranho, e eles fogem. Moscas em potência, vespas e libélulas que serão, tudo que é novo e fresco escapa de mim. Os anelídeos não, eles apreciam a minha aparência de varizes e estrume, e, portanto, se aninham junto às minhas dobras. É curiosamente abafado esse processo, e ainda bem mais aprazível do que as hibernações nos baús. Dar-me-ei a liberdade momentânea de efetuar uma comparação dispensável, que é a de supor que me empilhar no jardim é como entrar em uma urna, não em um baú nem em um vaso, mas só e unicamente em uma urna. Afirmo tal inadequação literária por causa de um episódio inconveniente que certa vez me ocorreu. Meus pajens, vós, se é que possuís a aptidão de depositar qualquer em vossas mentes gelatinosas, deveis estar cientes da dita ocasião. Um infortunado evento, em uma das vezes distantes nas quais recebi pessoas de idades equivalentes à minha em meus domínios. Veio a mim, então, um muito obsequioso senhor de modos contemporâneos, trejeitos afáveis e polidos, requisitar-me qualquer coisa ou oferecer-me serviços, algo que não posso reconvocar à minha memória no momento. Creio que ele oferecia companheirismo, e especulava sobre o assunto com ânimo e vigor, chegando mesmo a me oferecer algo completamente inusitado e encantador, pois ficava exaltado com intensidade e frequência - consultarei meus subalternos posteriormente para averiguar o que era. Francamente, acredito que ele me vendia a girafa que possuo, eu me lembro de fechar algum negócio, barganhar, trocar peças metálicas. Ao fim, tenho certo que supliquei ao homem que experimentasse a infusão das mais nobres plântulas que nasciam pelas frestas de minha edificação. Submisso e meão, aceitou sem qualquer relutância. No dia, eu carregava em mim doses grandes de orgulho e garbo, e pus-me a preparar a bebida com as mãos que levava nuas. Havia já um estoque das plântulas que, como idéias a brotar, estavam tão vedadas e empacotadas quanto poderiam ficar ao lado da chaleira. Notei que o material para o preparo havia, mas não o continente. Foi quando decidi usar a urna. Não demorou muito para que eu a retivesse entre minhas palmas desvendadas e me esgueirasse para dentro dela. Não hibernei, fixei-me à parede interna e me quedei sem repousar. Adquiri uma girafa sem pagar. O senhor homem saiu de meu estabelecimento satisfeito com a minha majestade, sabia com clareza incorruptível que eu, representante absoluto da vanguarda moral, adiantava a ele, com a exclusividade daquele momento breve, a conduta futura de minhas gerações: a esquiva. Foi um instante de tolice fulminante que o tomou, ignorando que não deixarei descendentes justamente pelo fato de que jamais serei um ancestral. Perdurarei além de todas as esculturas e mausoléus contemplativos. O hálito das chagas me carregará.
Correto, as chagas. Eis que chega, portanto, o momento o qual desejo nomear sublime, justamente por ser este o termo que aglutina tantas pretensões e calamidades quanto qualquer entusiasta poderia prontamente cobiçar. Pois sim, bem, calamidades, é exatamente este o instante. O hiperbólico segundo hiperdesenvolvido no qual as protagonistas serão vós, ó vós, minhas magnânimas chagas! Deleitosas pragas de mim. Que se desenvolva o procedimento, pois, com a paciência que me é peculiar, aguardar-vos-ei. Indagais-me vós se sois frutos dos meus vermes anelídeos, se é possível que eles me tenham carcomido as banhas a tal ponto desinteressante. Sois minha heranças, não percebeis, caras filhas enjeitadas? Sois o que deixarei para rondar o meu reino com outros rinocerontes e outros hipopótamos. Sois o que restará, o que será abundante. Por que motivo obscuro ainda me indagais vós sobre o que virá? Por que razão insensata ainda credes vós no poder transcendental das parasitoses? Mas atendei! Percebei, gentis hóspedes, se eu cair, vós expirareis! Não extraí mais nada da matéria de meu organismo, é isto o que vos rogo! Eu caio e vós sereis cessadas! Não haverá mais nada a vós depois, atende àquilo que possuís agora. O momento vosso, o momento de vossa herança é este. Vós restareis, sim, porém somente enquanto eu sobreviver. Vossa herança é antecipada, e para tanto me fiz um monumento. Não que eu tenha erguido algo em minha homenagem, pelo contrário, eu me tornei um monumento, fiz-me do meu respeitado granito. Podeis me contemplar agora, herdeiras ingratas! Ó úlceras corrosivas! Encaremo-nos, somos aristocratas frustrados. Faltou-nos algo, não soubemos usufruir bem dos frondosos paços. Adquiri tanta coisa antes de erguer um depósito, um armazém de recordações. Vede vós o que me tornei, e por desleixo; vós me dominastes. Minha debilidade foi tamanha que larguei certas frequências de mim ao relento. Relento que se tornou nevasca, geada sobre mim, e acumularam-se as cãs do oblívio sobre minha cabeça. Isso se faz pesar, pressiona-me. Ó feridas expostas de meus caprichos, cicatrizes imundas, estigmas que inspiram nojo, sabeis o que é não me lembrar de vossa imagem passada? Sabeis o que é ver fuligem do que fostes? Endereço-me à lareira, à grande obra do meu mármore profundo, e está lá. Lá, pretérito. Entre as marcas de meu punho, meus pulsos hirsutos contemplam cinzas. É isso o que posso ver! Cinzas são tudo o que podeis ter como lembrança daquele que herdou inevitavelmente a monarquia, mas que na aristocracia se embalou em pó, e de pó se fez. Foram as traças que me deixaram assim, com vós, chagas, úlceras, marcas asquerosas! As traças deixaram tudo o que eu sustentava roto! Tenho as ideias rotas! E é lá, onde já vos indiquei, na lareira, é lá onde preservo resquícios de preciosidades. As pratas oxidadas, as que não refletem mais, os cobres cobertos de azinhavre, aqueles aspirantes a esmeraldas, é disso que me nutro. Se sabeis o que é haver uma película que vos perfura, sabeis de mim. Essa crosta de material pouco nobre sobre os objetos é que me atormenta. Essas porções heterogêneas de impurezas me ocultam os artigos de primeira necessidade. Perco as lunetas em meio a tanta partícula desprezível, perco a visão junto com as lunetas, e ainda junto com elas perco também as imagens especulares, além daquelas espetaculares com as quais nem conto mais.
Hei-me então aturdido com a pequenez das obras domésticas. Apenas porque a criadagem não possui a capacidade devida para polir os metais do palácio, estou cá a me impacientar. Juventude, tenho ciência de vossa incapacidade, vossa fatuidade, vossa frivolidade, vossa volubilidade. Ó Juventude de pouca idade, inexperiente diriam os mais desdenhosos, Juventude de muitos cabelos. Sois um bando de frescor que me rodeia e vos desprezo solenemente. Corte minha desprovida de rugas, não me segui mais! Não salvo um metal sequer nos cofres, nem o mais baixo deles habita lá, até latão me renega. Corja depravada de amenidades, vossa honra é a de seduzir o espelho! Lamentai, não dou crédito algum a vossas vozes. Menosprezo vossa loquacidade, escarro sobre vossos argumentos. Falta-vos a erudição que apenas batalhas letais contra o firme braço do definhamento poderia vos fornecer. Que tenhais a sutileza de vossas faces espancada pelos dias e pelas insonolências até atingirdes o grau de deformidade que hoje possuo. Que engulais toneladas maciças de celulose rabiscada, até poderdes citar todos os teoremas já enunciados. No momento, contudo, o que vos peço não é de todo intricado, pelo contrário, efetuo uma requisição simplória. Por obséquio, deixai repousar as minhas pernas varicosas, elas já estão túmidas a ponto de incapacitar minha locomoção. Sede mais uma vez a poltrona longa sobre a qual eu me assento, caminhai pelos campos meus herdados, e levai-me finalmente aos outros reinos, levai-me para dialogar com os monarcas que não tenho contato, os soberanos que repudio. Levai-me a um sarau esta noite, embebei-me em vermute e me jogai às Fontes do Tempo, pois já me preparo para a próxima hibernação.

Errôneo fardo das eras

O l’Oméga, rayon violet de Ses Yeux !
Rimbaud

(...)
R: Das suas vozes áureas;
O: De seu aroma violáceo;
M: Dos seus ruídos cianos;
A: De seu sabor tanto ocre.
(...)
R: De seu bocejar magenta;
O: De seu não-falar carmim;
M: De seu tocar-se prateado;
A: De seu sujeitar de marfim.
(...)
Roedura cinzenta;
Ovacionar marrom;
Mimetizar amarelado;
Amargura verdejante.
(...)

Cidadela
aquela
que não
visitarão.

Invertem-na
e delineiam
sumo alento
de um estulto.

Não aquela
cidadela
visitarão.

Se é defunto
o latim, está
também junto
a ele enterrado
o seu império
tão consumado,
de seu prazer
todo finalizado,
mais perfeita
imagem do
irrealizado.

O Fraterno
lugar ermo
se tornou.
O Eterno
tolo inverno
ele virou.

Por que a herdam diversos
povos e dedicam a ela versos,
que é alta praga da Tradição?!

ROMA
está presa,
indefesa
num passado
tão cromático e
bem soterrado.

Tempos
estáticos!
Extáticos!
Aos valores
passados
atados!
Há cores,
de rastros
sabores
que os
latinos,
meninos,
achavam
possuir!

(...)
A fim de enjaular um consolo,
Muitos padecem a aberração,
O que vedes não é paixão,
Rubis abortados do solo!
(...)
Aquilo que vós sentis pelos parentes,
Magnífico estertor seco dos clementes,
Ocorre de fato em vossas vítreas mentes?
Ruim será se vós estiverdes inconscientes!
(...)

Os bacantes ver-se-ão,
rubras uvas beberão
quando eles então
sutilmente esperarão
de ROMA a exaltação!

Por fim perceberão,
do áureo, ocre, ciano,
violáceo reconhecerão,
cada lasca sob o pano!

Sob a sombra plúmbea
do largo impropério,
ROMA,
fá-la-ão,
a soma,
dos saldos do império!
Que apreenderam,
ou que aprenderam,
os devotos d’O Nome?!

ROMA é fatuidade,
espectro de prazer!
Projeta sua vaidade
para vos satisfazer!

Projetai, portanto,
júbilo e satisfação
uns nos outros e não
lhes dai nomeação.

O anagrama
que conclama,
ávido para se expor,
(ROMA)
lépido para se impor,
(ROMA)
ele vos infama,
e não vos ama.

Não lede além
da incolor tinta
que diz “ROMA
no cor extinta.”

domingo, 28 de junho de 2009

O inferno de André

-Será que eu morri? - Disse André enquanto olhava ao redor. Um leve riso de ironia escapou de dentro dele. ´´Que coisa mais boba para se dizer ``.
Encontrava-se em um campo aberto, coberto apenas por uma grama rasteira e algumas flores. O vento soprava levemente, na forma de uma quente brisa, e o ar estava impregnado por um não sei o quê de paz e tranqüilidade. Um riacho cortava a planície mais ao longe, e além dele era possível ver algumas formas estranhas, vultos disformes, o silêncio era absoluto. Nunca imaginou que existiria um lugar assim após a morte, na verdade, nunca imaginou que existiria algo após a morte.
Decidiu descobrir o que era, afinal de contas não fazia o menor sentido ficar parado num lugar daqueles, ´´Talvez seja um sonho``, pensou enquanto caminhava. Passado algum tempo chegou ao seu objetivo. Mas como não tinha relógios, compromissos, ou responsabilidades, sentiu que o próprio tempo não fazia sentido, de modo que seu pequeno passeio pode ter demorado um minuto, uma hora, um mês, ou mesmo uma eternidade.
O que parecia um pequeno riacho azul ao longe era, na verdade, um imenso rio transparente. Mas não tinha a menor correnteza, a água estava completamente parada, de modo que nem a brisa fazia efeito algum sobre toda aquela mansidão.´´Acho que dá pé``, pensou calmamente. Não sentiu nada quando entrou naquelas águas, elas pareciam escorrer na sua pele, como se seu corpo fosse impermeável.
Ao chegar à margem oposta se surpreendeu ao ver que as formas disformes eram escorregadores, gangorras, balanços e outros brinquedos. A última coisa que imaginaria encontrar era um playground. Quando se aproximou mais notou que alguém estava se preparando para brincar em um dos balanços.
-Olá. Aqui é o céu? – Perguntou, sem olhar diretamente para seu interlocutor.
-Não. Esse é o inferno.
-Como assim? Não parece ser o inferno.
-Mas é – Respondeu, enquanto tomava impulso para começar a balançar. Antes que André pudesse replicar o brinquedo tomou altura, e depois desceu. Subiu, desceu, subiu, desceu.
-Onde que fica o céu então? - Disse, elevando um pouco a voz para ser ouvido.
-É só subir ali. – Apontou para uma imensa escadaria, que serpenteava em direção às nuvens.
-Isso é tudo muito confuso. É mais provável que eu esteja sonhando mesmo.
-Não faz mal ficar confuso. Afinal de contas não tem nada para ser entendido aqui. Exatamente como um sonho.
Sobe, desce, sobe, desce.
-Esperava encontrar mais anjinhos com harpas, e coisas do gênero. Lá no céu tem disso?
-Não.
-Mas então, qual a diferença entre o céu e o inferno, afinal de contas?
-No céu tem algodão doce, oras. – Disse como se fosse a coisa mais lógica do mundo. -Você não vai brincar?
-Não, obrigado. – Olhou para aquela figura que balançava cada vez mais alto. -Você é Deus? – Perguntou, por instinto, já não assimilava mais o que acontecia ao seu redor, era como se tudo fizesse o mais completo sentido, mesmo sem ter sentido algum. A morte era algo impressionante, mesmo para André que passara sua vida toda duvidando e descrendo. Ao se deparar com o infinito, deixara o ceticismo que outrora o guiara em todas as situações.
Sobe, desce, sobe, desce.
-Sim. Estranho que para alguns seja necessário se deparar com a própria não existência para poder acreditar em algo que não podem entender. Não que eu me importe, isso é natural de vocês. Pensam, logo duvidam.
-O que você está fazendo no inferno?
-Vim só fazer uma visitinha ao diabo. Aproveitar para matar um pouco a eternidade. – Sorriu para André. – Caso esteja curioso, trata-se daquele ali, de cabelo vermelho, brincando na gangorra com São Pedro.
-Ah sim, lógico. – Respondeu ironicamente. -Bem, eu tenho uma pergunta, então.
-À vontade, afinal de contas tudo o que você fez desde que chegou foram perguntas. Mas, deixe-me adivinhar. Queres saber qual o sentido da vida? – Disse em tom bem humorado.
Antes mesmo que André consentisse com a cabeça, Deus continuou:
-A vida não tem o menor sentido, como a morte também não tem. Simples assim. Agora, junte-se a mim, está meio chato ter que conversar com alguém parado.
-Acho que no fundo eu já esperava essa resposta. Sempre pensei que, nós, homens, nascemos dentro de um poço escuro, e gelado, e desde o momento em que tomamos ciência de nós mesmos, passamos toda a nossa vida tentando subir esse poço, buscando alcançar a luz no topo, buscando um futuro melhor, mas nunca chegamos, sempre subimos, e subimos...
-Um dos problemas do futuro é que ele insiste em se tornar o presente, não é?
-...e subimos, mas nunca vemos a luz. Nunca alcançamos essa quimera de olhos negros, chamada liberdade. Sempre achei que você não existisse. Mas também achei que, se existisse, poderia me dar uma resposta satisfatória a tudo. - Chorava, as lagrimas escorriam lentamente por seu rosto inconformado.
Sobe, desce, sobe , desce, sobe, desce.
-Por que está preocupado com isso agora? Estás morto. Não é isso que procurou a sua vida toda? Olhe ao seu redor, este é um mundo justo, sem guerras, sem miséria, sem mistério. Não era isso que queria?
-Eu quero voltar.
-Voltar para seu poço? Para a angústia da vida?
-Sim...por favor.
-Mesmo sabendo que nada terá sentido? Que serão angústias após angústias? Mesmo sabendo que é praticamente impossível ser feliz?
-An ham, e se não for muito incômodo, gostaria de um lugar frio.
-Vocês se tornaram muito complicados, eu preferia quando estavam na idade média. Era tudo mais simples.
Quatro anos depois, um menino de cabelos castanhos, e olhos escuros segurava as correntes do maior balanço do parque. Sua mãe estava distraída conversando com uma amiga, e não notara que a criança a desobedecera. Sentou no pequeno assento de ferro enferrujado, e tomou impulso. Sobia, descia, sobia, descia. O balanço ia cada vez mais alto, Marcos sentiu que conseguiria voar. Sobe, desce, sobe, desce. Subiu, e largou as correntes. Voou 2 metros antes de dar de joelhos no asfalto quente, e quebrar a perna esquerda. A mãe desesperada, ouvindo o grito do menino, correu o mais depressa que pôde para socorre-lo. Enquanto isso, o balanço, que assistia a tudo impassível, continuou em sua inércia. Sobe, desce, sobe, desce.

sábado, 27 de junho de 2009

Libertas quæ sera tamen


All animals are equal, but some animals are more equal than others”

George Orwell, Animal farm.


Somos todos livres para fazermos o que queremos: temos todos acesso à educação, cultura, saúde... Não consigo entender de onde vem toda essa crítica social.

Veja bem: você tem tanta liberdade agora que está sentado na frente do computador lendo este texto. Poderia ter optado por fazer milhares de outras coisas mais urgentes, mas está lendo. Pode ser que agora já seja tarde, talvez devesse ir dormir: o trabalho ou a escola já chamam logo de manhã bem cedo; ou talvez seja logo de manhã, talvez devesse ir passar o seu café, proveniente das grandes fazendas dos latifundiários; é, talvez a boa idéia seja mesmo imprimir o texto para poder lê-lo mais tarde, além de ser também a melhor forma de expressar a sua liberdade de ignorar os ativistas ecológicos.

Mas voltando ao meu ponto principal, somos livres de quando viemos ao mundo até quando nos vamos dele.

Desde pequeno você já era livre para poder engatinhar para a esquerda ou para a direita, dormir ou não, comer ou fazer birra - aposto que ‘fome’ ou ‘comida’ estão entre as primeiras palavras que você aprendeu, não?

Mas não pára por aí! Você foi crescendo e as maneiras de mostrar sua liberdade foram multiplicando: você escolheu estudar e perseguir uma carreira; você pôde escolher entre ter preconceitos contra minorias ou não, você e seus amigos puderam escolher entre beber ou não, entre fazer ou não sexo, entre fumar e usar drogas ou não. Fizeram todas essas escolhas juntos, já que somos todos livres.

Somos todos tão igualmente livres que obviamente seus amigos fizeram as mesmas escolhas que você. Mas tudo bem, isso só significa que a amizade é melhor, já que todos têm os mesmos interesses!

Finalmente, mas não menos importante, temos a melhor forma de expressar nossa liberdade: as eleições! Como não?!

A cada quatro anos temos a chance de definir o futuro do país votando em nosso queridíssimo Presidente da República. Nossa liberdade nesse ponto é tão extrema que em nosso país votar é muito mais do que um direito, é um dever do cidadão: devemos mostrar que somos livres. E é claro que para facilitar mais ainda a nossa dificilíssima escolha temos a televisão e a mídia em geral. A mídia nos ajuda a decidir qual é o melhor candidato para tomar o poder no país tão devotamente que é quase um pecado não ter escolhido em qual candidato votar no dia das eleições.

E eu poderia falar ainda de várias outras liberdades que temos, mas acabamos de achar um fantasma na escola e tenho que voltar para a aula de alemão!


[Foto por Daniel Nunes]

Tarde de inverno

Mais uma vez, estava eu deitado lá
Com a janela fechada
Nenhum vento entrava
E eu não fazia nada, deitado no sofá.

O mundo girava, e a vida fora rugia
E eu sonolento, deitado
Avistei algo inesperado
Havia algo errado, na minha sala vazia.

Pensava num lugar, em algum lar ao sul,
Quando aquele “algo” acolho,
E a qualquer sono me tolho:
Era acinzentado, como meu olho, era azul.

Era uma gota anil, uma matéria anormal,
Algo nunca antes visto
Algo híbrido ou misto,
Seria um visitante malquisto, algum mal?

Ela entra devagar, vagarosa pelo vidro
Eu imóvel, só observava
Ela ganhava espaço, flutuava
Furtivamente adentrava, iria falar comigo?

Ela se aproxima, sem fraquejar avança,
Nem mesmo toca o solo
Vê que eu não me controlo
Então pousa sobre o meu colo, e dança!

Que criatura bela! Sem nenhuma falha!
Era uma alma do Elísio
Era um fauno de Dionísio
E num movimento metafísico, se espalha!

E seu azul se torna uma cor vazia
E se expande até a monotonia:
Era o sofrimento infeliz do tédio.

Era o fruto mais horrendo do ócio
Um espírito vagante e capadócio
Que adentrara o vidro do meu prédio.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

I Let Someone Else In


Tinha chovido o dia inteiro, e apesar de não chover agora, sabia que não demoraria até que a chuva voltasse.

Olhou para fora da janela e percebeu a neblina descendo e enchendo os vales verdes.

O mundo estava cheio de água agora, e isso o enchia de felicidade. Uma felicidade estranha, um sentimento não exatamente mundano.

Ainda que cheio, sentia-se vazio. ‘Um pedaço se perdeu’ era o que não deixava de pensar. A felicidade melancólica fez com que risse de sua própria desgraça. Não conseguia achar as chaves para poder voltar para casa, não conseguia achar o dinheiro para pagar o café... Não conseguia achar a metade que lhe faltava.

O que não tinha idéia era de que os acontecimentos no futuro próximo mudariam tudo isso: tudo começou de um jeito incomum, a garçonete que foi até ele e disse que outro cliente escrevera um bilhete, perguntava se poderia entregá-lo. 'Porque não?', pensou, sem saber que aquilo já era um passo em direção ao que até então abominava.

'Quer sair comigo? - Manuel.' era o que se lia no bilhete.

Achou desconcertante, ficou confuso e estressado ao mesmo tempo. 'Puta que o pariu! Não é porque freqüento este café que sou gay!' pensou, indignado.

Procurou pela caneta que sempre carregava com seu caderno e escreveu na parte de trás do convite:


'Caro Manuel,

Sinto por rejeitar o convite, mas você não faz o meu tipo.

Atenciosamente,

Carlos.'


Chamou a garçonete e pediu para que entregasse o guardanapo de volta ao tal do cliente e lá se foi a mulher. ‘Preciso achar um novo café pare freqüentar’.

A garçonete voltou com um espresso com chantilly e um novo bilhete. ‘Sem açúcar, como você gosta. Manuel’.

'Agora isso já é audácia demais!', levantou-se e já estava fazendo seu caminho para a porta quando volta a garçonete e diz:

- Mas já vai? Trago aqui a torta que o senhor pediu... de limão, não é essa que gosta? - e do lado o mesmo guardanapo, com a mesma escrita: 'O espresso sozinho não é tão bom quanto como acompanhado de torta, não? E de limão, como a sua mãe sempre preparava para você! - Manuel'

Isso já estava levando Carlos à loucura: de repente um cara qualquer não só estava dando em cima dele como o conhecia bem demais para ser um mero observador das suas idas ao café. Apesar de tudo resolveu ficar, aquela história maluca estava deixando-o curioso para saber quem era o tal Manuel, e o que ele queria realmente: se era só seu corpo ou algo mais.

Enquanto comia a torta e tomava o café (afinal, o tal do Manuel sabia mesmo o que estava fazendo), Carlos pensava em como agiria. Queria saber quem era Manuel. Escreveu em um guardanapo apenas um simples e grosso ‘Obrigado’. Chamou a garçonete e pediu para que ela entregasse, novamente, o bilhete ao cara. Enquanto ela caminhava em – o que parecia ser a – direção do admirador, Carlos observava as mesas ao redor do caminho da garçonete esperando poder olhar nos olhos do ousado homem. Suas esperanças foram jogadas por água abaixo quando a garçonete foi direto ao balcão e não à mesa. ‘Bom, ela é paga para ser garçonete, não pombo-correio’, pensou e voltou a se concentrar no café e na torta.


Meia hora se passara já desde o último bilhete e Carlos agora já tinha terminado a torta e o espresso. Estava começando a ficar inquieto, não sabia se deveria ir ou se a idéia melhor era ficar e ver o que ia acontecer ainda. Teve uma idéia: iria ao banheiro e esperava que Manuel o seguisse. Levantou-se e começou a rumar vagarosamente em direção aos banheiros, quando percebeu que um outro homem - também sentado a sós - se levantou e começou o mesmo trajeto. Tinha sua presa! Agora só precisava pensar em alguma coisa para poder dizer enquanto estavam no banheiro e poder finalmente desvendar o mistério.

Entrou no banheiro. Primeira dúvida: ‘mictório ou privada?’. Foi bem fácil lembrar que o mictório poderia abrir um leque para novas conversas, mas Carlos não queria ter um desconhecido – gay, ainda por cima! – olhando para seu instrumento. Não era uma boa idéia.

Correu para a cabine. O cara que levantou com ele deveria estar por chegar na porta do banheiro.


Som de porta abrindo.

Passos.

Som de porta fechando.

Som de calça abrindo.

Som de xixi na privada.


‘Ótima hora para começar a fazer minhas necessidades’.


- Aliviado? - perguntou Carlos.

- Ahn? Sim?

- Ah, muito obrigado!

- De nada, acho.

- Sério, você fez da minha tarde bem mais interessante, queria saber de onde veio tudo aquilo!

- De que diabos você está falando? - descarga e zíper fechando, era hora de sair de novo, ir lavar as mãos e o contato cara-a-cara.

- Ué, os bilhetes, a torta...

- Olha, você está me confundindo com outra pessoa... apesar de vir aqui bastante eu não sou desse tipo, entende? Nada contra, mas... eu prefiro outra coisa, sabe? - Deu uma palmadinha nos ombros de Carlos e ia saindo do banheiro enquanto ele falava:

- É, ah, devo ter te confundido. Ah, não, não... eu também não sou... - bom, era tarde demais já.


Voltou para a mesa, desolado. Olhou ao redor, buscando olhos que o acompanhassem. Nada. ‘Pô, justo agora que estava pensando em virar viado só pra poder descobrir quem é o Manuel que me conhece tão bem’. Olhou pela janela, com as gotas d’água escorrendo por causa da chuva e abriu um sorriso. ‘Aaaaah, chuva! Ótima hora para ir pra casa’, afinal, ainda tinha que achar as chaves e descobrir como faria para pagar o café que havia tomado antes do flerte todo começar. ‘Pô, se o cara gosta tanto de mim, bem que poderia pagar a minha conta, certo?’

Chamou a garçonete e pediu a conta. Quando ela veio, simplesmente colocou um gardanapo com as inscrições 'Manuel, por sua conta?' na bandeja e pediu para ela entregá-lo.

A garçonete começou a ir em direção ao balcão e de repente parou. Virou-se e voltou-se para ele:

- Olha, eu não posso pagar a sua conta, mas se quiser te dou outro espresso por conta da casa... meu turno termina daqui a quinze minutos e nós podemos ir para casa juntos, que tal?

Carlos estava completamente perdido, já era viado e a garçonete estava passando uma cantada nele agora. Ou estava perdido até o momento em que ela abriu um sorriso para ele. Naquele momento só tirou a carteira e falou:

- Então que tal mais um espresso? E pode ficar com o troco. A propósito, melhor se apressar se não a chuva vai parar!


[Texto por Daniel Nunes & Júlia Tessler, foto por Daniel Nunes]

terça-feira, 23 de junho de 2009

Kupala

Um soneto para celebrar o dia de Kupala neste mês de junho.

The snow is melted, it’s a holy day:
The spring season is about to leave,
The warm sun’s bringing the joy to live
And all ancient woe is carried away.

Burned many fires and praised Svarog
When the dusk came colder and sad,
Now the snow is melted, the spring’s fled
And the first golden rays cut through the fog.

The season of harvest, growth of the seed,
The feast to the goddess, the wine and mead,
Life’s being brought by Her crystal stream.

Who makes our existence an easier strife:
Slav’sia Kupala – The mother of life,
Slav’sia Kupala – The pagan’s sweet dream.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

"She’s a vagabond, a roving maid"

She’s a vagabond, a roving maid
Among the knots of my own thought.
This resting watcher, regard him not!
For his devotion for thee shall fade.

In this world where love I sought
All shall cease, and fall, and die,
So why would I this rule defy
And swear my love, if love I’ll not?

And still thou, fair dreamed lass
Sighs thy tender love, and alas!
Thou dost thy lips from me deny.

So be on earth my hopes all fled,
I’ll keep me from thy earthly bed,
For a kiss shall cease and fall, and die.

sábado, 20 de junho de 2009

Um lugar para retornar

-Se divertiu hoje, meu neto?-Perguntou um senhor alto de barba branca, olhos azuis e cabelos escassos.
-Sim, vovô, obrigado. -Respondeu sorrindo.-Gostei principalmente das zebras.
-Que bom. Talvez um dia agente volte. -Disse, enquanto sorria de volta.-Vamos andando pegar um ônibus então, já está ficando tarde.
Esperaram-no por vinte minutos, e embarcaram lentamente junto com um homem moreno que vestia uma camisa florida e bermuda branca.
-Sete anos né Alex? Já está bem crescido. -Falou olhando nos grandes olhos do neto. Eram idênticos aos seus, um pouco menos experientes, mas idênticos. Olhos azuis como a inocência. –Lembra-se de quando eu tinha que te carregar para todos os lugares? Você vivia chorando por qualquer coisa, e nunca parava quieto. Igualzinho ao seu pai quando ele era da sua idade.
Alexander não respondeu, nem sorriu, nem nada, continuou olhando pela janela do veículo, que andava devagar por uma rua escura e íngreme. Estava com um ar estranho desde que entrou no ônibus, parecia que algo o incomodava.
-Você está se sentindo bem?-Perguntou preocupado. -Algo te aborreceu?
-Vovô, você sabe aonde estão meu pai e minha mãe? –Disse baixo e rapidamente, como que tirando um peso das próprias costas.
-Já te disse isso, meu bem, eles estão no céu junto com Deus.
-Sei disso, mas quando eu perguntei porquê eles foram para o céu você disse que eu era novo demais para entender. Mas agora eu já sou grande, você acabou de dizer isso não foi?
Respirou fundo antes de responder, olhou pela janela. Era possível ver algumas gotas escorrendo pelo vidro embaçado, começara a chover.
-Acho que já é hora de te contar mesmo. Você não deve se lembrar, mas apesar de ter vivido sua vida toda aqui você nasceu em outro país.
-Disso eu sei, nós viemos da Rússia né?
-Bem, não exatamente. Nossa família vem de uma cidade chamada Argun na Chechênia.
-Então não somos russos?
-Mais ou menos, a chechênia não é realmente um país, mas quem nasce por lá não se considera russo, apesar da região pertencer à Rússia. È um lugar difícil para se viver, cheio de problemas e muita violência. Na década de 90 nós nos envolvemos em várias guerras, buscando independência. Seus pais morreram em uma delas, devido a um tiroteio entre o exército russo e os rebeldes chechenos. Dia oito de março de 1992, exatos oito meses depois de seu nascimento. Depois disso eu passei a cuidar de você como se fosse meu filho.
Notou a perturbação no rosto daquela criança, e parou por ali. Talvez tenha sido cedo demais. Passaram o resto do trajeto em silêncio. A chuva soava melancolicamente, naquele silêncio cortante, interrompido apenas por alguns trovões. Como o som de um tambor em meio a um solo de gaita.
Chegaram em casa, e pararam em frente a porta.
-Vovô...
-Diga Alex.
-Um dia agente vai voltar?
-Claro, meu bem, ano que vem iremos ao zoológico novamente.
-Não. Um dia voltaremos para nossa terra? –Disse quase gritando. A chuva caia cada vez mais forte.
-Não sei, lá ainda é um lugar com muitos problemas, muita violência, muita crueldade.
-Mas, e se um dia lá ficar tudo bem? Se não tiverem mais guerras? Quando isso acontecer nós poderemos voltar né? Quero conhecer meu país. –Disse, com um riso de esperança, e os olhos cheios de lágrimas.
Não soube o que responder para aquela criança, seus olhos também começavam a se encher de lágrimas, que se confundiam com a água da chuva. Naquela semana vira na televisão sobre dois atentados em Moscou, sobre o recomeço das ações militares na região, sobre homens bombas, sobre mortes, sobre dor, sobre órfãos.Sobre a impossibilidade de paz.
-Com certeza, um dia voltaremos Alex, eu garanto. Voltaremos e encontraremos um lugar onde possamos chamar de lar. –Disse com um quente sorriso.
Limparam os pés no tapete da entrada e entraram em casa. Antes de trancar a porta olhou para o céu. Estava totalmente negro e coberto por nuvens, nenhuma estrela à vista, nenhum ponto de luz em meio a toda aquela escuridão.´´Tirar o riso do rosto de uma criança é o pior crime que alguém pode cometer´´. Disse, como que pedindo desculpas. Girou a maçaneta e subiu as escadas, em direção ao quarto de Alex. Queria desejar-lhe boa noite antes de ir dormir.

Mais vale a ignorância

Eu nunca pensei muito sobre como iria morrer. Na verdade, nunca dei muita bola pra isso. Digo... Pensava a respeito, mas não como se algum dia fosse acontecer comigo. Realidade distante, sabe? A Morte sempre me fascinou. Ler sobre a Morte sempre foi ótimo. Tantos bons filósofos e teorias tão...
Jamais me imaginei deitada como estou agora, no asfalto, sentindo essa porcaria de dor que não pára causada pelos pneus da porcaria do carro que está em cima de mim agora. Não, não consigo me mexer. Tampouco abrir os olhos ou falar. Será que não dá pra essas malditas pessoas calarem a boca e pararem de gritar ‘Meu Deus! Olha quanto sangue!’.
Sempre ouvi dizer que, quando estamos morrendo, vemos um filme rápido da nossa vida. Todos os momentos importantes e relevantes em poucos instantes. Mais um engano da sociedade. A mente se alonga. Penso em tudo e em nada. É como se fosse um vazio bem cheio. Como se eu percebesse, finalmente, o que significa ‘o paradoxo que é a vida’ e a resposta é nada. A vida não significa nada. No fim, termina tão subitamente quanto começou — se é que começou subitamente, porque pode ter sido planejado. A vida não vale nada.
E o tempo passa mais devagar, cada segundo parece ser vários minutos, só aumentando a porcaria da minha agonia: pessoas gritando, essa dor que não pára, a saudade do que deixo pra trás. Apesar da mistura de pensamentos, tudo converge para como raios eu nunca pensei que seria assim. Será que dá pra parar de gritar um pouco? Curiosidade: tão ruim para os gatos; tão boa para os cientistas. Humanidade desocupada, como sempre . Não, finais de tarde nem sempre são assim.
Ok, vejamos... Não vejo o filme da minha vida. Em compensação, tudo isso me soa tão... Não é nada como nos filmes que vi... Será que as pessoas vão sofrer muito com a minha morte? Não esse bando de desocupados... Refiro-me ao meu namorado, meus pais... Bom... Sei que, por hora, sentirão. Mas e daqui algum tempo? Odeio imaginar que minha mãe pode se destruir por causa disso... Ela finalmente conseguiu um emprego que goste! Mas perder sua única filha não deve ser fácil... Ainda assim... Parar a vida? Acho que seria muito cruel e egoísta da minha parte. Meu pai provavelmente se sentiria triste por algum tempo, naturalmente. Mas nós nunca fomos muito ligados... Isso pode causar um tipo de remorso nele. Pode ser como em um filme, onde os caras descobrem, depois da morte da mocinha, que jamais haviam conhecido a garota de verdade. Queria tê-lo conhecido melhor... Ambos sabem que eu sempre os amei, eu espero... Sempre tentei ser a melhor filha possível. Nunca quis deixá-los chateados de maneira qualquer... Espero que tenha sido tão boa quanto eles sempre quiseram que eu fosse. Espero que esqueçam os momentos ruins, como aquela vez em que cheguei bêbada em casa (se eles soubessem como eu me arrependo por isso!). Como eu os amo...!
O Léo... Amor único e sincero... Brigamos muito. Aliás, estamos brigados. Se eu pudesse dizer pra ele o quanto eu o amo e o quanto ele é importante pra mim! Ele mudou a minha vida... Não era só sobre sexo: era amor! Puro e como nunca havia sentido antes! Amor e prazer. Ou amor de prazer. Ou amor para prazer. Ou só amorprazer... Eu sabia que era recíproco. Que droga! Por que eu tinha que brigar com ele hoje de manhã?! Mais uma pessoa pra se sentir mal... Sei que, se fosse ele quem estivesse debaixo da roda do carro, eu odiaria pensar que a última vez que o vi foi em uma briga fútil. Espero que minha morte não o machuque muito... Espero — algo que jamais pensei em desejar — que ele encontre uma garota fantástica logo, assim ele pode seguir em frente. Espero que ele se lembre de mim como algo belo, pois isso é o que eu sempre tentei ser pra ele. Acho que não o amei como ele merecia... Tão adorável criatura!
Céus! Meus amigos! Ah, se eu pudesse simplesmente me apagar da memória deles! Aqueles mais próximos, que sempre estiveram presentes... O Marcelo, a Carina... Nós três éramos inseparáveis desde quando nos conhecemos! Quando foi mesmo? Acho que foi em uma festa da faculdade... Fizemos todos os tipos de besteira e não nos arrependemos. Quanta saudade... Ah, se eu pudesse simplesmente me apagar da mente dessas pessoas todas...
Deuses, meu gato! Quem será que vai cuidar dele?! Já sei que não poderá ficar na casa dos meus pais, pois meu pai não gosta de gatos... Nem na casa do Léo, que é alérgico. Sei que a Carina adoraria, mas ela já tem o Mojo, que não é muito amigável com outros felinos. Onde raios vão deixar o Nika? Se ele for parar em um abrigo para animais, alguém pode ter certeza de que acharei poderes para aparecer durante a noite para puxar calcanhares. Deuses, o Nika! Gatos não são como humanos, que sentem saudades. O Nika vai sentir minha falta por algum tempo, acredito... Mas seria momentâneo. Desde que haja alguém para abrir a porta de manhã cedinho só pra que ele tenha o prazer de sentir o cheiro do ar e depois voltar correndo pra dentro ou comprar sardinhas na feira todo o final de semana pra cozinhá-las do jeito que ele gosta, está tudo bem pra ele. Mas quem é que faria isso? Ouço há anos que mimo demais o Nika. Duvido que haja alguém que se dê ao trabalho de cuidar dele por mim...
Aliás, quem é que vai fazer a sardinha do Nika hoje? Ele já deve estar miando que nem um louco na porta. A chata daquela vizinha já deve ter ligado pra portaria (reclamar do barulho do Léo e eu transando enquanto o sobrinho dela está assistindo Cartoon Network ainda passa, mas reclamar do gato? Antes ela achava que era um cachorro... Pena que o Nika faz ‘Miaaaaau!’). O porteiro, por sua vez, já deve ter explicado pra ela que eu só saí pra ir até a feira e que não devo tardar. O que será que vai acontecer quando ele descobrir que não vou voltar pra casa? Aliás, como é que ele vai descobrir? Enquanto isso, o Nika mia...
Deuses, eles não param! Já chamaram uma ambulância, caramba! Aliás, foi você mesmo quem chamou. No fundo, você sabe que não adianta ficar gritando, mas insiste. Todos vão morrer algum dia, oras... É, sangue, já entendi. Sim, horroroso. Carnificina pura! Cruel, né? As pessoas não percebem que cenas como essa acontecem sempre. Todo o dia. É rotina, já. Acontece que não é sempre que isso acontece aos pés delas... Com isso, se chocam. E é uma dose de realidade fortíssima. É como a fome e a pobreza: as pessoas só percebem que existe quando podem ver isso com os próprios olhos, sem que nenhum aparato de imagem possa mostrar. A idéia, todos temos. Sabemos que existe. Mas só se torna real quando mancha os nossos sapatos. A alienação se torna um escudo contra coisas naturais.
Será que o dono desse carro já atropelou outra pessoa? Será que é jovem, que é velho, que é amado? Será homem? Mulher? O que será que se passa pela mente dele? Pra onde será que ele estava indo? Será que havia alguém esperando por ele?
Talvez a vida tenha sim algum valor. Mas qual seria? Não sei se vou sentir falta de viver. Não sei se estou pronta pra morrer. Pode ser que as pessoas precisem ver uma cena dessas pra perceber que a vida acaba sim. A gente vive sem medo da morte, só pensamos nisso quando induzidos. É como se fosse uma realidade muito distante e, de certo modo, a gente não acredita que algum dia acontece de verdade. Acaba virando uma coisa de filme (aliás, a banalização da morte ficou tão... Banal. Em filmes violentos, pessoas caem mortas como gotas de chuva no chão. Quem mata não sente nada, quem morre... Bom, morreu), é como se a morte fosse comum: na verdade, ela é natural; a gente faz dela algo normal para poder conviver com o medo. Acaba virando realidade inexistente. Quando um parente morre, a gente chora pela perda e acaba se preocupando só com isso. Eu nunca havia pensado sobre qual seria o valor da vida. Já ouvi dizer que tem gente que descobre qual é quando quase-morre — que seria uma quase-morte, que seria quando a pessoa quase morre, mesmo — aí passa a viver de outro jeito... ‘Por uma vida melhor’.
Dói, dói. Dodói. Não. Não é um filme da minha vida.
Nika! Queria que o Nika estivesse aqui... Ele alcançaria a minha mão, pedindo carinho. Encostar-se-ia ao meu corpo para se aquecer e apoiaria a cabeça em cima das patas, que nem criança – ele sempre foi tão humano! Ele faria com que eu me sentisse mais segura. Poderia acontecer de a minha dor ser amenizada com isso. O barulho histérico de não sei quantas pessoas ao meu redor poderia sumir. Ele ronronaria, como de costume. Eu sorriria (ou imaginaria que estava sorrindo, ao menos).
Ele merece mais que isso... Ele merece as sardinhas dele. E alguém que possa cuidar dele. Alguém que não se preocupe em ser incomodado por ele pedindo carinho durante a noite ou em ter que dividir a cama com ele. Alguém que o alimente e o ame. Ele merece ser um gato da embalagem de ração. Eles estão sempre com cara de prazer! E aparentam ser bem cuidados... Será que são mesmo? Será que eles têm um dono que os ame? Eles aparentam ser tão amados... Será que o dono da Whiskas tem um gato? Deve ter... Mas será que ele é bem cuidado?


E eu só consigo pensar no maldito gato do dono da Whiskas...

36 graus

A televisão estava ligada, o barulho era impressionante, chegava até o seu quarto. Passava algum jogo maluco de futebol, de um campeonato árabe, ou qualquer estupidez do gênero. No quarto seus pais transavam, e seus gemidos eram parcialmente cobertos pela narração insuportável que era gritada pela televisão. "Puta que pariu", pensou, "não é possível que mesmo depois de tantos anos meu pai ainda mete na minha mãe desse jeito; e que merda de sexo alto eles tem, deve ter sido uma desgraça ter conhecido esses dois enquanto eles namoravam!".

Seus braços estavam cobertos de suor, e levantá-los parecia uma tarefa difícil naquele ar insuportavelmente úmido. Apesar de tudo, era como se o suor na realidade não saísse de seu corpo, mas estivesse fazendo o processo contrário, era o ar quente que entrava. Pensou em tomar um banho, mas sabia que o contato da água em seu corpo só ia piorar a situação do dia, e tinha certeza de que um banho enquanto os pais trepavam só ia piorar a sua necessidade.

Acendeu um cigarro e olhou para o termômetro: 36 graus. Impressionante, desde que mudara para aquele inferno os termômetros nunca fizeram menos de 36 graus. Grande bosta. Apesar disso, era como se a vida ali estivesse fadada a essa continuidade, era como se as coisas ali não desenvolvessem, ficassem presas como a temperatura, uma coisa imutável.

Porra, cinco, cinqüenta anos naquele buraco não iam fazer a diferença. E se tivesse que ouvir o velho metendo na sua mãe todo dia, como já fazia há não sei quanto tempo, ca-ra-lho, ele não sabia mais quanto tempo agüentaria. A única coisa que podia fazer a propósito era sair dali.

E o calor que nunca passava. O ar quente entrava pela sua pele, pelos seus olhos, pelos seus ouvidos, e expulsava toda a água de dentro dele, e ele não conseguia pensar, e ele ia inchando que nem uma merda de um balão, tomara que ele pelo menos voasse e fosse pro alto, pro céu lá pelo menos não é quente e os anjos não trepam fazendo barulho e mexendo com tudo dentro da minha cabeça caralho caralho eu preciso sair desse lugar puta que o pariu alguém me ajuda porra! Porque nessa merda dessa situação eu não posso mais ficar, porque eu preciso mudar, porque a minha vida é mais do que isso, porque isso é tudo uma merda.

E quebrou o termômetro. Quebrou sem pensar duas vezes, sabia que aquela merda toda estava vinculada ao termômetro, e se ele não fosse marcar menos de 36 graus por vontade própria, ia fazer com que marcasse.

Suavemente a janela do seu quarto é aberta, por uma doce brisa que vem rasgando aquele dragão de calor, invadindo os domínios daquele tirano árido e ardido que lhe dominava a vida e rasgava a carne. E apesar da brisa ser doce por natureza, podia também ser um vento forte, que dominava a tudo e a todos, se sobrepunha a todos os barulhos e acariciava seus ouvidos, purificando-o de toda a doença que lhe havia sido instilada pelo mundo, penetrando-o educadamente e tirando todo o ar quente de si, enchendo-o de uma delicada sensação de paz e liberdade. Por quanto tempo havia sido deixado sob grilhões?

Sentia-se livre, leve, límpido. E apesar de toda a felicidade que o invadia agora, conseguiu ser sensato o suficiente para se perguntar o que era aquilo realmente. Era aquilo liberdade ou era aquilo a vontade de se prender a alguma outra coisa? O que é que realmente tinha que fazer com aquilo? Como tinha conseguido aquilo tão subitamente? Enquanto se perguntava isso, percebia que no quarto contíguo os gemidos diminuíam e seus pais atingiam a paz após o sexo. Ou deveria ter sido assim, porque dessa vez o que ouviu foi seus pais saírem correndo da casa, em completo desespero. Sua liberdade tinha aprisionado seus pais. Era ele agora quem tinha o poder sobre os que por tanto tempo lhe dominaram, era ele agora quem tinha as facas na mão, prestes a furar aqueles que por tanto tempo o haviam torturado. Foda-se que eram seus pais, foda-se que eles haviam lhe dado a vida, eles também a tinham tirado quanto lhe trouxeram para esse buraco e lhe trancaram ali por tanto tempo. E agora já não existia mais homem, grilhão, calor ou vento, tudo era uma mesma massa amorfa e animal, selvagem, indomada, feita apenas de instintos e ódio, programada para matar; acompanhada de uma massa brilhante e racional, feita de bom senso e liberdade, pronta para fazer a vida melhorar. Tudo o que havia agora era um tirano feito de ferro e fogo, homens e cavalos, sonhos e esperanças, distorcidos e esticados para se moldarem ao desígnio de um menino torturado, cozido durante anos a 36 graus, vivendo junto com um protetor da vida, um homem moldado pelo conhecimento deixado por mil outros homens, aplicado perfeitamente ao mesmo menindo cozido durante anos a 36 graus. Estava tudo ali, ele só precisava escolher.



[Texto por Daniel Nunes & bispo]

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Duvidase

Cientistas norte-americanos dizem ter conseguido isolar a enzima duvidase, produzida por por vegetais da espécie Humus impossibilis, planta conhecida pelo poder calmante de suas folhas. Acreditava-se que essa enzima poderia ser a solução para vários problemas da sociedade moderna. A enzima isolada ainda não foi testada em seres humanos. Hipotéses levantadas pelos cientistas dizem que a enzima pode acelerar o processo de quebra de substâncias problemáticas ao corpo humano, mas que poderiam levar a perda de humor, graça e leveza. Testes preliminares indicaram que o efeito sobre seres humanos deve ser reduzido, dada a capacidade do corpo de defender-se de substâncias que poderiam afetar positivamente o sistema nervoso central.

O grupo de cientistas disse, em comunicado oficial à imprensa, que espera sinceramente que a enzima não tenha efeitos em humanos, visto que as dúvidas são parte da composição nervosa humana. Acrescenta-se, ainda que a enzima tenha efeitos positivos sobre os indivíduos, poderia destroçar os laços de convivência, dado o potencial de causar prepotência e arrogância.

A equipe recomendou que as pessoas não fiquem afoitas quanto à substância e continuem suas vidas devidamente equipadas de dúvidas e interesse para solucioná-las. Enfim, se o ser humano, como ser duvidoso que é, não consegue solucionar seus problemas através de mecanismos financeiros e diplomáticos complexos, porque conseguiria solucioná-los com uma injeção aminoácida de enzimas?

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Crônicas Carpe Diemnianas volume onze: Primavera


Nasceu prematuro, como se estivesse com pressa de vir ao mundo.

Aprendeu a falar, escrever e andar em tempo recorde. Quando tinha completado cinco anos já ia em sua bicicleta para todos os lugares.

Nunca deu problemas para seus pais: quando acordavam o café já estava pronto e a mesa posta, quando tinham que trabalhar até tarde chegavam em casa para encontrar um bilhete lhes desejando boa noite e o filho já na cama.

Era o aluno mais exemplar da escola. Nunca perdeu uma média, desrespeitou um professor ou se atrasou para uma aula. Tudo o que aprendia lembrava, e mesmo sabendo tanto ainda maravilhava os professores com seu interesse.

Durante seus estudos universitários - geniais, devemos também dizer -, era ídolo nacional e estampava a capa de todos os jornais. Não por seus estudos, mas por sua meia máscara estampada com imagens de seus ídolos.

Nunca conseguiu trabalhar, sua insaciável sede de conhecimento o levava ao redor do mundo em viagens nas quais entrava em contato não só com os maiores pensadores e mais importantes ativistas, mas também com todo o povo do país. Quando a estrada o chamava de volta podia ir aliviado vendo o que deixava para trás.

Conseguia, para cada um que o cativava, pintar uma tela ou escrever algumas linhas, sempre surpreendendo a todos com o quanto sabia fazer.

Em vários lugares deixou sua marca na arquitetura, conseguindo criar construções únicas em diversos pontos do globo, com tantas diferenças entre si que nenhuma pessoa sã arriscaria dizer que são do mesmo arquiteto.

Casou-se no meio de sua vida com a mulher mais incrível que já pisou sobre esta Terra, com quem teve o casamento mais feliz da história.

Em sua vida sedimentada, sua fotografia correu o mundo, e seus filmes são responsáveis pelo nascimento de muitos dos pensadores contemporâneos.

Teve o prazer de visitar vários dos governantes do mundo, que convidavam sua família para jantar, e também de ser visitado por todos os ativistas de então, que procuravam nele inspiração.

Morreu ontem enquanto dormia, e conseguiu revolucionar o mundo, as artes, a filosofia e a sociedade de seu tempo, tudo isto em seus sonhos.


[Foto por Daniel Nunes]

terça-feira, 16 de junho de 2009

Sobre o Túmulo de um Expressionista

A noite se contorce em um fulcro imaterial,
Condensa-se em si mesma, então se liquefaz,
E nos túmulos pétreos de silêncio sepulcral
Ponderava na etérea abstração que lua traz.

Ciprestes contorcidos de necrófilas raízes
Sussurravam suas mágoas no vento a zunir,
E as covas ali cavadas, na natureza, cicatrizes
Me lembravam de minh’última agonia a porvir.

E nas copas esquálidas acordavam as corujas
E os arbustos mortos com suas folhas sujas
Formavam uma natura decrépita e tísica.

Perdia-me no inexistente, impossível e paradoxal,
Reduzia-me ao absurdo da arché imemorial
E tragava com demência o saber da metafísica.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

"Cançoneta"

Olhos curiosos pela janela
Quem é ela, quem é ela?
Era um anjo, céus, tão bela!
O céu se punha a dormir
E os raios níveos do devir
Brilhavam no cabelo dela.

Uma aura forte de ariana
Uma sutileza tão italiana
Que tão somente ela emana.
Um trovão branco de ar tirânico,
Um retumbante mar germânico
No sol dourado da semana.

E nos olhos orvalhados teima
O anil incerto que ali reina
E adoça a vida, uma guloseima.
Carvalho russo de nevada copa,
Uma tez fria como a Europa
Que minh’alma de poeta queima.

Um sentimento, uma poesia lida
Uma mulher de lágrima contida,
Uma raça, uma glória esquecida.
Possa tu, que observo de relance
Deixar que minha mágoa descanse
E ensinar-me a amar a vida.

Vai, me leva para sempre...

Olha, garoto. Eu não sei se algum dia você vai ler isto, mas eu espero que te achem. Você não me conhece, não exatamente, então permita que me apresente: me chamo Marcelo, tenho 37 anos e sou - ou era - jornalista. Até a semana passada, trabalhava na Folha de São Paulo. Acontece que eu sofri um acidente, e sei que não vou resitir por muito tempo. Prefiro não te dar mais detalhes, não quero que você tenha uma lembrança tão triste de mim.
Você se lembra de quando tinha 7 ou 8 anos, e foi passar um fim de semana na casa da sua tia, no interior? Hoje, com o fim tão próximo, tenho uma visão mais clara da minha vida, e esse é um dos poucos momentos de que me arrependo.
Era um sábado, lá pelo final da manhã ou começo da tarde. Fazia frio, mas o céu estava bonito e até as nuvens pareciam radiantes, ou então era tudo felicidade minha porque as férias estavam chegando. Não importa... Nas palavras daquela época, eu diria que sua tia parou o carro do meu lado para mostrar o menino mais ou menos da minha idade com quem eu poderia brincar; você abriu a janela de trás, ficou em pé no banco e colocou a cabeça para fora, com um ar meio pensativo; eu era tímido demais pra falar qualquer coisa e vocês tinham me pegado de surpresa. Nas palavras de hoje, eu diria que fiquei com vergonha de ter sido visto ajudando o meu pai a consertar o poste de iluminação em frente à minha casa, e que me senti sujo e descabelado - como se eu não pudesse ser uma criança no final da manhã [ou começo da tarde] de sábado, pijama, dentes por escovar e brincadeira de fingir que pode consertar o poste. Pela primeira vez na vida, senti que eu deveria ser mais do que aquilo. Deveria ser algo de que você gostasse, e eu me parecia muito bobo pra isso.
Você me inquietou, guri, mas me deu esperança infinita com o seu olhar. Ainda não consegui entender exatamente o que ele transmite - algo de amplo, de forte, de plácido; algo de alegre - mas vez ou outra, sem muito esforço, vejo o seu rosto na minha frente, com a mesma intensidade.
Me arrependo de não ter falado contigo, Jorge. Sua tia me disse algumas palavras e o seu nome, então arrancou o carro e eu nunca mais te vi.
Já me conformei com o fato de ter que partir, e acho que vivi uma vida razoável. Não fiz nada que pudesse ser muito criticado, só uma ou outra escolha equivocada, mas acontece com todo mundo. E é até bom que aconteça, para que possamos aprender.
Só que... a minha vida inteira eu carreguei um nó na garganta, Jorge, e só agora que o laço que me prende à vida se afrouxou sobremaneira é que eu conheci as palavras de que esse nó é feito. Desde os 9 anos de idade, Jorge, um nó na garganta. Desde os 9, Jorge.
Eu te amo

domingo, 14 de junho de 2009

Ele

Também pudera Lhe fazerem tamanha sacanagem... Ele sempre fora o assentimental, o rude, o cara, a rocha. Lhe passaram para trás de um modo vergonhoso, doído como ser enrabado por um elefante, frio como ter o corpo enterrado no mais absoluto zero do nada, cruel como matar a própria mãe, desprezível como em cumprimentar um amigo e receber como réplica um chute na cabeça.

Ele que sempre fora tão correto, tão escrupuloso, ser esfaqueado por um menino com aparência de bonzinho e desejo de si mesmo! Um produto de sua própria estirpe, um bêbado por sua própria condução! Chega a ser irônico, o outro, o grande amigo, ganhando tudo que Ele sempre quis! Porra, a vida havia sido não de todo errada ao Lhe dar tanta pompa, tanta grandeza. Tudo o que Ele queria era não ter sido Ele por dois minutos, para poder testemunhar a sua queda. Seria como ver Ali cair frente a Foreman, como ver a Índia de Gandhi ser subordinada aos ingleses, como observar atentamente um casulo se abrindo, para testemunhar o nascimento de uma borboleta cujas asas não estão totalmente formadas e ascende lindamente ao chão, para nunca se erguer.

Também pudera, Ele sempre fora a rocha, o bastião, o pináculo, o condutor, o líder, o rei, o intocável... Chegava a ser engraçado...

O grande problema de se sacanear rochas, é que elas não perecem. O grande problema de se matar um intocável, é que ele não morre. O grande problema de se derrubar um prédio, é que o bastião permanece sempre de pé, o fogo do altar permanece sempre aceso. E nunca se apagará.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

O corpo

O sol continuava alto, iluminando o dia e esquentando os belos e esguios corpos estirados na grama. Mas para seu corpo cansado de andar, era como de fosse inverno. Era um corpo velho, surrado, cansado de apanhar. Um corpo maltratado, não amado, mastigado pelos incansáveis dentes das máquinas da fábrica. Há quarenta anos aquele corpo fazia todos os dias a mesma coisa; levantava, comia, andava, trabalhava, comia mais, trabalhava mais, comia mais ainda, trabalhava mais ainda, andava de novo, deitava e dormia. Por quarenta anos aquele corpo não conheceu nenhuma outra rotina. Martela, prega, serra, fura, gira, morde. Era um corpo velho, cansado, mas que não sabia fazer outra coisa.  Trabalhava porque devia, comia para poder trabalhar, andava para poder trabalhar, dormia para poder trabalhar, levantava para poder trabalhar. Mastigado e cuspido pelo inferno aquele corpo não parava nunca. Era uma máquina. A Máquina do Mundo.


Um dia uma engrenagem estragou na máquina. Primeiro ela funcionava ainda bem. Depois, começou a ficar devagar. Depois, funcionava só de vez em quando. Depois, quase nunca funcionava. Um dia  a máquina começou a funcionar sem direção, de modo fraco, indo sempre em frente, sempre em frente, em busca de algo que ouviu uma vez, e sempre quis saber o que era: um sonho...


E no dia após esse, foi encontrado no chão, em um lugar qualquer em uma cidade qualquer um corpo velho, alquebrado e duro, moído pelo tempo, com as mãos estendidas para a frente, como que buscando algo além do horizonte, além desse mundo e desse universo. 


Nesse mesmo dia nasceram mais milhões de corpos para substituir o que havia sido perdido.


[Por: bispo]

domingo, 7 de junho de 2009

Céu de outono

Aconteceu numa quinta feira à noite quando voltava do trabalho. Tinha sido um dia duro, o hospital ficara lotado a tarde toda devido a um acidente envolvendo um ônibus, e uma pista escorregadia. Tratou de algumas emergências, teve sucesso em algumas, mas nem tanto em outras. Comunicou a duas mulheres que seus maridos não voltariam em casa para o jantar, uma delas aparentava ter pouco mais de vinte anos e estava grávida. Realmente um dia duro.
Estava andando por uma das ruas na qual sempre passava durante o trajeto até sua casa, até que sentiu um leve toque em seu ombro esquerdo. Quando olhou para cima notou que estava em baixo de uma grande árvore, concluiu então que um galhozinho havia se soltado e o atingido. Nada demais. Era outono, e esta árvore, assim como a maioria das outras, estava praticamente sem folhas, de modo que era possível ver o céu entre seus ramos nus. Um céu bonito,sem nuvens e com algumas poucas estrelas, por algum motivo não era possível ver a lua, mas isso não importava.Estava lá, aquela escuridão sem fim, pontuada por pequenos pontos brancos brilhantes.
Ficou algum tempo parado observando fixamente aquele céu. Não conseguiu entender como ainda não o havia notado, era algo óbvio, claro como o leito de um lago raso. Talvez estivesse ocupado demais pensando nos homens que não pôde salvar, nas viúvas que não pôde consolar, na criança que não vai conhecer o pai. Nunca lembrava o nome, ou a causa da morte, muito menos lembrava-se de quando partiram, mas os rostos, os rostos daqueles que expiravam em suas mãos ficavam em sua mente e levavam semanas para serem esquecidos,se é que ele realmente os esquecia.
Mas agora só tinha olhos para aquele céu, estava tão absorto que não teria notado se alguém tivesse roubado sua carteira,ou suas calças. Seus pensamentos o levaram a sua juventude, época em que queria mudar o mundo, mudar as pessoas, época também em que optou por seu curso na faculdade. Queria fazer filosofia ou história, acreditava que conheceria pessoas que pensavam como ele. E provavelmente teria encontrado se não escolhesse por ser médico. O leitor pode imaginar que nosso protagonista tenha pensado em seu futuro salário ou sofrido pressão dos pais, mas ele apenas quis fazer algo que fosse importante para a sociedade,onde pudesse fazer a diferença. Não enxergando melhor maneira de realizar seu pequeno sonho, fez medicina.
De repente escutou um som às suas costas:
-O doto ta se sentindo bem?-perguntou um vendedor de doces, que observava curioso aquela cena atípica.
O som desta frase soou distante, quase inaudível, como quando estamos prestes a dormir, e o sono não chega. Nesse estado, onde não se está dormindo, nem se está acordado, nada ao nosso redor parece realmente existir, nem nós mesmos. Por isso só conseguiu distinguir a palavra doutor em meio a sua não existência. ´´Palavra importante essa não?´´Pensou. Houve um tempo em que ele orgulhava-se de ser chamado assim, era na época em que começou a dar seus primeiros diagnósticos. Bons tempos eram esses quando usava brincos, cabelos longos e andava sempre com a barba por fazer.
Virou a cabeça para trás, buscando olhar para aquele que o chamava. Era um homem magro e baixo, tinha um grande nariz, e olhos cansados, seus lábios finos ocultavam uma boca com poucos dentes. Sua camisa xadrez bem passada, e sua cara limpa concediam-lhe um certo ar de humildade e orgulho,que dá a pobreza alguma dignidade.
-Boa noite, senhor.
-Boa noite.-respondeu mansamente.-Quer comprar um doce?-disse em seguida. Nem notou as palavras saindo de sua boca,elas foram sozinhas.
-Quero sim,por favor.
Enquanto realizava a transação não conseguiu parar de pensar no quanto o vendedor lhe era familiar.
-Você sempre fica nessa rua?-Perguntou,procurando ser o mais delicado possível enquanto falava.
-Sim.-disse em voz baixa.-Todo dia,dotô.-acrescentou,timidamente. A humildade daquele sujeito chegava a incomodar.-Sempre vejo o sinhô passando, mais ou menos nesse mesmo horário. Geralmente o sinhô só atravessa a rua com a cabeça baixa e passos firmes, mas hoje o sinhô parou e ficou olhando um tempão para cima.
Olhou a sua volta, um rapaz franzino com fones no ouvido esperava o sinal abrir na calçada, uma mulher gorda e de dedos curtos acenava para um táxi, ao mesmo tempo que o açougueiro começava a fechar sua loja na esquina. Havia também varias outras pessoas, sem rostos, andando na calçada, quase sempre no mesmo ritmo. Todas compartilhando o mesmo destino, todas familiarmente desconhecidas.
-Aqui, seu troco.-disse enquanto levantava a mão cheia de moedas.
Tudo bem, pode ficar-Respondeu ohando naqueles olhos negros, e grandes.-Me diga, qual é o seu nome?
-Omar, dotô.
-Bem, Omar,obrigado pelo doce.-disse secamente. Desviou os olhos e voltou a olhar para aquele céu. Estava com um sentimento inexplicável,misto de resignação e vergonha.
-Eu que agradeço.-pela primeira vez esboçara um sorriso.-Volte sempre.
Chegando na porta de sua casa, também sorriu quando notou que ainda estava com o doce na mão. Sorriu um morno riso de cumplicidade, um pouco atrasado talvez, mas que teve seu valor. Sua mulher estava dormindo, e seus filhos haviam saído. Sentou-se na mesa da cozinha, e comeu o brigadeiro praticamente derretido. Tinha gosto de serragem, e grudou em seus dentes. Quando acabou foi para a sala e olhou o céu pela pequena janela. Depois, caminhou para o canto direito do cômodo, onde tinha um pequeno buraco oculto pelo sofá, e dentro do buraco uma pequena sacola com algumas fotografias. A maioria eram de sua época na faculdade, à exceção de uma, em que aparecia Marcela, sua primeira namorada, ela estava nua, e linda rindo para ele. Sentou-se no sofá e ficou a maior parte da noite olhando para seu pequeno segredo, depois levantou-se, guardou tudo no devido lugar e dirigiu-se para a cama. No dia seguinte acordou cedo e foi para o hospital, havia uma cirurgia marcada para as nove e meia, e outras duas no período da tarde. ``Vai ser um dia duro``, pensou enquanto marchava em direção ao trabalho.

sábado, 6 de junho de 2009

Crônicas Carpe Diemnianas volume dez: (des)enquadramentos


Morreu. Apesar de tudo o que passou antes, sua morte foi bastante indolor. Quem entrar naquele pequeno bar agora só conseguirá ver um corpo caído, sangue ao redor, consfusão estampada no rosto, olhar perdido.


Samuel Dalton acordava agora para o dia que mudaria completamente o curso de sua vida. Eram ainda cinco da manhã, e ele ainda não tinha inteiramente compreendido a importância do dia que começava agora.

Normalmente não precisaria acordar tão cedo, mas já tinha percebido que não conseguiria voltar a dormir, então pensou em surpreender sua mulher na hora que acordasse. Foi à padaria e comprou pães novos, que tinham acabado de sair do forno, fez café e pôs a mesa. Percebendo que ainda tinha alguns minutos, resolveu ler o jornal do dia. Nada de novo: as guerras ainda não tinham acabado, os políticos ainda roubavam descaradamente e… seu time tinha perdido… de novo.


Foi para casa mais cedo. Apesar de sua esposa já ter almoçado e de não o estar esperando até algumas horas mais tarde, não via ponto algum em ficar.

Ao chegar em casa, descobriu sua mulher afundada no sofá. Percebeu que ainda não tinha feito o almoço, e viu que ela ainda não tinha percebido sua presença em casa. Fixava um papel na mesa, apesar de que não prestava atenção a tal. Não conseguia ver o papel de onde estava, e achava estranho o comportamento dela. Eram casados a cinco anos já e ainda não a vira de tal maneira.

- Tudo bem? O que aconteceu?

Lágrimas vieram aos olhos. Percebeu que chorava também antes da sua chegada: os olhos estavam cheios e as bochechas marcadas. Cobriu o rosto com as mãos e tentou se recompor, mas os soluços insistiam em voltar e as lágrimas saíam contra sua vontade.

Pegou a folha onde lia-se “teste de gravidez: positivo”.

Achou que já tinha tido stress suficiente durante o dia, e aquilo simplesmente pegou-o de surpresa. Nunca tinham falado sobre ter filhos antes, sabiam bem que ainda não era a hora. As vidas dos dois já eram corridas demais sem uma criança para criar, e os salários mal os sustentavam até o final do mês. Aquela era, sem dúvidas, uma péssima hora para descobrir uma gravidez na casa.

- Quantos meses já?

- Cinco… não sei o que fazer… - estava quase chorando de novo.

- Bom, você sabe bem como as coisas vão aqui em casa… Acho melhor considerar abortar a criança. Não compensa ter um filho se não podemos criá-lo. - Samuel foi frio e realista, e já sentia o sangue subindo para sua cabeça. Já estava fora de si, e começava a se sentir sufocado pelas paredes do aposento. - Vou sair, mais tarde eu volto.

Depois de cruzar a porta ainda conseguia escutar os soluços e os gemidos, que se transformavam agora em berros.


Tomaram café juntos e sem pressa, coisa que não faziam desde sabe-se lá quando.

- O que foi? Já é a sua terceira xícara de café e eu consigo sentir o apartamento inteiro tremendo no ritmo do seu pé.

- Nada… Muito trabalho hoje, só isso. - Sabia que ela estava mentindo, mas a afirmação o fez lembrar de que também teria excesso de trabalho. Já fazia sete anos que era controlador de vôo, e durante todo esse período o número de vôos tinha quadruplicado, apesar de o pessoal ainda ser o mesmo. Isso sem falar na tensão que tinha se desenvolvido: os salários eram ínfimos se visto o registro de horas de trabalho.

- É… - foi tudo o que ele conseguiu falar.


Chegou ao aeroporto pontualmente, como de costume. Se tivesse assistido ao telejornal de manhã teria descoberto que ir trabalhar naquele dia não tinha sentido: seus colegas tinham entrado em greve aquela manhã. Não tinha o que fazer; nunca fora muito a favor de greves, e agora já se encontrava no meio da sua própria.

De seus colegas de trabalho escutava exclamações positivas de que ‘dessa vez tudo ficaria melhor’, ou simplesmente que ‘finalmente os dariam condições de trabalho decentes’. Ouviu de alguém que todos os aeroportos do país estavam fechados, e não conseguiu não pensar que logo mandariam o exército para colocá-los de volta na linha.

Não sabia o que fazer nem como se sentia: não sabia se ficava triste por não lutar por sua própria causa ou bravo pelo atraso de vida criado pelos companheiros. Chegou à conclusão de que o melhor a fazer era simplesmente ir para casa.


Sentava no bar e via as horas se arrastarem lentamente; ainda não tinha se acostumado com a idéia de ser pai. Ou tinha…

No momento em que deixara a casa se sentira mais leve. A caminhada até o bar o fez bem, foi renovado pelo ar novo. Mesmo assim, sabia que não deveria deixar aquela criança vir ao mundo.

Por outro lado, era seu filho. Quem sabe quais boas surpresas o pequeno viria a trazer?

O bar já tinha começado a ficar movimentado, apesar de Samuel ainda não o ter percebido.

Três homens repararam em seu uniforme e vieram até ele.

- Hoi! Que foi aquela palhaçada hoje?!

- Eu perdi uma reunião de negócios!

- E eu tive que atrazar minha lua-de-mel!

Os outros clientes do bar perceberam o que estava acontecendo, e logo todos os clientes do bar estavam querendo tirar satifasção do pobre homem, que ainda não tinha percebido o que acontecia: seus pensamentos eram mais altos.

- Hoi! Não vai prestar atenção não, é?! Estou falando com você! - O homem sacou uma arma. Pânico ao redor.

“É, se for homem então podemos chamá-lo Pedro, se for mulher…”


[Foto por: Daniel Nunes]