sábado, 20 de junho de 2009

36 graus

A televisão estava ligada, o barulho era impressionante, chegava até o seu quarto. Passava algum jogo maluco de futebol, de um campeonato árabe, ou qualquer estupidez do gênero. No quarto seus pais transavam, e seus gemidos eram parcialmente cobertos pela narração insuportável que era gritada pela televisão. "Puta que pariu", pensou, "não é possível que mesmo depois de tantos anos meu pai ainda mete na minha mãe desse jeito; e que merda de sexo alto eles tem, deve ter sido uma desgraça ter conhecido esses dois enquanto eles namoravam!".

Seus braços estavam cobertos de suor, e levantá-los parecia uma tarefa difícil naquele ar insuportavelmente úmido. Apesar de tudo, era como se o suor na realidade não saísse de seu corpo, mas estivesse fazendo o processo contrário, era o ar quente que entrava. Pensou em tomar um banho, mas sabia que o contato da água em seu corpo só ia piorar a situação do dia, e tinha certeza de que um banho enquanto os pais trepavam só ia piorar a sua necessidade.

Acendeu um cigarro e olhou para o termômetro: 36 graus. Impressionante, desde que mudara para aquele inferno os termômetros nunca fizeram menos de 36 graus. Grande bosta. Apesar disso, era como se a vida ali estivesse fadada a essa continuidade, era como se as coisas ali não desenvolvessem, ficassem presas como a temperatura, uma coisa imutável.

Porra, cinco, cinqüenta anos naquele buraco não iam fazer a diferença. E se tivesse que ouvir o velho metendo na sua mãe todo dia, como já fazia há não sei quanto tempo, ca-ra-lho, ele não sabia mais quanto tempo agüentaria. A única coisa que podia fazer a propósito era sair dali.

E o calor que nunca passava. O ar quente entrava pela sua pele, pelos seus olhos, pelos seus ouvidos, e expulsava toda a água de dentro dele, e ele não conseguia pensar, e ele ia inchando que nem uma merda de um balão, tomara que ele pelo menos voasse e fosse pro alto, pro céu lá pelo menos não é quente e os anjos não trepam fazendo barulho e mexendo com tudo dentro da minha cabeça caralho caralho eu preciso sair desse lugar puta que o pariu alguém me ajuda porra! Porque nessa merda dessa situação eu não posso mais ficar, porque eu preciso mudar, porque a minha vida é mais do que isso, porque isso é tudo uma merda.

E quebrou o termômetro. Quebrou sem pensar duas vezes, sabia que aquela merda toda estava vinculada ao termômetro, e se ele não fosse marcar menos de 36 graus por vontade própria, ia fazer com que marcasse.

Suavemente a janela do seu quarto é aberta, por uma doce brisa que vem rasgando aquele dragão de calor, invadindo os domínios daquele tirano árido e ardido que lhe dominava a vida e rasgava a carne. E apesar da brisa ser doce por natureza, podia também ser um vento forte, que dominava a tudo e a todos, se sobrepunha a todos os barulhos e acariciava seus ouvidos, purificando-o de toda a doença que lhe havia sido instilada pelo mundo, penetrando-o educadamente e tirando todo o ar quente de si, enchendo-o de uma delicada sensação de paz e liberdade. Por quanto tempo havia sido deixado sob grilhões?

Sentia-se livre, leve, límpido. E apesar de toda a felicidade que o invadia agora, conseguiu ser sensato o suficiente para se perguntar o que era aquilo realmente. Era aquilo liberdade ou era aquilo a vontade de se prender a alguma outra coisa? O que é que realmente tinha que fazer com aquilo? Como tinha conseguido aquilo tão subitamente? Enquanto se perguntava isso, percebia que no quarto contíguo os gemidos diminuíam e seus pais atingiam a paz após o sexo. Ou deveria ter sido assim, porque dessa vez o que ouviu foi seus pais saírem correndo da casa, em completo desespero. Sua liberdade tinha aprisionado seus pais. Era ele agora quem tinha o poder sobre os que por tanto tempo lhe dominaram, era ele agora quem tinha as facas na mão, prestes a furar aqueles que por tanto tempo o haviam torturado. Foda-se que eram seus pais, foda-se que eles haviam lhe dado a vida, eles também a tinham tirado quanto lhe trouxeram para esse buraco e lhe trancaram ali por tanto tempo. E agora já não existia mais homem, grilhão, calor ou vento, tudo era uma mesma massa amorfa e animal, selvagem, indomada, feita apenas de instintos e ódio, programada para matar; acompanhada de uma massa brilhante e racional, feita de bom senso e liberdade, pronta para fazer a vida melhorar. Tudo o que havia agora era um tirano feito de ferro e fogo, homens e cavalos, sonhos e esperanças, distorcidos e esticados para se moldarem ao desígnio de um menino torturado, cozido durante anos a 36 graus, vivendo junto com um protetor da vida, um homem moldado pelo conhecimento deixado por mil outros homens, aplicado perfeitamente ao mesmo menindo cozido durante anos a 36 graus. Estava tudo ali, ele só precisava escolher.



[Texto por Daniel Nunes & bispo]

3 comentários:

  1. foda.
    me lembrou um pouco, não muito, 'O Apanhador No Campo de Centeio'

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  2. Se essa coisa de escrita grupal virar moda, sugiro que vocês revisem o texto todo depois de dar cntrl C + cntrl V.

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  3. HAHAHA.
    Dá preguiça, e a idéia não era bem virar moda.

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