quinta-feira, 25 de junho de 2009

I Let Someone Else In


Tinha chovido o dia inteiro, e apesar de não chover agora, sabia que não demoraria até que a chuva voltasse.

Olhou para fora da janela e percebeu a neblina descendo e enchendo os vales verdes.

O mundo estava cheio de água agora, e isso o enchia de felicidade. Uma felicidade estranha, um sentimento não exatamente mundano.

Ainda que cheio, sentia-se vazio. ‘Um pedaço se perdeu’ era o que não deixava de pensar. A felicidade melancólica fez com que risse de sua própria desgraça. Não conseguia achar as chaves para poder voltar para casa, não conseguia achar o dinheiro para pagar o café... Não conseguia achar a metade que lhe faltava.

O que não tinha idéia era de que os acontecimentos no futuro próximo mudariam tudo isso: tudo começou de um jeito incomum, a garçonete que foi até ele e disse que outro cliente escrevera um bilhete, perguntava se poderia entregá-lo. 'Porque não?', pensou, sem saber que aquilo já era um passo em direção ao que até então abominava.

'Quer sair comigo? - Manuel.' era o que se lia no bilhete.

Achou desconcertante, ficou confuso e estressado ao mesmo tempo. 'Puta que o pariu! Não é porque freqüento este café que sou gay!' pensou, indignado.

Procurou pela caneta que sempre carregava com seu caderno e escreveu na parte de trás do convite:


'Caro Manuel,

Sinto por rejeitar o convite, mas você não faz o meu tipo.

Atenciosamente,

Carlos.'


Chamou a garçonete e pediu para que entregasse o guardanapo de volta ao tal do cliente e lá se foi a mulher. ‘Preciso achar um novo café pare freqüentar’.

A garçonete voltou com um espresso com chantilly e um novo bilhete. ‘Sem açúcar, como você gosta. Manuel’.

'Agora isso já é audácia demais!', levantou-se e já estava fazendo seu caminho para a porta quando volta a garçonete e diz:

- Mas já vai? Trago aqui a torta que o senhor pediu... de limão, não é essa que gosta? - e do lado o mesmo guardanapo, com a mesma escrita: 'O espresso sozinho não é tão bom quanto como acompanhado de torta, não? E de limão, como a sua mãe sempre preparava para você! - Manuel'

Isso já estava levando Carlos à loucura: de repente um cara qualquer não só estava dando em cima dele como o conhecia bem demais para ser um mero observador das suas idas ao café. Apesar de tudo resolveu ficar, aquela história maluca estava deixando-o curioso para saber quem era o tal Manuel, e o que ele queria realmente: se era só seu corpo ou algo mais.

Enquanto comia a torta e tomava o café (afinal, o tal do Manuel sabia mesmo o que estava fazendo), Carlos pensava em como agiria. Queria saber quem era Manuel. Escreveu em um guardanapo apenas um simples e grosso ‘Obrigado’. Chamou a garçonete e pediu para que ela entregasse, novamente, o bilhete ao cara. Enquanto ela caminhava em – o que parecia ser a – direção do admirador, Carlos observava as mesas ao redor do caminho da garçonete esperando poder olhar nos olhos do ousado homem. Suas esperanças foram jogadas por água abaixo quando a garçonete foi direto ao balcão e não à mesa. ‘Bom, ela é paga para ser garçonete, não pombo-correio’, pensou e voltou a se concentrar no café e na torta.


Meia hora se passara já desde o último bilhete e Carlos agora já tinha terminado a torta e o espresso. Estava começando a ficar inquieto, não sabia se deveria ir ou se a idéia melhor era ficar e ver o que ia acontecer ainda. Teve uma idéia: iria ao banheiro e esperava que Manuel o seguisse. Levantou-se e começou a rumar vagarosamente em direção aos banheiros, quando percebeu que um outro homem - também sentado a sós - se levantou e começou o mesmo trajeto. Tinha sua presa! Agora só precisava pensar em alguma coisa para poder dizer enquanto estavam no banheiro e poder finalmente desvendar o mistério.

Entrou no banheiro. Primeira dúvida: ‘mictório ou privada?’. Foi bem fácil lembrar que o mictório poderia abrir um leque para novas conversas, mas Carlos não queria ter um desconhecido – gay, ainda por cima! – olhando para seu instrumento. Não era uma boa idéia.

Correu para a cabine. O cara que levantou com ele deveria estar por chegar na porta do banheiro.


Som de porta abrindo.

Passos.

Som de porta fechando.

Som de calça abrindo.

Som de xixi na privada.


‘Ótima hora para começar a fazer minhas necessidades’.


- Aliviado? - perguntou Carlos.

- Ahn? Sim?

- Ah, muito obrigado!

- De nada, acho.

- Sério, você fez da minha tarde bem mais interessante, queria saber de onde veio tudo aquilo!

- De que diabos você está falando? - descarga e zíper fechando, era hora de sair de novo, ir lavar as mãos e o contato cara-a-cara.

- Ué, os bilhetes, a torta...

- Olha, você está me confundindo com outra pessoa... apesar de vir aqui bastante eu não sou desse tipo, entende? Nada contra, mas... eu prefiro outra coisa, sabe? - Deu uma palmadinha nos ombros de Carlos e ia saindo do banheiro enquanto ele falava:

- É, ah, devo ter te confundido. Ah, não, não... eu também não sou... - bom, era tarde demais já.


Voltou para a mesa, desolado. Olhou ao redor, buscando olhos que o acompanhassem. Nada. ‘Pô, justo agora que estava pensando em virar viado só pra poder descobrir quem é o Manuel que me conhece tão bem’. Olhou pela janela, com as gotas d’água escorrendo por causa da chuva e abriu um sorriso. ‘Aaaaah, chuva! Ótima hora para ir pra casa’, afinal, ainda tinha que achar as chaves e descobrir como faria para pagar o café que havia tomado antes do flerte todo começar. ‘Pô, se o cara gosta tanto de mim, bem que poderia pagar a minha conta, certo?’

Chamou a garçonete e pediu a conta. Quando ela veio, simplesmente colocou um gardanapo com as inscrições 'Manuel, por sua conta?' na bandeja e pediu para ela entregá-lo.

A garçonete começou a ir em direção ao balcão e de repente parou. Virou-se e voltou-se para ele:

- Olha, eu não posso pagar a sua conta, mas se quiser te dou outro espresso por conta da casa... meu turno termina daqui a quinze minutos e nós podemos ir para casa juntos, que tal?

Carlos estava completamente perdido, já era viado e a garçonete estava passando uma cantada nele agora. Ou estava perdido até o momento em que ela abriu um sorriso para ele. Naquele momento só tirou a carteira e falou:

- Então que tal mais um espresso? E pode ficar com o troco. A propósito, melhor se apressar se não a chuva vai parar!


[Texto por Daniel Nunes & Júlia Tessler, foto por Daniel Nunes]

Um comentário:

  1. Cara-querida Júht,
    Digno de ser incluído a todos "Café no centro"S...
    HOHOHO :)

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