sábado, 20 de junho de 2009

Mais vale a ignorância

Eu nunca pensei muito sobre como iria morrer. Na verdade, nunca dei muita bola pra isso. Digo... Pensava a respeito, mas não como se algum dia fosse acontecer comigo. Realidade distante, sabe? A Morte sempre me fascinou. Ler sobre a Morte sempre foi ótimo. Tantos bons filósofos e teorias tão...
Jamais me imaginei deitada como estou agora, no asfalto, sentindo essa porcaria de dor que não pára causada pelos pneus da porcaria do carro que está em cima de mim agora. Não, não consigo me mexer. Tampouco abrir os olhos ou falar. Será que não dá pra essas malditas pessoas calarem a boca e pararem de gritar ‘Meu Deus! Olha quanto sangue!’.
Sempre ouvi dizer que, quando estamos morrendo, vemos um filme rápido da nossa vida. Todos os momentos importantes e relevantes em poucos instantes. Mais um engano da sociedade. A mente se alonga. Penso em tudo e em nada. É como se fosse um vazio bem cheio. Como se eu percebesse, finalmente, o que significa ‘o paradoxo que é a vida’ e a resposta é nada. A vida não significa nada. No fim, termina tão subitamente quanto começou — se é que começou subitamente, porque pode ter sido planejado. A vida não vale nada.
E o tempo passa mais devagar, cada segundo parece ser vários minutos, só aumentando a porcaria da minha agonia: pessoas gritando, essa dor que não pára, a saudade do que deixo pra trás. Apesar da mistura de pensamentos, tudo converge para como raios eu nunca pensei que seria assim. Será que dá pra parar de gritar um pouco? Curiosidade: tão ruim para os gatos; tão boa para os cientistas. Humanidade desocupada, como sempre . Não, finais de tarde nem sempre são assim.
Ok, vejamos... Não vejo o filme da minha vida. Em compensação, tudo isso me soa tão... Não é nada como nos filmes que vi... Será que as pessoas vão sofrer muito com a minha morte? Não esse bando de desocupados... Refiro-me ao meu namorado, meus pais... Bom... Sei que, por hora, sentirão. Mas e daqui algum tempo? Odeio imaginar que minha mãe pode se destruir por causa disso... Ela finalmente conseguiu um emprego que goste! Mas perder sua única filha não deve ser fácil... Ainda assim... Parar a vida? Acho que seria muito cruel e egoísta da minha parte. Meu pai provavelmente se sentiria triste por algum tempo, naturalmente. Mas nós nunca fomos muito ligados... Isso pode causar um tipo de remorso nele. Pode ser como em um filme, onde os caras descobrem, depois da morte da mocinha, que jamais haviam conhecido a garota de verdade. Queria tê-lo conhecido melhor... Ambos sabem que eu sempre os amei, eu espero... Sempre tentei ser a melhor filha possível. Nunca quis deixá-los chateados de maneira qualquer... Espero que tenha sido tão boa quanto eles sempre quiseram que eu fosse. Espero que esqueçam os momentos ruins, como aquela vez em que cheguei bêbada em casa (se eles soubessem como eu me arrependo por isso!). Como eu os amo...!
O Léo... Amor único e sincero... Brigamos muito. Aliás, estamos brigados. Se eu pudesse dizer pra ele o quanto eu o amo e o quanto ele é importante pra mim! Ele mudou a minha vida... Não era só sobre sexo: era amor! Puro e como nunca havia sentido antes! Amor e prazer. Ou amor de prazer. Ou amor para prazer. Ou só amorprazer... Eu sabia que era recíproco. Que droga! Por que eu tinha que brigar com ele hoje de manhã?! Mais uma pessoa pra se sentir mal... Sei que, se fosse ele quem estivesse debaixo da roda do carro, eu odiaria pensar que a última vez que o vi foi em uma briga fútil. Espero que minha morte não o machuque muito... Espero — algo que jamais pensei em desejar — que ele encontre uma garota fantástica logo, assim ele pode seguir em frente. Espero que ele se lembre de mim como algo belo, pois isso é o que eu sempre tentei ser pra ele. Acho que não o amei como ele merecia... Tão adorável criatura!
Céus! Meus amigos! Ah, se eu pudesse simplesmente me apagar da memória deles! Aqueles mais próximos, que sempre estiveram presentes... O Marcelo, a Carina... Nós três éramos inseparáveis desde quando nos conhecemos! Quando foi mesmo? Acho que foi em uma festa da faculdade... Fizemos todos os tipos de besteira e não nos arrependemos. Quanta saudade... Ah, se eu pudesse simplesmente me apagar da mente dessas pessoas todas...
Deuses, meu gato! Quem será que vai cuidar dele?! Já sei que não poderá ficar na casa dos meus pais, pois meu pai não gosta de gatos... Nem na casa do Léo, que é alérgico. Sei que a Carina adoraria, mas ela já tem o Mojo, que não é muito amigável com outros felinos. Onde raios vão deixar o Nika? Se ele for parar em um abrigo para animais, alguém pode ter certeza de que acharei poderes para aparecer durante a noite para puxar calcanhares. Deuses, o Nika! Gatos não são como humanos, que sentem saudades. O Nika vai sentir minha falta por algum tempo, acredito... Mas seria momentâneo. Desde que haja alguém para abrir a porta de manhã cedinho só pra que ele tenha o prazer de sentir o cheiro do ar e depois voltar correndo pra dentro ou comprar sardinhas na feira todo o final de semana pra cozinhá-las do jeito que ele gosta, está tudo bem pra ele. Mas quem é que faria isso? Ouço há anos que mimo demais o Nika. Duvido que haja alguém que se dê ao trabalho de cuidar dele por mim...
Aliás, quem é que vai fazer a sardinha do Nika hoje? Ele já deve estar miando que nem um louco na porta. A chata daquela vizinha já deve ter ligado pra portaria (reclamar do barulho do Léo e eu transando enquanto o sobrinho dela está assistindo Cartoon Network ainda passa, mas reclamar do gato? Antes ela achava que era um cachorro... Pena que o Nika faz ‘Miaaaaau!’). O porteiro, por sua vez, já deve ter explicado pra ela que eu só saí pra ir até a feira e que não devo tardar. O que será que vai acontecer quando ele descobrir que não vou voltar pra casa? Aliás, como é que ele vai descobrir? Enquanto isso, o Nika mia...
Deuses, eles não param! Já chamaram uma ambulância, caramba! Aliás, foi você mesmo quem chamou. No fundo, você sabe que não adianta ficar gritando, mas insiste. Todos vão morrer algum dia, oras... É, sangue, já entendi. Sim, horroroso. Carnificina pura! Cruel, né? As pessoas não percebem que cenas como essa acontecem sempre. Todo o dia. É rotina, já. Acontece que não é sempre que isso acontece aos pés delas... Com isso, se chocam. E é uma dose de realidade fortíssima. É como a fome e a pobreza: as pessoas só percebem que existe quando podem ver isso com os próprios olhos, sem que nenhum aparato de imagem possa mostrar. A idéia, todos temos. Sabemos que existe. Mas só se torna real quando mancha os nossos sapatos. A alienação se torna um escudo contra coisas naturais.
Será que o dono desse carro já atropelou outra pessoa? Será que é jovem, que é velho, que é amado? Será homem? Mulher? O que será que se passa pela mente dele? Pra onde será que ele estava indo? Será que havia alguém esperando por ele?
Talvez a vida tenha sim algum valor. Mas qual seria? Não sei se vou sentir falta de viver. Não sei se estou pronta pra morrer. Pode ser que as pessoas precisem ver uma cena dessas pra perceber que a vida acaba sim. A gente vive sem medo da morte, só pensamos nisso quando induzidos. É como se fosse uma realidade muito distante e, de certo modo, a gente não acredita que algum dia acontece de verdade. Acaba virando uma coisa de filme (aliás, a banalização da morte ficou tão... Banal. Em filmes violentos, pessoas caem mortas como gotas de chuva no chão. Quem mata não sente nada, quem morre... Bom, morreu), é como se a morte fosse comum: na verdade, ela é natural; a gente faz dela algo normal para poder conviver com o medo. Acaba virando realidade inexistente. Quando um parente morre, a gente chora pela perda e acaba se preocupando só com isso. Eu nunca havia pensado sobre qual seria o valor da vida. Já ouvi dizer que tem gente que descobre qual é quando quase-morre — que seria uma quase-morte, que seria quando a pessoa quase morre, mesmo — aí passa a viver de outro jeito... ‘Por uma vida melhor’.
Dói, dói. Dodói. Não. Não é um filme da minha vida.
Nika! Queria que o Nika estivesse aqui... Ele alcançaria a minha mão, pedindo carinho. Encostar-se-ia ao meu corpo para se aquecer e apoiaria a cabeça em cima das patas, que nem criança – ele sempre foi tão humano! Ele faria com que eu me sentisse mais segura. Poderia acontecer de a minha dor ser amenizada com isso. O barulho histérico de não sei quantas pessoas ao meu redor poderia sumir. Ele ronronaria, como de costume. Eu sorriria (ou imaginaria que estava sorrindo, ao menos).
Ele merece mais que isso... Ele merece as sardinhas dele. E alguém que possa cuidar dele. Alguém que não se preocupe em ser incomodado por ele pedindo carinho durante a noite ou em ter que dividir a cama com ele. Alguém que o alimente e o ame. Ele merece ser um gato da embalagem de ração. Eles estão sempre com cara de prazer! E aparentam ser bem cuidados... Será que são mesmo? Será que eles têm um dono que os ame? Eles aparentam ser tão amados... Será que o dono da Whiskas tem um gato? Deve ter... Mas será que ele é bem cuidado?


E eu só consigo pensar no maldito gato do dono da Whiskas...

3 comentários:

  1. Belo produto final, Jú. Mudou tanto da última que você me mandou!

    ResponderExcluir
  2. Adorei a descrição dos pensamentos e a velocidade que uma idéia sobre a outra imprime ao texto. Só uma coisinha, nessa frase "Sei que, se fosse ele quem está debaixo da roda do carro" acho que a flexão do verbo é estivesse.

    ResponderExcluir
  3. Opa! Obrigada, Pedro! Não tenho a menor idéia de qual seria a forma correta (sou uma negação em gramática). Vou deixar com a sua forma.
    Mais uma vez, obrigada.

    ResponderExcluir