terça-feira, 30 de junho de 2009

Meus solenes transmutando em musgos

Hei-me enfastiado. Um sujeito decíduo, envergado, com vãos murchos entre os beiços decadentes de quem assobia canções inauditas. Um sujeito nascido enrugado, residente dos paços frondosos daqueles que ainda se querem ter com tez verdejante, tez ainda viçosa. Dizei, súditos meus, séquito impertinente, para que hei de vos ter? Para que me hei hierarquizado? Apoio-me completamente sobre mim, o báculo que possuo, tão retorcido quanto foram árvores a me produzir, tão pulverizado quanto foram os animais alimentícios a se dissipar. É vassalagem toda rejuvenescente, vassalagem polida tal os meus calçados lustrosos e deturpados, demasiado excessivos. Vassalagem não me sustenta, não obtenho apoio. Serviçais meus que poucas épocas cruzastes, rostos moços, ponde o monarca ancião sobre as meias de seda, dai-me o banquete, que hei de me suster. O monarca há de se suster por si, há no reino somente submissos e submissos serão gerados a cada nova reprodução. Não há novo, ó monarca senil, teu reino é só escombros, homem; e tu nem homem és, ó figura esquálida. Tens fissuras na face, mofino, e o que restas a ti é definhar cotidianamente. Rouquidão minha é coisa inaudível, de suspiro pedregoso, pois coleciono os bramidos de minha pessoal avalanche viscosa. Escorrei, foz de muco, escorrei até desintoxicar todo o vasto trono onde me hei assentado, até varrer de minha coroa pegajosa todo o pus infeccioso. O indivíduo consistindo no amálgama dérmico, o individual coexistindo coletivamente, e o rei que enceno sendo fruto dos tecidos dos tímpanos. “O que haveis ouvido, proclamai” e hei-me tomado por linho embebido em líquido amniótico, hei-me tomado como medula do que jamais haverei de governar. Apenas me hei exaurido, extraído da juventude recusada. Os subordinados sendo tenros em excesso, sendo meus membros, sendo quaisquer membros, sendo vitais ou dispensáveis e percorrendo os meus átrios soberbos, aqueles que hão de crepusculejar junto deles, aqueles átrios resplandecentes. Pena que me hei fatigado, eu, peça capital, regente que conduz, mas não deseja tal. Com que finalidade iria o restante me cultivar? Um cajado queixoso que ousa ranger além da permissão que tem. Não me deram permissão, tampouco estabeleceram limitações. Hei-me aqui, papiro a resmungar, relíquia mumificada e inutilizável. Concedo-vos alforria, concedo-vos o que for. Sede mutualidade, sede corpo, sede unidade, ó pilhas de moléculas pouco desgastadas! Sede a sede saciada das eras que não fui, e hei ficado.
As vezes em que meu sopro brevemente jazer, aqui este visitará imperceptivelmente e estender-se-á como duque sobre o divã. Ele será um testemunho pérfido, um escrivão herético, e disso não há de passar enquanto me hei contente. Não sede concisos, exceto quando o contrário não for praticável; tende a prolixidade como um dom sublime, todavia, não considerai a profusão tal dogma. O que veementemente almejo é que metaforizeis alegoricamente, em um pouso dúbio, porém plano, que decaia semelhante aos pêndulos das minhas cãs quando grandes vórtices de mim se aproximam. Súditos com menos de pares de décadas acumuladas, obedecei-me derradeiramente e movimentai-me – já que à locomoção não há trégua e esta deve perdurar. Tenho-me um todo incompleto, fragmentário, que se acumula, a se empilhar. Os beiços estão ambos dependurados sobre e sob o vão escuro que se abre imensamente, a bocejar, a comprovar o agastamento de minha soberania – e esta a ser enfadonha. O trono reclama como as articulações dele, como as minhas, mas os servos estão frequentemente dispostos a serem funcionais – a serem coisas que me compõem e que me higienizam, que higienizam o meu reinar. Algumas vezes poucas eles me advertem que sobre a minha calva acumulam-se quantidades consideráveis de poeira, de ociosidade; algumas vezes poucas eu os escuto – e, quando tal ocorre, dou-lhes meus ouvidos para que também possam ser higienizados e dou-lhes o cerúmen para que este sirva de alimento. Meus súditos não requerem quase nada de mim, alguns caprichos, alguma vaidades, e outras dádivas que lhes concedo e eles chamam de necessidades. Substâncias de forma geral servem para mantê-los próximo aos meus calçados, uns diminutos capachos deslizantes – que vezes me fazem ir ao solo, vezes de infortúnio. O cetim é algo terrivelmente escorregadio, terrivelmente lustroso, ofusca-me e deslumbra meu séquito – eis algo pernicioso. Eu sou todo ósseo e rarefeito, eles não, eles correm para muito distante, eles são todos cartilaginosos e densos, possuidores de vigor medonho que me consterna. Eles são linhas horizontais, paralelos entre si, e eu sequer passo de segmento. Contudo, abrigo heranças, tenho um cofre de ancestralidade, um baú multiplamente lacrado no qual eu me escondo. Lá é que reside minha coroa, ela é completamente plúmbea, e o pus que se acumula em redor absolutamente ebúrneo. São dois elementos que se misturam ao terceiro elemento intruso que sou. Quando me abrigo da jovialidade da criadagem, eles me acolhem com ingratidão, repudiam-me sem me deixar perceber. E eu me exausto de ser tão singular, tão individual, tão elemento intruso, e descanso. No meu descansar, ronco – e, assim, meus criados fazem música. Muitas vezes acredito que, em realidade, são eles que me fazem ressonar com tanto fragor, apenas para se certificarem de que não evaporei. Ao levantar, percebo que hibernei alguns pares de milênios, que minha fortaleza ganhou novos liquens e que não há mais nenhuma face conhecida entre os súditos, pelo contrário, vejo que há cada vez maior juventude, e maior juventude anônima e distante de meus calçados, longe de serem capachos – mas também longe de serem algo além de serviçais.
Uma varanda onividente cinge a fortaleza. Ela não é onividente, isso é um simbolismo, da mesma forma que os olhos que caminham sobre ela tampouco o são. O terraço tinha como campo de visão os meus domínios – no pretérito. Minha vista está estancada, estagnada na era de marfim. Minha vista é feita de visão e de flocos brancos – e isso é ainda mais intenso a cada nova hibernação. Vista de marfim, ou pus, que omite minhas ruínas. Elas estão lá, está tudo lá, porém tenho um véu que me cobre o cristalino, um véu de senilidade. Tenho as mãos vitimadas pela onicofagia e, entre suas rugas, há vestígios de tato, de um tato lento que se apoia vacilante sobre o parapeito e com o qual posso sentir os liquens, os fungos, os musgos. Esse tato rugoso cofia as cãs escassas que se cultivam em minha calva descoroada e para, desce até o veludo de minhas vestes - está ralo, veludo puído, de outros milênios, de eras recusadas – desce mais, até o mármore do parapeito, até as formas tênues de vida que ali habitam, e repousa. Hospedo progressivamente mais musgos, fungos e liquens à medida que meus servos aumentam. Cada vez os vejo menos, cada vez os sinto mais – e não os quero, não quero ninguém hospedado. “Saí de meus paços, frívolos, fugi!” – só que eles não se vão. Não me ouvem, esses levianos. Pensam que não faço mais do que grunhir, pensam que não formo diálogo, que não formo discurso. “Ouvi-me!” – e entendem como se eu estivesse a tossir. Estou em condições parceladas: o fastio degradável, desagradável, ocupa frações medonhas de meu dia e, de restante, há o vulto das vontades. Meu espaço é nulo. O que há de fato são meus deveres reais, de realeza. Realeza surreal, supra-real, ultra-real – uma outra condição, condição abastada, abstrata. Vagueza incondicional, mas compulsória. Vagueza de um trono varado, de coroa decapitada, da Coroa. Se já posso não reinar, ou se irei reinar em condições de indiferença, desejo minha guarda pessoal ajuntada derradeiramente, e que ela traga consigo todos os quadrúpedes montáveis que se abrigam nos meus paços. Os quadrúpedes montáveis existentes somente são aqueles de pescoços compridos, aqueles visionários que enxergam em lugar de minha vista esbranquiçada e baça, aqueles que veem longinquamente, que veem em campos remotos, e que são incoerentes augúrios. O maior capricho e prazer da senilidade, ou da senil idade, é o de poder montar girafas. Cavalgá-las frequentemente e nem se dar conta disso. Agarro-me àquele pescoço rijo e finjo que posso falar, agarro-me àquele lombo que se fricciona contra mim e finjo que posso me locomover – talvez eu até possa, mas não que eu lembre. Grandes girafas, imponentes, têm o poder de seus pescoços, e, por segundos, eu experimento essa sensação. Segundos ou minutos ou horas ou eras inteiras que podem ter sido sufocadas pelas neves das hibernações – não que eu me lembre. O que é mesmo relevante – ou talvez nem isso seja – é que posso cavalgar girafas e, com convicção, afirmar: “Estou montado em um visionário”.
Largo e longo bocejar – eis meu maior dom. Depois do centenário das eras, muito após o centenário das hibernações, aquilo tudo que era fragmentado e delgado em mim se agrupa em camadas adiposas deslizantes. Eu sou somente camada adiposa, ó juventude em meus territórios hospedada, aceita isso e me sirva mais do banquete à mesa, pois meus pés estão ficando inchados de ter de dar passadas. Eu deslizo de uma hibernação para a outra e para outra era e para outro baú da ancestralidade. Deslizo agora viscoso, limácida vagarosa, eis minha condição mais honrável. Divagar devagar, a única norma que sancionei em todo o meu reinado e também a única que outorguei aos meus criados; para o resto não tenho pressa. Nunca hei de me extinguir, pois moro em cada um que perto de mim mora e, cada outro que efetua êxodo, leva fatias de mim. Posso de todo me despedaçar, mas continuarei morando em cada um, eu e minha mucosa que me locomove. Eu não preciso governar, que esses todos façam os seus êxodos e construam seus próprios feudos – minha responsabilidade parasitária foi delegada. De sanguessuga me chamariam, mas o problema é que não sugo sangue, e tal catacrese não convém. Sou um molusco ubíquo, carregando o lar de todos sobre o meu báculo nodoso. São precisas comparações específicas a fim de justificar minha animalidade, metáforas breves. Ah, estivessem os nós empilhados só sobre o carvalho austero de minha medula... Por que devo eu ter dedos inchados, como se girinos flutuassem livres e natantes entre o ouro denso dos meus sinetes? Um sinete para cada dedo, e isso é suficiente, e isso é necessário? Não desejo identificar minhas correspondências: sou discreto, sou sigiloso. A velhice escorregadia muge sob a sujeira das minhas unhas finas, muge previsões a passar no pretérito. O estalar das vozes dos meus serviçais, aqueles que são um Quase ou um Talvez, estas vozes felpudas cochilam sobre as ovas de anfíbios. Pois não disse eu dos anfíbios? Disse das girafas, mas estes dois tipos de animais são figuras parecidas, com certas peculiaridades, porém irritantemente similares. Tenho idade debaixo da minha copa de arranhões de garganta (palavras quase termos), tenho idade o suficiente para não bem me lembrar das tais semelhanças entre as girafas de torres sobre o dorso e os anfíbios moles dos meus anéis. É, adquiri idades. Futilidades, vaidades, solenidades... Maldades não, das maldades eu tenho pavor. Sim, tenho um horror absurdo às maldades, um enrugamento cutâneo se apossa da região superciliar do meu resto, o buço se expande em uma batalha contra as estalactites do meu nariz. É curioso, porque maldade sempre me pareceu algo constantemente distante, de outros reinos, sem girafas, sem que ninguém pudesse visionar. Devo ter esmagado algumas maldades com meu calcanhar, não sei, elas não doeram tanto como doem os ouriços das minhas presunções. Eles sim, fios longos de rigidez, penetram sob as unhas, arrancam-nas, e coçam-me cortantes as dermatites. Ocorreu a mim só agora o meu aspecto repugnante. É provável que até eu o aprecie, e ainda o aprecie solenemente, por isso não me dou por mim. A repugnância deve ser-me atrativa, atraente... Basta de infecções sutis, maldades não cutucam chagas. Tempos chegam quando um rei deve mastigar seus minúsculos e irrelevantes musgos, fazer deles chá, degluti-los suave e perenemente na garganta. Tempo chegam, ou chegariam, se chegarem. Há probabilidades; sim, idades e prováveis idades.
É meio voluptuoso de minha parte, quando efetuo a punição física nas parcelas menores de mim, mas é apreciável. Não que eu fustigue os meus subalternos, só que por vezes acabo os exaurindo, quase os exaustando. A exaustão desses meus membros parece incrivelmente agradável, como a única maneira de exaltar a minha coroa à devida condição de fosca lucidez. Não sei se eles me encaram como sádico. Sou um velho leviano, não percebo muito além de um palmo da catarata de minha vista. As questões régias, os problemas que requerem disciplina, tudo isso é erudito demais para a pequenez de minha boa vontade, fazem as minhas articulações tilintarem. Ser velho não dói como muitos pensam, o que acontece é que um ancião se desgasta compadecido com os camundongos que limpam as manchas ao longo de suas coxas arrepiadas. Ser velho tem gosto de calcário, meu privativo o sabor helênico. Não vou falar do mármore das colunas, é previsível demais. Até porque sempre repudiei mármore, sendo adepto do breve granito. Entretanto, são questões de boa postura, um rei sem mármore é algo inadmissível. Ao ficar antigo e acumular idades, acabei percebendo que conduta é uma coisa de significância minuta. Porém mármore não é algo tão modificável quanto parece, e retirá-lo dos parapeitos e dos assoalhos das varandas me é custoso. Meu alento é mergulhar na terra desnuda que faz rodeios nos jardins, empestada por larvas amigas e anelídeos condescendentes. Lá eu colho os granitos dos meus caprichos, isolo os quartzos, que são tentativas falhas de projetos desvairados, e arranho as coisas que ficam em volta. Futuros insetos eu arranho, e eles fogem. Moscas em potência, vespas e libélulas que serão, tudo que é novo e fresco escapa de mim. Os anelídeos não, eles apreciam a minha aparência de varizes e estrume, e, portanto, se aninham junto às minhas dobras. É curiosamente abafado esse processo, e ainda bem mais aprazível do que as hibernações nos baús. Dar-me-ei a liberdade momentânea de efetuar uma comparação dispensável, que é a de supor que me empilhar no jardim é como entrar em uma urna, não em um baú nem em um vaso, mas só e unicamente em uma urna. Afirmo tal inadequação literária por causa de um episódio inconveniente que certa vez me ocorreu. Meus pajens, vós, se é que possuís a aptidão de depositar qualquer em vossas mentes gelatinosas, deveis estar cientes da dita ocasião. Um infortunado evento, em uma das vezes distantes nas quais recebi pessoas de idades equivalentes à minha em meus domínios. Veio a mim, então, um muito obsequioso senhor de modos contemporâneos, trejeitos afáveis e polidos, requisitar-me qualquer coisa ou oferecer-me serviços, algo que não posso reconvocar à minha memória no momento. Creio que ele oferecia companheirismo, e especulava sobre o assunto com ânimo e vigor, chegando mesmo a me oferecer algo completamente inusitado e encantador, pois ficava exaltado com intensidade e frequência - consultarei meus subalternos posteriormente para averiguar o que era. Francamente, acredito que ele me vendia a girafa que possuo, eu me lembro de fechar algum negócio, barganhar, trocar peças metálicas. Ao fim, tenho certo que supliquei ao homem que experimentasse a infusão das mais nobres plântulas que nasciam pelas frestas de minha edificação. Submisso e meão, aceitou sem qualquer relutância. No dia, eu carregava em mim doses grandes de orgulho e garbo, e pus-me a preparar a bebida com as mãos que levava nuas. Havia já um estoque das plântulas que, como idéias a brotar, estavam tão vedadas e empacotadas quanto poderiam ficar ao lado da chaleira. Notei que o material para o preparo havia, mas não o continente. Foi quando decidi usar a urna. Não demorou muito para que eu a retivesse entre minhas palmas desvendadas e me esgueirasse para dentro dela. Não hibernei, fixei-me à parede interna e me quedei sem repousar. Adquiri uma girafa sem pagar. O senhor homem saiu de meu estabelecimento satisfeito com a minha majestade, sabia com clareza incorruptível que eu, representante absoluto da vanguarda moral, adiantava a ele, com a exclusividade daquele momento breve, a conduta futura de minhas gerações: a esquiva. Foi um instante de tolice fulminante que o tomou, ignorando que não deixarei descendentes justamente pelo fato de que jamais serei um ancestral. Perdurarei além de todas as esculturas e mausoléus contemplativos. O hálito das chagas me carregará.
Correto, as chagas. Eis que chega, portanto, o momento o qual desejo nomear sublime, justamente por ser este o termo que aglutina tantas pretensões e calamidades quanto qualquer entusiasta poderia prontamente cobiçar. Pois sim, bem, calamidades, é exatamente este o instante. O hiperbólico segundo hiperdesenvolvido no qual as protagonistas serão vós, ó vós, minhas magnânimas chagas! Deleitosas pragas de mim. Que se desenvolva o procedimento, pois, com a paciência que me é peculiar, aguardar-vos-ei. Indagais-me vós se sois frutos dos meus vermes anelídeos, se é possível que eles me tenham carcomido as banhas a tal ponto desinteressante. Sois minha heranças, não percebeis, caras filhas enjeitadas? Sois o que deixarei para rondar o meu reino com outros rinocerontes e outros hipopótamos. Sois o que restará, o que será abundante. Por que motivo obscuro ainda me indagais vós sobre o que virá? Por que razão insensata ainda credes vós no poder transcendental das parasitoses? Mas atendei! Percebei, gentis hóspedes, se eu cair, vós expirareis! Não extraí mais nada da matéria de meu organismo, é isto o que vos rogo! Eu caio e vós sereis cessadas! Não haverá mais nada a vós depois, atende àquilo que possuís agora. O momento vosso, o momento de vossa herança é este. Vós restareis, sim, porém somente enquanto eu sobreviver. Vossa herança é antecipada, e para tanto me fiz um monumento. Não que eu tenha erguido algo em minha homenagem, pelo contrário, eu me tornei um monumento, fiz-me do meu respeitado granito. Podeis me contemplar agora, herdeiras ingratas! Ó úlceras corrosivas! Encaremo-nos, somos aristocratas frustrados. Faltou-nos algo, não soubemos usufruir bem dos frondosos paços. Adquiri tanta coisa antes de erguer um depósito, um armazém de recordações. Vede vós o que me tornei, e por desleixo; vós me dominastes. Minha debilidade foi tamanha que larguei certas frequências de mim ao relento. Relento que se tornou nevasca, geada sobre mim, e acumularam-se as cãs do oblívio sobre minha cabeça. Isso se faz pesar, pressiona-me. Ó feridas expostas de meus caprichos, cicatrizes imundas, estigmas que inspiram nojo, sabeis o que é não me lembrar de vossa imagem passada? Sabeis o que é ver fuligem do que fostes? Endereço-me à lareira, à grande obra do meu mármore profundo, e está lá. Lá, pretérito. Entre as marcas de meu punho, meus pulsos hirsutos contemplam cinzas. É isso o que posso ver! Cinzas são tudo o que podeis ter como lembrança daquele que herdou inevitavelmente a monarquia, mas que na aristocracia se embalou em pó, e de pó se fez. Foram as traças que me deixaram assim, com vós, chagas, úlceras, marcas asquerosas! As traças deixaram tudo o que eu sustentava roto! Tenho as ideias rotas! E é lá, onde já vos indiquei, na lareira, é lá onde preservo resquícios de preciosidades. As pratas oxidadas, as que não refletem mais, os cobres cobertos de azinhavre, aqueles aspirantes a esmeraldas, é disso que me nutro. Se sabeis o que é haver uma película que vos perfura, sabeis de mim. Essa crosta de material pouco nobre sobre os objetos é que me atormenta. Essas porções heterogêneas de impurezas me ocultam os artigos de primeira necessidade. Perco as lunetas em meio a tanta partícula desprezível, perco a visão junto com as lunetas, e ainda junto com elas perco também as imagens especulares, além daquelas espetaculares com as quais nem conto mais.
Hei-me então aturdido com a pequenez das obras domésticas. Apenas porque a criadagem não possui a capacidade devida para polir os metais do palácio, estou cá a me impacientar. Juventude, tenho ciência de vossa incapacidade, vossa fatuidade, vossa frivolidade, vossa volubilidade. Ó Juventude de pouca idade, inexperiente diriam os mais desdenhosos, Juventude de muitos cabelos. Sois um bando de frescor que me rodeia e vos desprezo solenemente. Corte minha desprovida de rugas, não me segui mais! Não salvo um metal sequer nos cofres, nem o mais baixo deles habita lá, até latão me renega. Corja depravada de amenidades, vossa honra é a de seduzir o espelho! Lamentai, não dou crédito algum a vossas vozes. Menosprezo vossa loquacidade, escarro sobre vossos argumentos. Falta-vos a erudição que apenas batalhas letais contra o firme braço do definhamento poderia vos fornecer. Que tenhais a sutileza de vossas faces espancada pelos dias e pelas insonolências até atingirdes o grau de deformidade que hoje possuo. Que engulais toneladas maciças de celulose rabiscada, até poderdes citar todos os teoremas já enunciados. No momento, contudo, o que vos peço não é de todo intricado, pelo contrário, efetuo uma requisição simplória. Por obséquio, deixai repousar as minhas pernas varicosas, elas já estão túmidas a ponto de incapacitar minha locomoção. Sede mais uma vez a poltrona longa sobre a qual eu me assento, caminhai pelos campos meus herdados, e levai-me finalmente aos outros reinos, levai-me para dialogar com os monarcas que não tenho contato, os soberanos que repudio. Levai-me a um sarau esta noite, embebei-me em vermute e me jogai às Fontes do Tempo, pois já me preparo para a próxima hibernação.

2 comentários:

  1. Ao personagem, repito freneticamente:
    "Ah! Possas tu dormir feto esquecido,
    Panteisticamente dissolvido
    Na noumenalidade do NÃO SER!"

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  2. "Ser inumano de estranha sorte,
    Ao encarar prematuramente a morte,
    De um nativivo não sofreu o ar."

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