domingo, 28 de junho de 2009

O inferno de André

-Será que eu morri? - Disse André enquanto olhava ao redor. Um leve riso de ironia escapou de dentro dele. ´´Que coisa mais boba para se dizer ``.
Encontrava-se em um campo aberto, coberto apenas por uma grama rasteira e algumas flores. O vento soprava levemente, na forma de uma quente brisa, e o ar estava impregnado por um não sei o quê de paz e tranqüilidade. Um riacho cortava a planície mais ao longe, e além dele era possível ver algumas formas estranhas, vultos disformes, o silêncio era absoluto. Nunca imaginou que existiria um lugar assim após a morte, na verdade, nunca imaginou que existiria algo após a morte.
Decidiu descobrir o que era, afinal de contas não fazia o menor sentido ficar parado num lugar daqueles, ´´Talvez seja um sonho``, pensou enquanto caminhava. Passado algum tempo chegou ao seu objetivo. Mas como não tinha relógios, compromissos, ou responsabilidades, sentiu que o próprio tempo não fazia sentido, de modo que seu pequeno passeio pode ter demorado um minuto, uma hora, um mês, ou mesmo uma eternidade.
O que parecia um pequeno riacho azul ao longe era, na verdade, um imenso rio transparente. Mas não tinha a menor correnteza, a água estava completamente parada, de modo que nem a brisa fazia efeito algum sobre toda aquela mansidão.´´Acho que dá pé``, pensou calmamente. Não sentiu nada quando entrou naquelas águas, elas pareciam escorrer na sua pele, como se seu corpo fosse impermeável.
Ao chegar à margem oposta se surpreendeu ao ver que as formas disformes eram escorregadores, gangorras, balanços e outros brinquedos. A última coisa que imaginaria encontrar era um playground. Quando se aproximou mais notou que alguém estava se preparando para brincar em um dos balanços.
-Olá. Aqui é o céu? – Perguntou, sem olhar diretamente para seu interlocutor.
-Não. Esse é o inferno.
-Como assim? Não parece ser o inferno.
-Mas é – Respondeu, enquanto tomava impulso para começar a balançar. Antes que André pudesse replicar o brinquedo tomou altura, e depois desceu. Subiu, desceu, subiu, desceu.
-Onde que fica o céu então? - Disse, elevando um pouco a voz para ser ouvido.
-É só subir ali. – Apontou para uma imensa escadaria, que serpenteava em direção às nuvens.
-Isso é tudo muito confuso. É mais provável que eu esteja sonhando mesmo.
-Não faz mal ficar confuso. Afinal de contas não tem nada para ser entendido aqui. Exatamente como um sonho.
Sobe, desce, sobe, desce.
-Esperava encontrar mais anjinhos com harpas, e coisas do gênero. Lá no céu tem disso?
-Não.
-Mas então, qual a diferença entre o céu e o inferno, afinal de contas?
-No céu tem algodão doce, oras. – Disse como se fosse a coisa mais lógica do mundo. -Você não vai brincar?
-Não, obrigado. – Olhou para aquela figura que balançava cada vez mais alto. -Você é Deus? – Perguntou, por instinto, já não assimilava mais o que acontecia ao seu redor, era como se tudo fizesse o mais completo sentido, mesmo sem ter sentido algum. A morte era algo impressionante, mesmo para André que passara sua vida toda duvidando e descrendo. Ao se deparar com o infinito, deixara o ceticismo que outrora o guiara em todas as situações.
Sobe, desce, sobe, desce.
-Sim. Estranho que para alguns seja necessário se deparar com a própria não existência para poder acreditar em algo que não podem entender. Não que eu me importe, isso é natural de vocês. Pensam, logo duvidam.
-O que você está fazendo no inferno?
-Vim só fazer uma visitinha ao diabo. Aproveitar para matar um pouco a eternidade. – Sorriu para André. – Caso esteja curioso, trata-se daquele ali, de cabelo vermelho, brincando na gangorra com São Pedro.
-Ah sim, lógico. – Respondeu ironicamente. -Bem, eu tenho uma pergunta, então.
-À vontade, afinal de contas tudo o que você fez desde que chegou foram perguntas. Mas, deixe-me adivinhar. Queres saber qual o sentido da vida? – Disse em tom bem humorado.
Antes mesmo que André consentisse com a cabeça, Deus continuou:
-A vida não tem o menor sentido, como a morte também não tem. Simples assim. Agora, junte-se a mim, está meio chato ter que conversar com alguém parado.
-Acho que no fundo eu já esperava essa resposta. Sempre pensei que, nós, homens, nascemos dentro de um poço escuro, e gelado, e desde o momento em que tomamos ciência de nós mesmos, passamos toda a nossa vida tentando subir esse poço, buscando alcançar a luz no topo, buscando um futuro melhor, mas nunca chegamos, sempre subimos, e subimos...
-Um dos problemas do futuro é que ele insiste em se tornar o presente, não é?
-...e subimos, mas nunca vemos a luz. Nunca alcançamos essa quimera de olhos negros, chamada liberdade. Sempre achei que você não existisse. Mas também achei que, se existisse, poderia me dar uma resposta satisfatória a tudo. - Chorava, as lagrimas escorriam lentamente por seu rosto inconformado.
Sobe, desce, sobe , desce, sobe, desce.
-Por que está preocupado com isso agora? Estás morto. Não é isso que procurou a sua vida toda? Olhe ao seu redor, este é um mundo justo, sem guerras, sem miséria, sem mistério. Não era isso que queria?
-Eu quero voltar.
-Voltar para seu poço? Para a angústia da vida?
-Sim...por favor.
-Mesmo sabendo que nada terá sentido? Que serão angústias após angústias? Mesmo sabendo que é praticamente impossível ser feliz?
-An ham, e se não for muito incômodo, gostaria de um lugar frio.
-Vocês se tornaram muito complicados, eu preferia quando estavam na idade média. Era tudo mais simples.
Quatro anos depois, um menino de cabelos castanhos, e olhos escuros segurava as correntes do maior balanço do parque. Sua mãe estava distraída conversando com uma amiga, e não notara que a criança a desobedecera. Sentou no pequeno assento de ferro enferrujado, e tomou impulso. Sobia, descia, sobia, descia. O balanço ia cada vez mais alto, Marcos sentiu que conseguiria voar. Sobe, desce, sobe, desce. Subiu, e largou as correntes. Voou 2 metros antes de dar de joelhos no asfalto quente, e quebrar a perna esquerda. A mãe desesperada, ouvindo o grito do menino, correu o mais depressa que pôde para socorre-lo. Enquanto isso, o balanço, que assistia a tudo impassível, continuou em sua inércia. Sobe, desce, sobe, desce.

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