sábado, 20 de junho de 2009

Um lugar para retornar

-Se divertiu hoje, meu neto?-Perguntou um senhor alto de barba branca, olhos azuis e cabelos escassos.
-Sim, vovô, obrigado. -Respondeu sorrindo.-Gostei principalmente das zebras.
-Que bom. Talvez um dia agente volte. -Disse, enquanto sorria de volta.-Vamos andando pegar um ônibus então, já está ficando tarde.
Esperaram-no por vinte minutos, e embarcaram lentamente junto com um homem moreno que vestia uma camisa florida e bermuda branca.
-Sete anos né Alex? Já está bem crescido. -Falou olhando nos grandes olhos do neto. Eram idênticos aos seus, um pouco menos experientes, mas idênticos. Olhos azuis como a inocência. –Lembra-se de quando eu tinha que te carregar para todos os lugares? Você vivia chorando por qualquer coisa, e nunca parava quieto. Igualzinho ao seu pai quando ele era da sua idade.
Alexander não respondeu, nem sorriu, nem nada, continuou olhando pela janela do veículo, que andava devagar por uma rua escura e íngreme. Estava com um ar estranho desde que entrou no ônibus, parecia que algo o incomodava.
-Você está se sentindo bem?-Perguntou preocupado. -Algo te aborreceu?
-Vovô, você sabe aonde estão meu pai e minha mãe? –Disse baixo e rapidamente, como que tirando um peso das próprias costas.
-Já te disse isso, meu bem, eles estão no céu junto com Deus.
-Sei disso, mas quando eu perguntei porquê eles foram para o céu você disse que eu era novo demais para entender. Mas agora eu já sou grande, você acabou de dizer isso não foi?
Respirou fundo antes de responder, olhou pela janela. Era possível ver algumas gotas escorrendo pelo vidro embaçado, começara a chover.
-Acho que já é hora de te contar mesmo. Você não deve se lembrar, mas apesar de ter vivido sua vida toda aqui você nasceu em outro país.
-Disso eu sei, nós viemos da Rússia né?
-Bem, não exatamente. Nossa família vem de uma cidade chamada Argun na Chechênia.
-Então não somos russos?
-Mais ou menos, a chechênia não é realmente um país, mas quem nasce por lá não se considera russo, apesar da região pertencer à Rússia. È um lugar difícil para se viver, cheio de problemas e muita violência. Na década de 90 nós nos envolvemos em várias guerras, buscando independência. Seus pais morreram em uma delas, devido a um tiroteio entre o exército russo e os rebeldes chechenos. Dia oito de março de 1992, exatos oito meses depois de seu nascimento. Depois disso eu passei a cuidar de você como se fosse meu filho.
Notou a perturbação no rosto daquela criança, e parou por ali. Talvez tenha sido cedo demais. Passaram o resto do trajeto em silêncio. A chuva soava melancolicamente, naquele silêncio cortante, interrompido apenas por alguns trovões. Como o som de um tambor em meio a um solo de gaita.
Chegaram em casa, e pararam em frente a porta.
-Vovô...
-Diga Alex.
-Um dia agente vai voltar?
-Claro, meu bem, ano que vem iremos ao zoológico novamente.
-Não. Um dia voltaremos para nossa terra? –Disse quase gritando. A chuva caia cada vez mais forte.
-Não sei, lá ainda é um lugar com muitos problemas, muita violência, muita crueldade.
-Mas, e se um dia lá ficar tudo bem? Se não tiverem mais guerras? Quando isso acontecer nós poderemos voltar né? Quero conhecer meu país. –Disse, com um riso de esperança, e os olhos cheios de lágrimas.
Não soube o que responder para aquela criança, seus olhos também começavam a se encher de lágrimas, que se confundiam com a água da chuva. Naquela semana vira na televisão sobre dois atentados em Moscou, sobre o recomeço das ações militares na região, sobre homens bombas, sobre mortes, sobre dor, sobre órfãos.Sobre a impossibilidade de paz.
-Com certeza, um dia voltaremos Alex, eu garanto. Voltaremos e encontraremos um lugar onde possamos chamar de lar. –Disse com um quente sorriso.
Limparam os pés no tapete da entrada e entraram em casa. Antes de trancar a porta olhou para o céu. Estava totalmente negro e coberto por nuvens, nenhuma estrela à vista, nenhum ponto de luz em meio a toda aquela escuridão.´´Tirar o riso do rosto de uma criança é o pior crime que alguém pode cometer´´. Disse, como que pedindo desculpas. Girou a maçaneta e subiu as escadas, em direção ao quarto de Alex. Queria desejar-lhe boa noite antes de ir dormir.

Um comentário:

  1. Muito bonito o conto cara, bem escrito também, curti bastante. Fiquei com um puta dó do menino, isso não é normal em mim hehe. Parabéns!

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