sexta-feira, 31 de julho de 2009

onipresença

Fui morar no mato
pra fugir da civilização
Mas a civilização me encontrou:
logo pela manhã, um rato

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Insistente insatisfação


Lá estava eu sentada em uma mesa de um restaurante num bairro boêmio num país que não fala a minha língua e sim algo muito parecido - e muito irritante. Numa mesa próxima, uma família sentou-se. Eram um homem, uma mulher, um menino e uma menina muito pequena, tipo uns 4 anos. A família fez o que uma família normal faz quando recebe um cardápio ao entrar em um restaurante: escolhe o quê comer.
Depois de ter escolhido - a muito custo pois ficou brigando com os pais dizendo algo que creio que deveria significar 'nada aqui me agrada' - qual seria o seu jantar nessa noite excepcionalmente gelada em Buenos Aires, a garotinha notou que eu estava a observa-los. Eu sorri. Ela não respondeu ao meu sorriso como eu esperava, mas não desviou o olhar. Eu insiti no sorriso - crianças sorrindo me dão esperança, me mostram que algo pode ser bom. Ela insistiu em não sorrir.
Desisti e voltei a conversar com meu pai e minhas irmãs, meus acompanhantes nessa viagem à terra onde a frase que mais digo é 'por favor, hable mas despacio' - ah, como odeio espanhol!.
Nossas porções argentinas (gigantes) de comida chegaram e eu arrisquei olhar mais uma vez para a mesa ao lado, em buscada garota. Agora ela estava comendo um pedaço de pão, concentrada.
O pai fez cócegas nela, ela continuou imóvel e pediu para ele parar. Putz, sem rir?!
Ela me pegou no flagrante, observando-a novamente enquanto eu comia. Sorri novamente. Ela insistia no seu olhar amorfo.

A criança reclama e não sorri. A minha noite no restaurante estava me levando ao descontentamento de uma satisfação não realizada. Será que é tão difícil sorrir para alguns, ainda que seja à toa?

(perdão pelo texto descontextualizado no blog, mas precisava divulgar isso de alguma maneira).

Foto por: Júlia Tessler

quarta-feira, 15 de julho de 2009

"Nos ditirambos musicais de minha folia"

Nos ditirambos musicais de minha folia

Lia obscuros aforismos na demência

De quem tomba nos pilares da filologia

Que erguem e fundamentam a eloqüência.


Numerava as palavras de um verso

E pranteava a decadência intelectual

Que volteia nas cismas do universo

E embebeda toda a história da moral.


Em minha mente a voz de Nietzsche canta,

E repetia a mim mesmo, como um mantra,

Tal elevação que só Heidegger alcançou:


Nos movimentos circulares de todo ente

Quero vir a ser, eternamente,

O devir aristocrático que hoje sou.


domingo, 12 de julho de 2009

Visão Primaveril

Eram 15:20 e andava pelas ruas de Reykjavík, caminhava pela njarðargata olhando para o chão e para o relógio, ainda tinha mais meia hora de luz do dia e não sabia o que fazer com ela. Era uma tarde de primavera agradável na costa islandesa, e as tardes agradáveis da Islândia podem conquistar o coração de qualquer um, as crianças brincam sorridentes pelas ruas e o sol ilumina os telhados coloridos das casas, que parecem retribuir os sorrisos dos transeuntes. Os homens pareciam inclinar-se para a felicidade e a natureza parecia inclinar-se para o descanso dos homens, somente eu vagava aflito, não sabendo o que fazer com o meu resquício de luz solar e temendo desperdiçá-lo. Parei e olhei ao redor: estava no meio do nada, alcançara aquele pedacinho vazio no meio de Reykjavík, onde o único som que se poderia ouvir era o de um avião em sua rota de aterrissagem ou decolagem, trazendo visitantes incertos e levando embora visitantes apaixonados. Despedir-se da Islândia em uma tarde como aquela era cruel, quase inumano. Inclinei-me sobre os joelhos e olhei o relógio novamente: 15:28. Os raios de sol pareciam escorregar pela minha mão e a sensação de impotência era enorme, pois não tinha como segurá-los. Decidi correr.
Corri para atravessar todo aquele vazio, aquele buraco no meio da cidade marcado por chegadas e partidas, marcado pelos horários e pela rigidez do tempo, este mesmo tempo intransigente que me fazia correr como um louco pela rua. Alcancei por fim a esquina com fjólugata e parei de correr para retomar o fôlego, olhei para o relógio e amaldiçoei a mim mesmo: 15:36. Olhei para frente e senti a brisa desarrumar o meu cabelo, era uma brisa salubre, cheia de vida, primaveril. Era uma brisa, porém, que me alertava que o anoitecer estava próximo, pois era à noite que esta brisa ganhava força, soprava com vontade, castigando os telhados e os transeuntes, desarrumando cabelos, e levando os fios loiros dos islandeses para o gélido mar do norte. Devo apressar-me.
Njarðargata se empunha a mim como um monte a um alpinista, eu estava na altura mais agradável da rua, a mais habitada e cheia de vida. O relógio em meu pulso, porém, continuava a assombrar-me com sua tirania, e me lembrava que dali à uma hora toda a vida retirar-se-ia para dentro das casas, e eu seria o único alvo do vento na noite escura. Como um alpinista que vê o cume próximo de si e recobra as forças e a coragem em sua ânsia de triunfo sobre o monte, assim eu recobrara minhas forças e avançava, agora de cabeça erguida, sobre a rua crepuscular das 15:40 da tarde. As casas passavam como borrões bi-coloridos pelo canto dos meus olhos, cada vez mais opacas, lembrando-me da escuridão iminente, enquanto o vento fazia-me lacrimejar, lembrando-me do frio iminente. Os minutos passavam e eu ficava cada vez mais cansado, as mãos cada vez mais soadas e escorregadias, e os raios solares deslizavam pelos meus dedos.
Chegara ao cume da njarðargata, “hurra!”, queria gritar, mas não senti o ânimo para fazê-lo. A escalada não me satisfizera e toda a força recobrada jazia ainda insaciada dentro do meu peito, pulsante. Minha jornada não acabara, ainda retinha um pouco de luz do dia comigo. Virei a eíriksgata, andei cem metros e parei, petrificado.

15:50

Encarei Leif Ericcson, marmóreo, que contemplava o horizonte. Quais terras, qual desconhecido, qual mistério contemplava este desbravador? Jamais saberei, era incapaz de girar o meu olhar para contemplar o mesmo horizonte, a mesma glória, que ele contemplava diante de mim. Sua imagem ficou embaçada, e foquei a Hallgrímskirka que se erguia majestosa sobre suas costas. O que é isto? Este tremor, esta ânsia que sinto, sinto que não sou capaz de me manter erguido por muito mais tempo. Não, era impossível, a catedral se erguia mais elevada do que eu.
Não era noite, mas a escuridão se mixava às nuvens sobre a catedral, e o céu era tingido do azul celeste mais caótico que as mãos misteriosas do demiurgo eram capazes de tingir. O secular se misturava com a eternidade, o particular com o uno-primordial e minha alma que se ajoelhava comigo parecia ao mesmo tempo elevar-se e seguir a rota parabólica do domo que se impunha diante de meus olhos. Sentia-me desmaiar de frenesi estético extra-sensorial, sentia ao mesmo tempo um vazio silencioso e o rugido dos versos de Steinn Steinarr rasgando as nuvens no firmamento. Tremia em convulsões frenéticas contemplando a arquitetura idealística, perfeita, fundamentada sobre o equilíbrio aristocrático dos contrafortes ocultos da igreja de eíriksgata.
O relógio de Hallgrímskirka marcou 15:51. O Perlan brilhava e a mobilidade e o tempo voltaram a rugir sobre Reykjavík, mas os versos de Steinarr ainda ecoavam por todos os lados:

“Tíminn er eins og vatnið,
og vatnið er kalt og djúpt
eins og vitund mín sjálfs.

Og tíminn er eins og mynd,
sem er máluð af vatninu
og mér til hálfs.

Og tíminn og vatnið
renna veglaust til þurrðar
inn í vitund mín sjálfs.”*




*Time is like the water,

and the water is cold and deep
like my own consciousness.

And time is like a picture,
which is painted of water,
half of it by me.

And time and the water
flow trackless to extinction
into my own consciousness.
(Tradução de Marshall Brement)

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Equação problema

Seja x = eu + você, tal que
x² - 2x + 3 = 0
Não há solução real,
Não há solução real,
Buscaríamos a solução complexa?

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Poema Brasileiro (Versão Liberal)

No Brasil de cada 10 empresas que nascem
7 morrem antes de completar 5 anos de idade
No Brasil
de cada 10 empresas que nascem
7 morrem antes de completar 5 anos de idade
No Brasil
de cada 10 empresas
que nascem
7 morrem
antes
de completar
5 anos de idade
antes de completar 5 anos de idade
antes de completar 5 anos de idade
antes de completar 5 anos de idade
antes de completar 5 anos de idade