quinta-feira, 30 de julho de 2009

Insistente insatisfação


Lá estava eu sentada em uma mesa de um restaurante num bairro boêmio num país que não fala a minha língua e sim algo muito parecido - e muito irritante. Numa mesa próxima, uma família sentou-se. Eram um homem, uma mulher, um menino e uma menina muito pequena, tipo uns 4 anos. A família fez o que uma família normal faz quando recebe um cardápio ao entrar em um restaurante: escolhe o quê comer.
Depois de ter escolhido - a muito custo pois ficou brigando com os pais dizendo algo que creio que deveria significar 'nada aqui me agrada' - qual seria o seu jantar nessa noite excepcionalmente gelada em Buenos Aires, a garotinha notou que eu estava a observa-los. Eu sorri. Ela não respondeu ao meu sorriso como eu esperava, mas não desviou o olhar. Eu insiti no sorriso - crianças sorrindo me dão esperança, me mostram que algo pode ser bom. Ela insistiu em não sorrir.
Desisti e voltei a conversar com meu pai e minhas irmãs, meus acompanhantes nessa viagem à terra onde a frase que mais digo é 'por favor, hable mas despacio' - ah, como odeio espanhol!.
Nossas porções argentinas (gigantes) de comida chegaram e eu arrisquei olhar mais uma vez para a mesa ao lado, em buscada garota. Agora ela estava comendo um pedaço de pão, concentrada.
O pai fez cócegas nela, ela continuou imóvel e pediu para ele parar. Putz, sem rir?!
Ela me pegou no flagrante, observando-a novamente enquanto eu comia. Sorri novamente. Ela insistia no seu olhar amorfo.

A criança reclama e não sorri. A minha noite no restaurante estava me levando ao descontentamento de uma satisfação não realizada. Será que é tão difícil sorrir para alguns, ainda que seja à toa?

(perdão pelo texto descontextualizado no blog, mas precisava divulgar isso de alguma maneira).

Foto por: Júlia Tessler

5 comentários:

  1. É um fato estranho, mas eu também já me deparei com crianças que não esboçavam nenhum tipo de sorriso. Não sei se era de verdade ou se era de zombaria (já que muitas vezes as crianças zombam mais de nós do que nós delas), mas já vi isso duas vezes eu acho. É uma pena, já que as crianças são as únicas que conseguem rir da vida com tamanha naturalidade, enquanto nós temos que nos esforçar para isso. Aliás, para mim a principal característica da infância é essa: poder facilmente rir da vida e excercer constantemente este poder.
    Quanto ao texto em si, não possui um grande valor literário, mas ainda assim é literáriamente muito "útil". Quem sabe não serve de inspiração para o seu próximo conto?
    Abraços, Guilherme Ev.

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  2. Engraçado isso. Aconteceu exatamente o contrário comigo há alguns dias atrás. Estava sentado na grama assistindo a um show, e uma criança veio, parou na minha frente, olhou para meu rosto, e saiu andando. Depois voltou correndo, olhou novamente, e voltou a correr. Na terceira vez, ela olhou para mim, abriu um sorriso, e foi embora. Nem tive tempo de retribuir seu pequeno gesto, mas fiquei bastante alegre.

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  3. o riso da infância é o mais doce e sincero por ser quase sempre despropositado. é uma delícia!
    nunca me deparei com uma criança que persistisse na seriedade (isso é coisa de adultos, ora essa!)
    só espero nunca ter que conhecer gorotinhas como essa, tão precoces em sua entrada no mundo dos grandes.
    Beijos, Ju Prado.

    ps. continue a sorrir! quem sabe uma hora ela não desiste de sua carranca?

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