domingo, 12 de julho de 2009

Visão Primaveril

Eram 15:20 e andava pelas ruas de Reykjavík, caminhava pela njarðargata olhando para o chão e para o relógio, ainda tinha mais meia hora de luz do dia e não sabia o que fazer com ela. Era uma tarde de primavera agradável na costa islandesa, e as tardes agradáveis da Islândia podem conquistar o coração de qualquer um, as crianças brincam sorridentes pelas ruas e o sol ilumina os telhados coloridos das casas, que parecem retribuir os sorrisos dos transeuntes. Os homens pareciam inclinar-se para a felicidade e a natureza parecia inclinar-se para o descanso dos homens, somente eu vagava aflito, não sabendo o que fazer com o meu resquício de luz solar e temendo desperdiçá-lo. Parei e olhei ao redor: estava no meio do nada, alcançara aquele pedacinho vazio no meio de Reykjavík, onde o único som que se poderia ouvir era o de um avião em sua rota de aterrissagem ou decolagem, trazendo visitantes incertos e levando embora visitantes apaixonados. Despedir-se da Islândia em uma tarde como aquela era cruel, quase inumano. Inclinei-me sobre os joelhos e olhei o relógio novamente: 15:28. Os raios de sol pareciam escorregar pela minha mão e a sensação de impotência era enorme, pois não tinha como segurá-los. Decidi correr.
Corri para atravessar todo aquele vazio, aquele buraco no meio da cidade marcado por chegadas e partidas, marcado pelos horários e pela rigidez do tempo, este mesmo tempo intransigente que me fazia correr como um louco pela rua. Alcancei por fim a esquina com fjólugata e parei de correr para retomar o fôlego, olhei para o relógio e amaldiçoei a mim mesmo: 15:36. Olhei para frente e senti a brisa desarrumar o meu cabelo, era uma brisa salubre, cheia de vida, primaveril. Era uma brisa, porém, que me alertava que o anoitecer estava próximo, pois era à noite que esta brisa ganhava força, soprava com vontade, castigando os telhados e os transeuntes, desarrumando cabelos, e levando os fios loiros dos islandeses para o gélido mar do norte. Devo apressar-me.
Njarðargata se empunha a mim como um monte a um alpinista, eu estava na altura mais agradável da rua, a mais habitada e cheia de vida. O relógio em meu pulso, porém, continuava a assombrar-me com sua tirania, e me lembrava que dali à uma hora toda a vida retirar-se-ia para dentro das casas, e eu seria o único alvo do vento na noite escura. Como um alpinista que vê o cume próximo de si e recobra as forças e a coragem em sua ânsia de triunfo sobre o monte, assim eu recobrara minhas forças e avançava, agora de cabeça erguida, sobre a rua crepuscular das 15:40 da tarde. As casas passavam como borrões bi-coloridos pelo canto dos meus olhos, cada vez mais opacas, lembrando-me da escuridão iminente, enquanto o vento fazia-me lacrimejar, lembrando-me do frio iminente. Os minutos passavam e eu ficava cada vez mais cansado, as mãos cada vez mais soadas e escorregadias, e os raios solares deslizavam pelos meus dedos.
Chegara ao cume da njarðargata, “hurra!”, queria gritar, mas não senti o ânimo para fazê-lo. A escalada não me satisfizera e toda a força recobrada jazia ainda insaciada dentro do meu peito, pulsante. Minha jornada não acabara, ainda retinha um pouco de luz do dia comigo. Virei a eíriksgata, andei cem metros e parei, petrificado.

15:50

Encarei Leif Ericcson, marmóreo, que contemplava o horizonte. Quais terras, qual desconhecido, qual mistério contemplava este desbravador? Jamais saberei, era incapaz de girar o meu olhar para contemplar o mesmo horizonte, a mesma glória, que ele contemplava diante de mim. Sua imagem ficou embaçada, e foquei a Hallgrímskirka que se erguia majestosa sobre suas costas. O que é isto? Este tremor, esta ânsia que sinto, sinto que não sou capaz de me manter erguido por muito mais tempo. Não, era impossível, a catedral se erguia mais elevada do que eu.
Não era noite, mas a escuridão se mixava às nuvens sobre a catedral, e o céu era tingido do azul celeste mais caótico que as mãos misteriosas do demiurgo eram capazes de tingir. O secular se misturava com a eternidade, o particular com o uno-primordial e minha alma que se ajoelhava comigo parecia ao mesmo tempo elevar-se e seguir a rota parabólica do domo que se impunha diante de meus olhos. Sentia-me desmaiar de frenesi estético extra-sensorial, sentia ao mesmo tempo um vazio silencioso e o rugido dos versos de Steinn Steinarr rasgando as nuvens no firmamento. Tremia em convulsões frenéticas contemplando a arquitetura idealística, perfeita, fundamentada sobre o equilíbrio aristocrático dos contrafortes ocultos da igreja de eíriksgata.
O relógio de Hallgrímskirka marcou 15:51. O Perlan brilhava e a mobilidade e o tempo voltaram a rugir sobre Reykjavík, mas os versos de Steinarr ainda ecoavam por todos os lados:

“Tíminn er eins og vatnið,
og vatnið er kalt og djúpt
eins og vitund mín sjálfs.

Og tíminn er eins og mynd,
sem er máluð af vatninu
og mér til hálfs.

Og tíminn og vatnið
renna veglaust til þurrðar
inn í vitund mín sjálfs.”*




*Time is like the water,

and the water is cold and deep
like my own consciousness.

And time is like a picture,
which is painted of water,
half of it by me.

And time and the water
flow trackless to extinction
into my own consciousness.
(Tradução de Marshall Brement)

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