quarta-feira, 12 de agosto de 2009


Nas estepes é sempre tempo de guerra,
não declarada, incessante, aberta,
escandalosa.

O vento bate, grudando areia no sangue fresco,
ainda não coagulado,
atraindo moscas para um banquete putrefato,
um festim de corpos de velhos,
mulheres e crianças,

impiedosamente massacrados,
cortados pelos caninos da máquina do tempo,
esmagados pelos molares duros e cruéis da vermelha máquina de guerra
constituída por homens e espadas, cascos e cavalos.

Os corpos apodrecem rapidamente sob o sol,
enquanto a areia os cobre, implacável.
É bom as moscas se apressarem.

sábado, 8 de agosto de 2009

Até que chegue o fresco do dia

Acordei muito cedo no dia dezessete de agosto de 1998, antes mesmo de amanhecer. Vesti minhas botas, peguei minha mochila, e cautelosamente, girei a maçaneta da porta para entrar no corredor que dava para a sala. Ele estava tão silencioso que era possível ouvir o ar entrando e saindo dentro de mim. Andei na ponta dos pés para não acordar ninguém, mas cada passo me custava um esforço enorme, pois meu corpo pesava uma tonelada. Era como se o chão daquela pequena cabana de madeira me atraísse com todas as suas forças. Enquanto andava senti uma gota de suor frio escorrer pela minha testa, e chegar à minha orelha esquerda. Minhas mãos tremiam, assim como cada fibra do meu corpo.
Parei em frente ao quarto onde minha irmã vivia, abri a porta, e entrei num pequeno cubículo, praticamente vazio a não ser por uma cama velha sem colchão, e uma mesa de cabeceira com uma moldura em cima. Apesar do mofo, e dos tantos meses passados, o cheiro dela ainda permanecia naquele lugar. Era um fraco odor de fuligem. Fechei os olhos, tentando memorizar cada detalhe desta mórbida fragrância, pois era a única coisa que eu queria levar daquela casa. Fui até a mesa e peguei seu retrato onde estava montada em um cavalo marrom, cavalgando próximo ao lago. Estava tão livre, tão sem limites, seu rosto encontrava-se repleto de uma alegria contagiante. Abaixei a moldura, e disse adeus com um sussurro. ´´Eu nunca mais olharei em seus olhos de novo``.
Antes de sair me ocorreu de tirar uma foto da antiga galeria, onde meu pai guarda seus prêmios ganhos em concursos de pesca. Ainda hoje, quando estou sozinho, e embriagado, eu a pego, e fico me lembrando dos tempos onde eu ficava o dia inteiro na beira do riacho, tentando pegar um peixe como os que papai trazia. Nunca consegui nada maior do que a palma de minha mão, mas certa vez eu fisguei uma lata de milho, e a enterrei no quintal, como se fosse um tesouro. De qualquer modo, após abandonar a cabana e andar por alguns minutos, passei pela porteira que servia de entrada para a fazenda. O mais difícil havia passado, mas ainda faltavam sete quilômetros até o vilarejo mais próximo, e para chegar lá tive que andar por uma velha estrada de terra, que estava seca e empoeirada devido à forte estiagem daquele inverno. Respirei fundo antes de dar início à caminhada, tão fundo e tão forte, que pareceu que era a primeira vez que os meus pulmões eram completamente preenchidos pelo ar. Olhei para trás uma ultima vez, depois comecei a andar por aquele caminho que serpenteava as montanhas, e parecia não ter fim. Chegando à metade da jornada o medo do início já havia se transformado em euforia, de modo que apesar da fina garoa que começava a cair, e do forte vento vindo do oeste que gelava a pele, eu me sentia feliz.
Quando cheguei ao vilarejo a garoa havia cessado, e apesar do tempo continuar cinza, o sol estava forte. Fui até a padaria, que ficava na principal rua do lugar, e pedi uma xícara de café fraco. Enquanto tomava o líquido marrom em pequenos goles, perguntei que horas o ônibus para a cidade saia a um senhor vestido de azul, que estava lendo um jornal ao meu lado.
-Dez e meia- disse, sem olhar para mim.
Olhei para meu relógio: dez e vinte e três. Paguei o café, e corri até o ponto. Quando cheguei o veículo ainda não tinha saído. Era um ônibus azul e pequeno, com apenas duas portas, ele estava praticamente vazio à exceção de duas freiras sentadas no primeiro banco, um homem acompanhado de uma criança, e uma mulher que dormia com a cabeça no vidro da janela. Subi os degraus, paguei a passagem e me sentei sozinho no fundo. O motorista deu a partida, e depois de cinco minutos pegou a estrada rumo à capital.
Passei o início da viagem olhando os carros, e as paisagens pela janela, mas depois de algum tempo cochilei apoiado em minha mochila. Acordei devido a uma freada brusca, e bati minha cabeça no encosto do assento da frente. A dor veio instantaneamente, junto com o susto. Gritei um palavrão e levei a mão à testa. Quando finalmente me recuperei, e olhei pela pelo vidro, a primeira coisa que vi foi um prédio enorme, acinzentado e cheio de janelas. Eu havia chegado à cidade, e tudo e tudo era simplesmente fascinante, desde os carros, até os outdoors gigantes. Antes que eu desse por mim o motorista veio em minha direção dizendo que a viagem havia acabado, e que era necessário descer do ônibus.
Não acho que valha a pena recordar aqui tudo o que aconteceu depois que pisei pela primeira vez naquele chão de concreto, e cimento. Logicamente, o deslumbramento não durou muito, em pouco tempo ele foi substituído por aquele aperto que dá no coração de todos que abandonam sua terra natal, esse aperto que repete insistentemente a palavra lar quando estou sozinho e em silêncio. Me virei como pude e como não pude para conseguir um salário que mal dá para uma cervejinha no final da semana, e uma cama que não atenua meu perene cansaço.
Aprendi com o passar do tempo que todos aqui têm muita pressa, pressa para comer, pressa para andar, pressa para dirigir, pressa para conversar. Até mesmo o sol deste lugar parece que está sempre atrasado em sua marcha no horizonte. Certa vez, enquanto ia para o trabalho, resolvi parar e cumprimentar um sujeito na rua. Nada demais, apenas sorri e disse bom dia da maneira mais educada possível. Mas ele não deu atenção, e continuou andando como se nada tivesse acontecido. Neste dia aprendi que não era só a calçada em que eu pisava que era feita de concreto. Assim como o céu opaco e vazio de todas as noites, acho que o coração das pessoas daqui vai se tornando aos poucos cada vez mais frio e cinzento. E eu não era exceção, transformei-me lentamente em um clichê de trabalhador subempregado e infeliz da era neoliberal.
Até o dia em que resolvi voltar. Não sei exatamente como, ou o porquê deu ter tomado essa decisão, só sei que no dia vinte e um de janeiro de 2004 eu voltei para a estação. Nesse dia eu não acordei de madrugada, não senti meu coração bater mais rápido ou minhas mãos suarem nem nada, acordei da mesma maneira em que acordo todos os dias, e com a mesma calma com que uma idosa rega suas plantas eu abandonei os meus pertences, e fui apenas com a roupa do corpo e alguns trocados pegar o mesmo ônibus azul que me levara.
A viagem foi a mesma de antes, à exceção apenas de que dessa vez o ônibus estava bem mais cheio. Chegando no ponto final, me surpreendi ao notar o tanto que aquele pequeno vilarejo crescera.A modesta padaria onde outrora eu tomei um cafezinho transformara-se num imenso supermercado, e mesmo a antiga estrada de terra que passava por minha casa agora era asfaltada. Caminhei lentamente por ela, sem medo ou euforia, sem remorso ou frustração. Apenas andei na marcha resignada e cansada de um menino que voltara homem.
Cheguei no lugar onde deveria estar a cabana de madeira que meu avô construíra, e sem perceber desandei a chorar, um choro forte, choro preso por seis anos. A cabana não existia mais, no lugar dela havia uma imensa plantação de milho que se estendia até aonde a vista conseguia alcançar. Mais tarde, quando me recompus um pouco, descobri na fazendo que a família que vivia ali antes havia vendido o terreno, e se mudado para a cidade. Cheguei a considerar a idéia de voltar para a capital e encontrar meus parentes, mas logo desisti. É uma pena, mas acho que foi melhor assim. Depois disso apenas continuei seguindo a estrada(que após alguns quilômetros voltara a ser de terra), em direção a um lugar que tenha algumas árvores, um córrego, e onde eu talvez possa construir um lar.

Possíveis falhas nos sist. -- .-s de comunicação

A comunicação humana é um processo que envolve a troca de informações, e utiliza os sistemas simbólicos como suporte para este fim. Estão . -. ...- --- .-.. ...- .. -.. --- ... neste processo uma infinidade de maneiras de se comunicar: duas pessoas tendo uma conversa face-a-face, ou através de --. . ... - --- ... com as mãos, mensagens enviadas utilizando a rede --. .-.. --- -... .- .-.. de telecomunicações, a fala, a escrita que permitem interagir -.-. --- -- as outras pessoas e efetuar algum tipo de troca .. -. ..-. --- .-. -- .- -.-. .. --- -. .- .-..

Sabe-se --.- ..- . os sistemas de comunição estão sujeitos a falhas constantes que, às ...- . --.. . ... , impedem as pessoas de se comunicarem umas com as outras. O próximo objetivo nesta área deve ser tornar os sistemas menos sujeitos a falhas que impossibilitem a compreensão das-- . -. ... .- --. . -. ... transmitidas.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

para Amanda

fui postar no blog

achando que era hoje;

quando me dei conta,

ainda era ontem.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

On Munch's "Love and Pain"




Lean on me your snow-white face

And my gloom shall brush away

The tender touch of your pale skin.


Spread on me your crimson hair

And my woe shall paint the room

With the blackness of my soul.


Breathe on me your silent breath

And I shall depict your love

In a still and quiet canvas.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

samba da política brasileira pro seu povo

tecu tuco
tecu tuco
tecu tuco

não me cutuca

tecu tuco
tecu tuco
tecu tuco

Do outro lado

Estendo a mão para o copo de uísque, o cigarro já no fim apago no cinzeiro. O papel em minha frente continua em branco; o mesmo branco de algumas horas atrás, quando me sentei para escrever.

Uma olhada rápida para o cinzeiro me diz que devo estar sem cigarros, fato confirmado pelo maço amassado no canto da mesa. Nem me lembrava de ter amassado o tal maço, mas devo tê-lo feito depois de pegar o último cigarro - é um movimento mecânico.

Termino o uísque em um gole rápido e saio para reabastecer os cigarros. Do lado de fora já está tudo escuro, mas a padaria na esquina continua aberta e lá mesmo compro os cigarros: “Me vê um maço de Marlboro vermelho, por favor”, devo ter dito sem prestar atenção.

A cabeça continua sem idéias, e apesar de tudo vários pensamentos cruzam minha mente. Não conseguia entender nada, provavelmente por isso o papel continuava branco. Papel que de repente já estava na minha frente de novo, como o cigarro na boca e o uísque no copo.

Vou até o armário ver o que mais podia fazer. Tinha ainda algumas latas de tinta e uma tela parcialmente branca, coisas que coloco sobre a mesa, ao lado do meu texto-que-viria.

Começo a pintar calmamente com o pincel mais fino, a próxima coisa de que sei é de uma pintura frenética em que todo o meu corpo é colocado na tela.

Pego a tinta e jogo na parede, dando tons de vermelho à parede anteriormente branca. Faço isso também com as outras tintas, estampo meu corpo na parede, apago cigarros, quebro as garrafas de uísque cheias - e também as vazias -, criando assim o caos naquela pequena sala.

Já estava cansado daquilo tudo. Olhei em volta pensando seco “que merda. Isso é tudo uma merda.” e foi nessa hora que meus olhos caíram sobre a salvação.

“Como é bom!” era o que eu pensava.




Chego em casa de manhã bem cedo, meu irmão tinha dito que ficaria em casa trabalhando algumas novas idéias que tinha tido.

Estranho logo quando entro: a luz da sala ainda estava acesa. Ele sempre dorme na sala com as cortinas hermeticamente fechadas criando total escuridão. O que vejo porém é luz vindo daquela direção.

Chego na porta da sala e me vêm lágrimas aos olhos.

À minha frente estava a imagem do corpo de meu irmão dependurado do teto.

- Arte. Meu irmão é um artista! Que existência sublime.


O que me trouxe lágrimas aos olhos não foi a morte de meu irmão. Parado na porta da sala, a única coisa que eu consigo ver é o trabalho incrível dele: todas aquelas cores e pinturas lindas que agora adornam a parede da sala, toda a destruição tão envolvente e, apesar de tudo, tranquilizadora, que a visão daquela sala de estar em pedaços me trouxe era linda, era sublime. Era Arte, pura e simplesmente. E fazia lágrimas correrem por minhas bochechas.

An Imitation of Blake

As I wept in valleys wild

Crying out in bowers green,

From a tree came out a child

Whom to others rest unseen.


“Why art thou in such a woe?”

- Oh, you’ll never understand.

So he glanced inside my soul

And then took me by my hand.


“Look the trees, the joy of spring,

See the bower, the smiling lea,

Hear the birds, they happily sing,

Feel the nature lean to thee.


These trees shall forever stay,

This bower will forever be,

Death will take these birds away

But others then shall sing to thee.


But thou shalt not forever stay

Neither shalt forever be.

One day, alas! The icy clay

Shall shut thy earthly revelry.


But if thou lovest thy living breath

And everything to thee is mild

Why canst thou love also thy death?”

And then I looked that merry child:


And I hugged him close to me,

And we played until we sate,

And when I close my eyes I see

That smiling boy, and call him Fate.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Carta de recepção - Clube da Maioridade



Brumadinho, 03 de Agosto de 2009

Caro Sr. Pedro Vianna,


Parabéns pelo seu aniversário de 18 anos. O Clube da Maioridade lhe deseja felicidades na sua vida nova. Em anexo a esta carta enviamos uma carteira de identidade nova, desta vez com seu nome e seus dados, que poderá ser usada a partir de hoje em todos os tipos de estabelecimentos comerciais. Quanto ao seu documento de identidade provisório, favor descartá-lo ou passá-lo para algum amigo que não seja membro de nosso clube. Além disso, a partir de hoje o senhor será sempre bem recebido nos bares, boates e casas noturnas do país. Caso seja do seu desejo consumir bebidas alcoólicas ou cigarros, poderá comprá-los livremente em todos os supermercados, padarias e locais semelhantes.
Devemos alertá-lo, porém, que a partir de hoje o senhor será responsabilizado por todos os seus atos e poderá ser preso, julgado e condenado por eles. Portanto, caso seja de seu interesse cometer atos ilícitos como o consumo de entorpecentes, por favor, faça-os no mais absoluto segredo.
Dentre outras vantagens disponíveis a partir de hoje, o senhor encontrará cursos de direção e acesso aos serviços bancários. Recomendamos que procure as instituições responsáveis e utilize essa nova gama de vantagens e privilégios.
Para obter mais mais informações ligue 0800 739 413, um de nossos atendentes certamente lhe dará todas as informações requisitadas.


Parabéns pelos seus 18 anos,



Eugênio Libertino,
Presidente do Clube da Maioridade




domingo, 2 de agosto de 2009

A Fulminação Figural

Em
fúria,
pernas
milípedes
erguem-se abruptas
às caudas febris e copiosas
que sustentam as veste de uma dama.

É o assombro, - - - - - - - - - - - - - - - - - – feminil e delicioso,
a se iniciar - - - - - - - - - - - - - - - - - - de uma maneira grotesca.
A dama mira enfastiada e incerta, repleta de desconfiança, sem demonstrar
[qualquer excitação.

Ganchos,
enquanto
estes
se
alçam
contidos
nas
unhas
das
miriápodes,
identificam-se qualidades
- - - - - - - que se derrubam.

Dama icônica
a portar
cor herética,
a trotar
sem estética,
a falar
voz lacônica.

Ela carrega no busto a vez da Folia.
As vagas do vestido roxo que amacia
são chagas do sentido denso de Poesia,
um rodopiar coxo de melancolia.

Fragrâncias de redundâncias em abundância,
constâncias e ânsias de extravagância.
Falta-lhas!
Manca!

Trôpego
e
sôfrego
ritmado
em veleidade
sem austeridade,
A Grande Leviandade.
Dama, Subtil Frivolidade.

A atrocidade jocosa
de motejo do ensejo,
a atrocidade chistosa,
lança-lhe à artilharia.

Dama à vanguarda,
que não se impõe
à concretude de atos,
torna a se esquivar
e a se expandir.

O corcel do crescimento, simples esquecimento, inibe toda a vastidão
[desta Senhora caduca
que se tem esmagada dentro de vielas do intelecto, onde é gerada
[e aonde pertence.

A progressão unânime
esgota a dama pusilânime.