sábado, 8 de agosto de 2009

Até que chegue o fresco do dia

Acordei muito cedo no dia dezessete de agosto de 1998, antes mesmo de amanhecer. Vesti minhas botas, peguei minha mochila, e cautelosamente, girei a maçaneta da porta para entrar no corredor que dava para a sala. Ele estava tão silencioso que era possível ouvir o ar entrando e saindo dentro de mim. Andei na ponta dos pés para não acordar ninguém, mas cada passo me custava um esforço enorme, pois meu corpo pesava uma tonelada. Era como se o chão daquela pequena cabana de madeira me atraísse com todas as suas forças. Enquanto andava senti uma gota de suor frio escorrer pela minha testa, e chegar à minha orelha esquerda. Minhas mãos tremiam, assim como cada fibra do meu corpo.
Parei em frente ao quarto onde minha irmã vivia, abri a porta, e entrei num pequeno cubículo, praticamente vazio a não ser por uma cama velha sem colchão, e uma mesa de cabeceira com uma moldura em cima. Apesar do mofo, e dos tantos meses passados, o cheiro dela ainda permanecia naquele lugar. Era um fraco odor de fuligem. Fechei os olhos, tentando memorizar cada detalhe desta mórbida fragrância, pois era a única coisa que eu queria levar daquela casa. Fui até a mesa e peguei seu retrato onde estava montada em um cavalo marrom, cavalgando próximo ao lago. Estava tão livre, tão sem limites, seu rosto encontrava-se repleto de uma alegria contagiante. Abaixei a moldura, e disse adeus com um sussurro. ´´Eu nunca mais olharei em seus olhos de novo``.
Antes de sair me ocorreu de tirar uma foto da antiga galeria, onde meu pai guarda seus prêmios ganhos em concursos de pesca. Ainda hoje, quando estou sozinho, e embriagado, eu a pego, e fico me lembrando dos tempos onde eu ficava o dia inteiro na beira do riacho, tentando pegar um peixe como os que papai trazia. Nunca consegui nada maior do que a palma de minha mão, mas certa vez eu fisguei uma lata de milho, e a enterrei no quintal, como se fosse um tesouro. De qualquer modo, após abandonar a cabana e andar por alguns minutos, passei pela porteira que servia de entrada para a fazenda. O mais difícil havia passado, mas ainda faltavam sete quilômetros até o vilarejo mais próximo, e para chegar lá tive que andar por uma velha estrada de terra, que estava seca e empoeirada devido à forte estiagem daquele inverno. Respirei fundo antes de dar início à caminhada, tão fundo e tão forte, que pareceu que era a primeira vez que os meus pulmões eram completamente preenchidos pelo ar. Olhei para trás uma ultima vez, depois comecei a andar por aquele caminho que serpenteava as montanhas, e parecia não ter fim. Chegando à metade da jornada o medo do início já havia se transformado em euforia, de modo que apesar da fina garoa que começava a cair, e do forte vento vindo do oeste que gelava a pele, eu me sentia feliz.
Quando cheguei ao vilarejo a garoa havia cessado, e apesar do tempo continuar cinza, o sol estava forte. Fui até a padaria, que ficava na principal rua do lugar, e pedi uma xícara de café fraco. Enquanto tomava o líquido marrom em pequenos goles, perguntei que horas o ônibus para a cidade saia a um senhor vestido de azul, que estava lendo um jornal ao meu lado.
-Dez e meia- disse, sem olhar para mim.
Olhei para meu relógio: dez e vinte e três. Paguei o café, e corri até o ponto. Quando cheguei o veículo ainda não tinha saído. Era um ônibus azul e pequeno, com apenas duas portas, ele estava praticamente vazio à exceção de duas freiras sentadas no primeiro banco, um homem acompanhado de uma criança, e uma mulher que dormia com a cabeça no vidro da janela. Subi os degraus, paguei a passagem e me sentei sozinho no fundo. O motorista deu a partida, e depois de cinco minutos pegou a estrada rumo à capital.
Passei o início da viagem olhando os carros, e as paisagens pela janela, mas depois de algum tempo cochilei apoiado em minha mochila. Acordei devido a uma freada brusca, e bati minha cabeça no encosto do assento da frente. A dor veio instantaneamente, junto com o susto. Gritei um palavrão e levei a mão à testa. Quando finalmente me recuperei, e olhei pela pelo vidro, a primeira coisa que vi foi um prédio enorme, acinzentado e cheio de janelas. Eu havia chegado à cidade, e tudo e tudo era simplesmente fascinante, desde os carros, até os outdoors gigantes. Antes que eu desse por mim o motorista veio em minha direção dizendo que a viagem havia acabado, e que era necessário descer do ônibus.
Não acho que valha a pena recordar aqui tudo o que aconteceu depois que pisei pela primeira vez naquele chão de concreto, e cimento. Logicamente, o deslumbramento não durou muito, em pouco tempo ele foi substituído por aquele aperto que dá no coração de todos que abandonam sua terra natal, esse aperto que repete insistentemente a palavra lar quando estou sozinho e em silêncio. Me virei como pude e como não pude para conseguir um salário que mal dá para uma cervejinha no final da semana, e uma cama que não atenua meu perene cansaço.
Aprendi com o passar do tempo que todos aqui têm muita pressa, pressa para comer, pressa para andar, pressa para dirigir, pressa para conversar. Até mesmo o sol deste lugar parece que está sempre atrasado em sua marcha no horizonte. Certa vez, enquanto ia para o trabalho, resolvi parar e cumprimentar um sujeito na rua. Nada demais, apenas sorri e disse bom dia da maneira mais educada possível. Mas ele não deu atenção, e continuou andando como se nada tivesse acontecido. Neste dia aprendi que não era só a calçada em que eu pisava que era feita de concreto. Assim como o céu opaco e vazio de todas as noites, acho que o coração das pessoas daqui vai se tornando aos poucos cada vez mais frio e cinzento. E eu não era exceção, transformei-me lentamente em um clichê de trabalhador subempregado e infeliz da era neoliberal.
Até o dia em que resolvi voltar. Não sei exatamente como, ou o porquê deu ter tomado essa decisão, só sei que no dia vinte e um de janeiro de 2004 eu voltei para a estação. Nesse dia eu não acordei de madrugada, não senti meu coração bater mais rápido ou minhas mãos suarem nem nada, acordei da mesma maneira em que acordo todos os dias, e com a mesma calma com que uma idosa rega suas plantas eu abandonei os meus pertences, e fui apenas com a roupa do corpo e alguns trocados pegar o mesmo ônibus azul que me levara.
A viagem foi a mesma de antes, à exceção apenas de que dessa vez o ônibus estava bem mais cheio. Chegando no ponto final, me surpreendi ao notar o tanto que aquele pequeno vilarejo crescera.A modesta padaria onde outrora eu tomei um cafezinho transformara-se num imenso supermercado, e mesmo a antiga estrada de terra que passava por minha casa agora era asfaltada. Caminhei lentamente por ela, sem medo ou euforia, sem remorso ou frustração. Apenas andei na marcha resignada e cansada de um menino que voltara homem.
Cheguei no lugar onde deveria estar a cabana de madeira que meu avô construíra, e sem perceber desandei a chorar, um choro forte, choro preso por seis anos. A cabana não existia mais, no lugar dela havia uma imensa plantação de milho que se estendia até aonde a vista conseguia alcançar. Mais tarde, quando me recompus um pouco, descobri na fazendo que a família que vivia ali antes havia vendido o terreno, e se mudado para a cidade. Cheguei a considerar a idéia de voltar para a capital e encontrar meus parentes, mas logo desisti. É uma pena, mas acho que foi melhor assim. Depois disso apenas continuei seguindo a estrada(que após alguns quilômetros voltara a ser de terra), em direção a um lugar que tenha algumas árvores, um córrego, e onde eu talvez possa construir um lar.

3 comentários:

  1. Olá jhonny, tudo bem? Seria este o conto que você iniciou daquela vez em que nos falamos?
    O conto, na minha opinião, tange vários temas mas parece não se aprofundar em nenhum deles. Se for este o conto inspirado por aquelas músicas que você me disse (acho melhor não citá-las aqui, mas você com certeza sabe quais são) achei que ele iria se aprofundar sobre a ausência da irmã na vida do personagem. Se fosse sobre isso, os dois primeiros parágrafos estariam muito bem escritos, perfeitos para iniciar a sua história, mas a narrativa de repente muda de rumo. O protagonista sai da fazenda e toma um ônibus rumo à cidade grande, e o tema do conto parece mudar completamente, se transformando em um conto sobre o exílio da terra natal e a infelicidade dos que a abandonam. Se era este o tema que você desejava desenvolver, um tema também altamente conectado à crítica do sistema capitalista que aparece na sua história, sinto lhe dizer mas não soa convincente. Eu sou do Rio Grande do Sul mas resido em Belo Horizonte, e conheço bem a sensação de estar em uma terra estranha e guardar recordações de minha terra natal, a terra que acolhe todos os meus familiares. A sensação de saudade, a infelicidade de se sentir incompleto com o ambiente a sua volta, e essa sensação não foi descrita com a atenção necessária. Se me permite te dar uma sugestão, tente descrever bem as paisagens que o protagonista observa pela janela do ônibus, e use-as posteriormente para descrever a saudade dele. Justamente as imagens contempladas durante a sonolência são aquelas mais significativas e marcantes, soam posteriormente como um sonho, como uma névoa que paira na memória de uma pessoa. Se você souber usar este recurso, seu texto já deve melhorar 80%. Outro fator importante, descrito muito superficialmente (apenas um parágrafo) é a aversão da pessoa a seu novo ambiente, as paisagens que são quase agressivas aos olhos, os habitantes que parecem todos mesquinhos, as diferenças ideológicas. Isso tudo se torna muito mais evidente quando mudamos de estado ou país, quanto ao seu personagem, que muda apenas de cidade, acho que seria mais efetivo descrever a sua total aversão ao ambiente urbano, aquela cor cinza e doentia, os odores pútridos do ar impuro, os habitantes catarríneos. Se você quiser desenvolver a sua crítica, talvez queria descrever como a miséria material em que o protagonista vivia começa a se transfigurar na miséria emocional do mesmo.
    Não quero parecer um cara chato que tenta corrigir tudo, mas o faço porque me identifiquei um pouco com o seu texto, e também encaro este blog como uma oportunidade de receber as devidas críticas ao que escrevemos e crescer com elas. Critico o seu conto, mas ao mesmo tempo me dediquei por um bom tempo para lê-lo e criticá-lo, espero que isto prove que eu realmente me importo com o desenvolvimento do mesmo. Qualquer coisa nos falamos por MSN.
    Abraços, Guilherme Ev.

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  2. Obrigado pelo comentário kra, ele foi bastante bastante relevante. Não se trata do que eu havia citado no msn antes, foi algo que me surgiu.
    Concordo com o q você disse, e provavelmente editarei o texto. É ótimo ver o ponto de vista de alguém que passou por situação semelhante à descrita, coisa que nunca me ocorreu. Minha intenção nesse texto não foi centralizado na crítica ao sistema, ou à sociedade do meio urbano, apesar dela estar presente. O que eu tentei apresentar foi um personagem que busca por si mesmo, e por uma suposta liberdade. Se desilude, e quando busca retornar ao seu estado anterior descobre que ele não existe mais. Busquei trabalhar assim a idéia de que a liberdade depende apenas do espírito do indivíduo, e não do ambiente em que ele vive. A figura da irmã apareceria somente para demonstrar um laço do personagem que fora quebrado de maneira trágica, o que poderia ser até o provável motivo de sua partida.
    Abraços.

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  3. Concordo bastante com o Gui.
    O conto ficou muito interessante e também me identifico bastante com ele, mas à medida que você desenvolve a história fala de várias coisas e na realidade não fala de nada. É como se o que está postado aqui fosse uma versão 'enxugada' de um conto maior, um texto que teve de ser editado pela falta de espaço onde seria publicado.
    Acho que tanto a idéia exposta neste seu comentário quanto as do Gui são pertinentes, e acho que você pode desenvolver bastante o texto ainda.
    Aproveite que você tem uma ótima capacidade descritiva e use-a bem!
    Mais uma coisa, é muito interessante ver a diferença deste para o primeiro texto que você postou - comentário que é válido para todos nós, acho. Parabéns, e continue melhorando!
    Abraços,
    Daniel

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