quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Do outro lado

Estendo a mão para o copo de uísque, o cigarro já no fim apago no cinzeiro. O papel em minha frente continua em branco; o mesmo branco de algumas horas atrás, quando me sentei para escrever.

Uma olhada rápida para o cinzeiro me diz que devo estar sem cigarros, fato confirmado pelo maço amassado no canto da mesa. Nem me lembrava de ter amassado o tal maço, mas devo tê-lo feito depois de pegar o último cigarro - é um movimento mecânico.

Termino o uísque em um gole rápido e saio para reabastecer os cigarros. Do lado de fora já está tudo escuro, mas a padaria na esquina continua aberta e lá mesmo compro os cigarros: “Me vê um maço de Marlboro vermelho, por favor”, devo ter dito sem prestar atenção.

A cabeça continua sem idéias, e apesar de tudo vários pensamentos cruzam minha mente. Não conseguia entender nada, provavelmente por isso o papel continuava branco. Papel que de repente já estava na minha frente de novo, como o cigarro na boca e o uísque no copo.

Vou até o armário ver o que mais podia fazer. Tinha ainda algumas latas de tinta e uma tela parcialmente branca, coisas que coloco sobre a mesa, ao lado do meu texto-que-viria.

Começo a pintar calmamente com o pincel mais fino, a próxima coisa de que sei é de uma pintura frenética em que todo o meu corpo é colocado na tela.

Pego a tinta e jogo na parede, dando tons de vermelho à parede anteriormente branca. Faço isso também com as outras tintas, estampo meu corpo na parede, apago cigarros, quebro as garrafas de uísque cheias - e também as vazias -, criando assim o caos naquela pequena sala.

Já estava cansado daquilo tudo. Olhei em volta pensando seco “que merda. Isso é tudo uma merda.” e foi nessa hora que meus olhos caíram sobre a salvação.

“Como é bom!” era o que eu pensava.




Chego em casa de manhã bem cedo, meu irmão tinha dito que ficaria em casa trabalhando algumas novas idéias que tinha tido.

Estranho logo quando entro: a luz da sala ainda estava acesa. Ele sempre dorme na sala com as cortinas hermeticamente fechadas criando total escuridão. O que vejo porém é luz vindo daquela direção.

Chego na porta da sala e me vêm lágrimas aos olhos.

À minha frente estava a imagem do corpo de meu irmão dependurado do teto.

- Arte. Meu irmão é um artista! Que existência sublime.


O que me trouxe lágrimas aos olhos não foi a morte de meu irmão. Parado na porta da sala, a única coisa que eu consigo ver é o trabalho incrível dele: todas aquelas cores e pinturas lindas que agora adornam a parede da sala, toda a destruição tão envolvente e, apesar de tudo, tranquilizadora, que a visão daquela sala de estar em pedaços me trouxe era linda, era sublime. Era Arte, pura e simplesmente. E fazia lágrimas correrem por minhas bochechas.

3 comentários:

  1. Excelente. Seu personagem é a essência da arte dionisíaca: se espalha insana e freneticamente na alma do artista, e se apaga. Súbita e irreversível.

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  2. pela primeira vez fiquei feliz com a sua ausência

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  3. A arte está acima de todo e qualquer homem.

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