sábado, 26 de setembro de 2009

La vie en rose

Era um escritório pequeno, com paredes de uma tonalidade amarelo mostarda desgastada pelo tempo. Poucos eram os móveis neste ambiente: apenas uma cadeira, uma mesinha, e um divã. E todos eles estavam situados logo abaixo das pás de um antigo ventilador de teto que girava demoradamente. Além disso, de tão deteriorado que estava este último, parecia que estava prestes a cair a qualquer momento. Não havia janelas, e a iluminação, que provinha de um único abajur situado no canto esquerdo do cômodo, era muito fraca, de modo que o pequeno velho que estava a olhar para a estante de livros parecia ser apenas mais um objeto desse mórbido cenário.
O ar estava completamente estagnado, dando a impressão de que alma viva alguma passava por ali já fazia algum tempo.
De repente, escutam-se então passos do lado de fora, depois silêncio, porta rangendo, porta batendo, e por fim, passos do lado de dentro.
O homem de camisa azul e calça jeans adentra timidamente no cômodo, olha ao redor, e surpreende-se ao perceber que sua entrada não fora notada. Depois de alguns embaraçosos segundos, ele resolve pigarrear alto para chamar atenção. Nenhuma resposta. Seu pretenso interlocutor continua a olhar fixamente para a estante, quase que em transe.
-Hã, com licença, aqui é o escritório do doutor Astolfo Fagundes? – Disse em voz alta e clara.
Houve então um momento de silêncio duro e penetrante, interrompido finalmente pela voz do velho.
-Sim, é sim. – Respondeu, enquanto virava para trás e colocava os óculos. - Você está aqui para uma consulta?- Continuou, enquanto analisava o desconhecido.
O homem balança a cabeça afirmativamente.
-Meu nome é José, eu marquei o horário na terça feira com o senhor pelo telefone, lembra-se?
-Oh, sim, me lembro bem- Disse enquanto sentava em sua cadeira, e apontava para o divã. – Acomode-se.
-Eu prefiro ficar em pé, se não se importar.
-Tudo bem para mim. – disse enquanto pegava um bloco de papel, e um lápis. – Bem José, o que o traz aqui?
-Eu gostaria que o senhor dissesse o que há de errado comigo. – Respondeu de modo breve, e claramente perturbado.
-Explique-se, meu bom homem. - Disse o velho em tom grave. Apesar da idade, e do tamanho desvantajado, tinha um certo ar de imponência e seriedade.
-Bem, vou começar pelo começo. - Aquela situação claramente estava deixando José desconfortável. – Nunca tive problemas sérios, sempre fui um sujeito muito tranqüilo, muito quieto, de poucos vícios e menos mazelas. Da minha infância e adolescência nada tenho a reclamar, afinal, como eu já disse antes para o senhor, eu nunca me envolvi em questões muito graves. Tive muitos amigos, alguns bons, outros menos, nada de extraordinário no geral. Formei-me em administração aos vinte e três anos, sem muitos louvores, mas também sem muitos déficits. Casei-me aos vinte e sete, e atualmente tenho um bom emprego numa grande empresa, além de duas lindas filhas: Rafaela e Joana. – Olhou então para o psicanalista, que não parecia estar prestando muita atenção.
- Eu estou entediando o senhor?
-Não, de maneira alguma. Continue.
-Enfim, uma vida absolutamente normal. Mas de repente tudo mudou....- O tom de José foi se tornando cada vez mais sôfrego enquanto falava. - Bem, eu não sei como explicar.
-Faça o melhor que puder, tenho certeza que bastará.
-De alguns tempos para cá tenho tido alguns sonhos... Bem, como dizer? Estranhos, no mínimo.
-Estranhos como?
-Ontem a noite mesmo eu tive um destes. Sonhei que estava no deserto morrendo de sede, quando de repente eu avisto um Oasis, e corro em sua direção. Quando eu chego mais perto, o Oasis desaparece, e eu vejo um homem de bigode rosa, e terno laranja, que disse ser a reencarnação de Mustafá Mond, décimo quinto rei do império Inca. De repente então aparecem flamingos carregando xícaras de chá, que são colocadas numa mesa. Eu tomo o chá, e em seguida começo a dançar, até que caio na areia. Quando olho para cima vejo o homem novemente, daí ele olha em meus olhos e diz que Sheakspeare estava errado, que a vida não é um conto, e sim uma nota de rodapé. Daí, as nuvens escureceram, o ar começou a ficar pesado, e finalmente, então, caiu uma chuva que me encharcou completamente. –Tomou fôlego e continuou. – Quando acordei vi que havia mijado na cama, e o cachorro lambia meu pé.
-Hum... Mais alguma coisa de estranho? – Disse enquanto tomava algumas anotações.
-Bem, semana passada eu acordei no meio da noite sem motivo algum e fiquei a olhar pela janela da sala. Fiquei assim mais de uma hora até me dar conta do que estava fazendo, e voltar a dormir. – Havia certo desespero em sua voz, mas José fazia questão de continuar. – Outro dia eu estava no caminho para o trabalho e quase atropelei uma jovem porquê havia me distraído olhando para uma árvore que estava com as folhas todas rosas.
-Hum...
-Perdi o interesse em meu trabalho, meu apetite tem diminuído bastante, e tenho estado muito mais nervoso que o normal. Eu, que nunca tinha bebido, ou traído minha mulher em minha vida, comecei a freqüentar botecos, e trepar com desconhecidas. Minha rotina não tem sido a mesma. – Acrescentou enquanto olhava para o bloco de anotações. - No caminho para cá mesmo, eu me peguei cantando em voz alta.
José estava com a cara pálida, e gotas de suor escorriam sobre seu rosto.
-Acho melhor você se sentar enquanto eu vou ali pegar uma coisa.
Obedeceu prontamente, e ainda aproveitou para tirar os sapatos. Seus pés estavam lhe matando. Depois de alguns minutos de espera o doutor voltou, trazendo algumas folhas.
-O que você vê aqui? – Perguntou mostrando um borrão amarelo.
-Um rato.
-E aqui?
-Um travesseiro.
-E aqui?
-Nada.
-Certeza?
-Sim.
-Aqui?
-Um girassol.
-Aqui?
-Um menino.
-Um menino? – Abaixou os olhos e acrescentou. – Como ele está?
-Está chorando.
-E....
-Está deitado também.
-Um menino deitado e chorando. – Murmurou enquanto tomava notas.
-Não, peraí.
-O que foi?
-Não está mais chorando.
-Como?
-O menino, ele parou de chorar.
Tirou os óculos. Ao fazer isso, José pôde ver seus pequenos olhos castanhos mais claramente. Eles não demonstravam emoção alguma.
-Vou fazer algumas perguntas simples, tudo bem?
-Sim, claro.
-Qual é o seu nome completo?
-José Cândido Xavier.
-Data de nascimento?
-Vinte do sete de mil novecentos e setenta e dois.
-Profissão?
-Diretor assistente do setor de finanças.
-Qual a cor do céu?
-Azul.
-Qual a cor da grama?
-Verde.
-Que dia da semana é hoje?
-Sexta feira.
-E de que cor é a sexta feira?
-Vermelha.
-Hum....
-Hum o quê?
O senhor deixa as folhas e o bloco de anotações de lado. Em seguida, volta-se para José:
-Acho que já sei o que está acontecendo com você.
-Me diga então, por favor. – Disse automaticamente. Seu desespero ia se transformando em certa euforia.
-Bem, para começar, esse é um quadro muito raro nos dias de hoje, ainda mais considerando a sua idade. Costumava ocorrer muito há algumas décadas, principalmente entre os jovens entre quinze e vinte e dois anos de idade.
-Diga logo o que é.
-O senhor sofre de poetice aguda, tendendo a surtos filosóficos periódicos.
-E isso é grave?
-Sim, muito grave. Temo que não exista tratamento, quanto menos uma cura. Você terá que conviver com isso pelo resto da sua vida.
-Mas como isso é possível? Não há mesmo nada que eu possa fazer?
-Bem, eu recomendo que você assista de três a quatro horas de televisão por dia. O que deve retardar o processo da doença, mas não acredito que irá lhe curar.
O ar, que estava carregado, diminui seu peso de repente. O ventilador começara a ranger, e do lado de fora a chuva começara cair.
-Acho que é isso então. – Recomeçou José enquanto dirigia-se para a porta. – Bem doutor, obrigado pelo entendimento. Mandar-lhe-ei um cheque segunda feira pela manhã.
-Não precisa mandar. È melhor que guarde seu dinheiro, afinal, creio que em breve você não terá mais um emprego.
Girou a maçaneta sem dizer nada, e abriu a porta ganhando o corredor. Após descer as escadas, e chegar à portaria, notou que ainda estava de meias, mas não achou que isso importasse. Coçou o nariz, olhou para a calçada, e, apesar de toda a chuva, começou a descer a rua em direção ao botequim mais próximo.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

“ Tears, idle tears, I know not what they mean,
Tears from the depth of some divine despair
Rise in the heart, and gather to the eyes,
In looking on the happy autumn-fields,
And thinking of the days that are no more.


So sad, so fresh, the days that are no more.”

Lord Alfred Tennyson


It was sunny that afternoon, that late afternoon, while I lied in my couch in contemplative mood. Resting my head at the pillow, I stood glancing at the golden solar sphere, the raving clouds, the enduring mountains. I glanced, but with indifferent sight, as my mind strayed through uncertain realms of remembrance, thinking on things already past, ignoring everything yet to come. They were all pictures, my memories, nothing more than frozen scenes enshrined by a foggy frame of oblivion, and as I summoned memories of my early childhood, this blurry fog was still more present, as if trying to erase those scenes from me. Afternoons such as bright as this, joyful moods, smiles, that’s what I saw on the pictures, and streets bathed by warm sunbeams. Although distant, my childhood was the period I remembered the most. As I grew older I got every time more distracted, there was no present for me, neither past nor future, the abstraction of time presented itself to me in its whole form and my mind chosen many times to dwell in those immutable thoughts, enduring thoughts, such as the old mountains I observed. I remembered birthday parties, the travels, the good times with friends. I remembered my grandmother’s death, my mother crying while I held my tears, I remember the sudden indifference, the late woe, the grief of mourning. The late woe, now everlasting…

It was a burden, my past, it was a burden and started to suffocate me, to compress me against the very couch on which I lied. I was tired of carrying it. Suddenly I got struck by a strange exhaustion, and closed my eyes. For an uncertain period of time I stood in limbo, not sleeping nor awake, I would sometimes open my eyes unconsciously, incapable of thinking, and when my eyes were closed I had no dreams but a darkening slumberous visage, and darkness itself took control of my mind while I could do nothing but surrender to it. Darkness, abyssal and utter darkness, floated aloft my unconsciousness as the blackened clouds of fate which float upon every being, I was able to feel, while fainted and possessed by blank mirages, I was able to feel my destiny. Dissolved, reduced to dust of existence, I was carried by the Mystery through its unspoken words. So sad, so fresh, I knew not what they meant.

I finally woke up. The golden sun turned to opaque yellow, I was now caressed by a soft sorrow, unknown and unfelt before. While glancing at the sun once again I knew, I knew it was the pain from a dying season, I felt it all around me. The great star started to set behind those mountains, screaming in silence, suffering in silent resignation. As I do. From the east, a crow uttered its distant cry, and from that same direction I was able to sense the rain. Autumn approaches once more, to remind us of the cold, to drown the summer in tears, idle tears, for the days that are no more. So sad, so fresh…