domingo, 4 de outubro de 2009

Julia

“Well then, I ought to suit you, dear. I'm corrupt to the bones.”

1984

O torso se dobra para encarar o dorso, o dorso se alteia para relevar o torso, no torso o dorso se volteia para amaciar o corpo, o corpo se impõe para dentro do torso. Finja ser a relação de insubmissão, a relação equânime, o domínio do torso fora do dorso que levanta o lombo. O não-domínio que não será domado. Falseia o corpo que se esmera pelo tronco.

Assusto-me com a nossa longitude e com o que não devenimos. Assusto-me com o nosso diâmetro. Monstros graves e severos me repreendem, dentre os quais estou eu – e aqueles outros reconfigurados em mim. O que gera medo são as mutações e as continuidades – todas suas. As minhas foram pulverizadas – novamente. Se ainda ocultamos alguma proximidade, arranque-a pelos ossos e morda-a como jamais gostaria de usar seus dentes nos meus braços. Faça-a ebulir e sorva os seus vapores metálicos. Deseje-me então coberto com estes paralelepípedos. Esta entranhável agressividade nos recuperará.

Você é uma imagem, imaginária, empilhada sobre as minhas lembranças – assim como o restante. A partir do momento que já não são concretos e firmes sob meus sentidos, todos transmutam em imagens alucinadas que algum dia eu preservei e que então ecoam. Não foi só você, minha cara, a única dilacerada pela monstruosidade das horas. Os lugares - sobretudo os lugares, os sítios, os recintos, os espaços e os outros. Tudo está esmagado nesse impasse instável e fascinante que se encontra entre as ranhuras da memória e as fissuras do oblívio. Um espaço peculiar imprimido pelos arrepios de sua nuca. Você, e os demais, e os locais que perseguimos, são todos os ossos e os paralelepípedos de rocha que condensam meus dias. São todos os vapores metálicos que saem das tinas efervescentes - os cafés e os açúcares escorridos dos encontros em áreas vulgares que percorro. Os encontros ordinários são todos esses, fraturas do tempo que me estapeia as bochechas. Você deveria ser a mim um destes arranhões que não localizo, que não encontro por desatenção. Não é.

Pois que fale de outrem, sempre exteriorizado. Não há outrem. Há apenas o mesmo indivíduo, amálgama de coisas recordadas. Eu sou facilmente impressionável, e isso é um recurso retórico, e isso é uma dissimulação, e isso é uma inverdade polida. Você sabe da polidez e do lustre. Sabe com abundância. Sabe da abundância, mas pouco da escassez, ou talvez o inverso. Talvez saibamos do sarcasmo. Aqueles todos externos, exteriores, estrangeiros a nós. Toda esta pluralidade de fenômenos que inspiram não mais do que desinteresse. E, quando a sua carne flácida me olha com desgosto, conversamo-nos usando gestos, conversamo-nos todos em um diálogo sem repetições que se estende sobre as pálpebras sonolentas das palavras. Não se sabe daquilo que falta por se desconhecer a ausência, ou sabê-la interpretar sem poder identificar seu objeto. Eis que nos calamos, silêncio magro e irrespirável - devemos nos suportar.

Algumas abstrações de outras perseguições ainda aparecem espelhadas sobre nossos visores - estamos turvados. Os dedos longilíneos se insinuam a escrever, hesitantes como vozes, oscilando à temperatura dos temperamentos que se misturam com ícones criptográficos. Figura que me é familiar, veja em mim, você, como nos projetam de si as falésias das impertinências romanescas. As curvas desta elipse ainda estão por serem completadas - jamais talvez, linha longa que se desenrola para dentro dos degraus espiralados. E a repetição, e a repetitividade, antídoto fresco dessas curvas inaláveis, é só isso o que nos compõe. Eis que você está figurada, hipótese acima, enlevada.

Pretendamos que as relações afetuosas não sejam feitas de vísceras, não sejam evisceradas, não sejam hostis e brutas, repletas de dominação. Esqueçamos do turno de força empregado nos relacionamentos banais, interpessoalidades quaisquer. Enunciemos o manifesto andrógino, o suprafeminismo, a insubordinação e a planificação da horizontalidade. Embebamo-nos nos sufles das Sirènes como brumas nivosas de outras negritudes - senão belas imagens. Desvinculadas das imposições de sexo, as agudezas apunhaladas de lascívia se embrutecem embaçadas. As lágrimas destiladas de emoções que não se pertencem, e não se contêm, estas lágrimas se estufam para depois dos róis comuns de homens, os homens estufados.

E o ímpio que nos ecoará das mentes abastadas será veloz rajada de noites, ímpetos de maternidades escoadas, ancestralidade desfigurada, reconfigurada. A figura una e nunca, a figura nunca nua e una. Una à figura nua a nau de gentes. Não. Manifesto reconfigurado. Nem sexo, nem plural, relações agâmicas sem seus desgastes. Manifesto da agamia, da não-relação, do não-envolvimento, do não-celibato. Manifesto do não?