segunda-feira, 29 de março de 2010

Vistas of Death I

"Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!"

Álvares de Azevedo


The clock melts on the wall

And in the room no more sound

But a strange frequency of silence

As if a crowd of ultrasonic bats

Went mute but still cried.

All the windows would close

And the world would be alien,

And maybe the night would

Become day, but not for me.

Engulfed by endless abstraction

The whole reality would bow

And maybe a sigh of adieu

If I were to die right now.


Would I have time to sense

The vanishing of all that’s real,

Or would it be fast and lethal

Like a thunder, and my silent pain

Would become the scream of nature?

Maybe I would close my eyes

As if to hide my own weakness

Or stare vaguely into the void

Until a strange hand shut them.

Drowned in meaningless woe

I would share a tear of atonement

And imagine my mother crying

If I were to die in this moment.


Maybe a line or whole poem

Would float in the air, maybe Hamlet,

Too sleep and to dream, O how death

Comes so awfully quick and rips

All meaning in its hidden essence.

A moment of ultimate light

Before the vacuum of space

Maybe a scream of dissolving,

Maybe a cry of annulling.

Or maybe a joy of resting

Spiritual fulfilling decay,

To rest, O rest everlasting

From the pains of dying each day.

terça-feira, 16 de março de 2010

Sexta feira

Era uma sexta feira longa, cansada, e a semana ainda não acabara.

Um menino e uma menina sentam-se no café de sempre, com o garçom de sempre, fazem os pedidos de sempre. E como sempre acham que é único.

Hoje, porém, tiveram uma surpresa: no outro canto, não querendo aparecer, sentava uma menina lendo. Ela já os tinha notado, e aquela leitura forçosamente compenetrada dava a entender que não queria saber dos dois.

"Meu livro", lembrou-se de repente a menina, e levantou-se para resgatá-lo.

Cumprimentou-a, e aproveitou-se da quebra do gelo para sentar-se à mesa.

Conversaram bastante, com pausa apenas quando a menina voltou à própria mesa para comer.

"Vai demorar ainda?", "Não sei... Sabe como eu sou, não consigo só pedir o livro e ir embora.", "É, eu sei... Bom, não demore."

E foi para a outra mesa, onde agora eram quatro meninas sentadas. As quatro se ignorando, ou pelo menos é o que parecia. As duas que chegaram para acompanhar a outra menina nem se falavam, dava para ver que só estavam ali por ela, e agora ela tivera de dar atenção àquela menina, provavelmente quem ela menos gostaria de ter encontrado.

Apesar de tudo, a conversa fluiu. Conversaram muito até, em uma grande troca de falsidades, uma cúmplice da outra, ambas culpadas, quem sabe mais, quem sabe menos.

A menina voltou para a mesa, precisava de um tempo para se recuperar. Os dois começaram a discutir trivialidades, e era quando justamente pesavam em ir embora que a outra menina veio até eles e, secamente, disse que não estava com o livro dela.

Foi embora mal se despedindo, o sobre-tudo vermelho fingindo um ar de superioridade duvidável, e também os dois se foram, com o encontro já esquecido.