segunda-feira, 19 de abril de 2010

Uma morte

Na segunda-feira à noite, morreu. A data já era inconveniente, e o foi mais ainda porque sua mulher estava viajando. Às pressas, o menos ocupado dos seus irmãos foi até a casa de André. Ligou para um irmão de sua esposa, no interior – sabia muito bem que a própria esposa não merecia ser incomodada - e já surpreende que este, mais dormindo que acordado, tenha compreendido o significado inicial da ligação e reagido a ele, esboçando na conversa alguma tristeza. A outra intenção, mais soturna que a original, e mais urgente que apenas comunicar a morte do irmão e cunhado, passou completamente despercebida.

Na cidade, a família é pequena e ocupada e nem tão apegada assim a André, então o corpo foi logo enviado ao interior na terça pela manhã, para que a família da esposa pudesse preparar os carinhosos velório e enterro que ele merecia e dos quais sua própria família não seria capaz.

Os interioranos, porém, não tinham sido avisados e também eles não poderiam arcar com a organização das despedidas. Teriam que abrir a porta de sua casa para toda a cidadezinha e para quem viesse da cidadezona, preparar comida para todos os visitantes e, principalmente, perder um ou dois dias de trabalho. Eram pessoas muito simples, destas que só vivem com dignidade no campo graças ao trabalho duro acrescido dos cuidados à horta e aos bichos da casa, para fechar definitivamente a porta à possibilidade de passarem fome. Além disso, teriam que hospedar os parentes da cidade, muitos e arrogantes, em suas próprias casas.

Ligaram de volta, então, para Rodrigo, aquele irmão do morto. Acordaram que os últimos deveres que tinham para com André seriam realizados na cidade, no dia seguinte, e que a família dele ajudaria a pagar a vinda dos interioranos que quisessem comparecer. Hotel, inclusive, porque hospedar na própria casa exige atenção e na cidade a gente trabalha muito e.

Quarta-feira, então, é manhã e os mais pontuais começam a chegar à capela do cemitério, quase 10h. Chegam também quase todos os parentes da esposa, mas o sujeito do velório ainda não está lá. Será o último a aparecer, teve que esperar pelo transporte especializado para trazê-lo de volta à cidade. Enquanto não chega, silêncio e mais desconforto que choro ou dor na capela, interioranos de um lado e urbanos de outro, alguns amigos não sabem se oferecem condolências primeiro a esta ou àquela família, se esperam pelo morto para fazê-lo, e ficam a meio caminho entre isso tudo e nada, desejando estar em qualquer outro lugar do mundo. As crianças só conseguem pensar que foi bom não ter ido à aula e ainda não entendem o que está acontecendo ali, correm e brincam entre si, as do interior mais rápidas que as da cidade, as da cidade mais espertas que as do interior.

Aos poucos os risos e a correria começam a dissolver o gelo que circunda cada um dos adultos presentes. Parecem finalmente perceber aonde estão e se interessar por aquelas pessoas que não veem há muito, começam a discutir amenidades entre si, riem um pouco e, enfim, percebem a falta que André vai fazer. Apesar de sempre ter sido um pouco ausente, tinha um bom coração e não hesitava em ajudar quem precisasse; como a vida é cruel, mata primeiro os bons. Pela primeira vez na vida, amam André e precisam dele. Choram, enfim.

Sua mulher, do outro lado da cidade, abria desavisada a porta de casa.

3 comentários: