Chegarão os dois em casa, coincidentemente, no mesmo horário – como é a coincidência de todas as sextas-feiras. Estará ela de escarpim, vestindo uma saia justa de mesmo padrão que seu paletó, sutil. Estará ele de sapatos bem lustrados, camisa bem engomada - bem alvejada, também com um paletó, entretanto sem padrão (não convém), todo preto, combinando com as calças devidamente passadas, a gravata de um tom sóbrio. Não se falarão. Não, não haverá cumprimentos. Suas pupilas não se encontrarão, não haverá qualquer olhar. Com os ombros juntos, embrenhar-se-ão pelos corredores intermináveis, desembocando em uma sala com uma larga lareira central. Lá, no imo do lar, despir-se-ão agressivamente, sim, em um frenesi absurdo, sádico, e, contudo, frígido. Ela principiará por lançar o escarpim por uma grande porta de vidro, que se estilhaçará. Ele firmará seu punho sobre a fileira de botões de sua camisa e, sem qualquer expressão facial, puxará com força aquela região central sob a gravata, deixando o peito fustigado transparecer. A blusa da mulher, de alças, será retirada tranquilamente, primeiro o lado esquerdo, depois o direito, sem auxílio do homem, revelando também marcas de látego sobre o colo. A gravata dele será calculadamente retirada, dobrada com zelo e lançada ao fogo da lareira que, aparentemente, parecerá alimentada por flâmulas perenes a estalar em um chiado manso. O calor será azul, isento de fuligens. O coque dela será desfeito, deslizando sereno pelos ombros, e, à luz vacilante das chamas, confundir-se-á entre a cor de uma palidez profunda e do negro reluzente. O paletó de ambos escorrerá pelos braços, caindo ao fogo anil. As calças e a saia, bem como as peças íntimas, serão repuxadas com fúria moribunda tendo picos intensos e movimentos leves, que desencadearão no fato de todos tecidos serem entregues à lareira. O restante - joias, relógios – despencará pela janela. As alianças douradas, agarradas aos nós dos dedos, arrancarão com os dentes e as engolirão como um ato corriqueiro. Ao término, ele sucumbirá com as mãos na fronte, plangendo e murmurando lamentoso, ela apoiará a espinha à parede sombreada, cofiando as sobrancelhas e fechando as pálpebras pesadas de maquiagem. Os gestos femininos demonstrarão asco pela figura máscula ali ajoelhada, e esta, por sua vez, lamentar-se-á, tendo toda a sua compaixão voltada a si. Os peitos de ambos estarão visivelmente flagelados, preenchidos com estigmas severos, cicatrizes doloridas, nódoas forjadas sobre a epiderme.
Ele cessará o soluçar ao mesmo tempo em que ela se desapoiar da parede, e encaminhar-se-ão a uma extensa casa de banho cortada por uma iluminação tênue que provirá de luzes externas atravessando a janela. Sobre uma longa pia, estarão produtos cosméticos dispostos organizadamente. A mulher, inexpressiva, jogará os braços moles por cima dos frascos e derrubá-los-á todos fazendo movimentos de ziguezague com os cotovelos. Seu marido, aquele que, como ela, engoliu a aliança, debruçará sobres os esmaltes multicoloridos da esposa que estarão no chão, em potes quebrados e com as tonalidades misturadas, e espalhá-los-á pelos lábios, fazendo-os luzir sob o brilho que lhes cruzará. Ela então apanhará o creme de barbear do homem e aplicá-lo-á sobre as pálpebras pesadas de maquiagem, de forma a criar uma viscosidade cintilante e escura, e também sobre os lábios, fazendo seu batom dissipar-se em tons indefinidos. Ele pegará, próximo ao vaso sanitário e a um ralo repleto de fios capilares, um batom destampado e delineará sobre o busto os contornos feitos pelas cicatrizes, tingindo-as como que com sangue, mas sabendo que não é. Já sua esposa, aquela que, como ele, engoliu a aliança, estará a vasculhar pelos azulejos do chão os cacos dos frascos, premindo as palmas contra estes sem deixá-las sangrar. Encontrará uma tesoura bem ao lado da bancada da pia, no assoalho, empunhá-la-á e cortará rente os cílios e os pêlos da cabeça, deixando falhas e irregularidades. O homem fará o mesmo, pegando o utensílio das mãos dela sem fitá-la. Ambos retirarão das gavetas navalhas e, com elas, apararão o restante dos cabelos desordenadamente e deixando tufos. Também, com a mesma meticulosidade, rasparão os pêlos púbicos e as sobrancelhas. A mulher irá novamente se apossar do creme de barbear, pincelando-o sobre as unhas. Ele amontoará os esmaltes espalhados pelo assoalho e, usando-os tal tinta, com as mãos espalmadas, pintará todo o rosto. Apossar-se-á também daquele mesmo batom que já haveria usado e, com este, riscará suas costas onde puder alcançar. Com a navalha e a tesoura, depilará as axilas.
Aquele casal de aparência andrógina regressará, portanto, à sala da lareira e sentará ao redor do fogo, como se estivessem em volta de uma fogueira, reavivando sensações primevas. Gritarão silenciosamente, asfixiando dilemas contemporâneos e libertando um rugido rouco puramente entranhado. A agonia imperará na expressão de ambos. Ficarão os músculos do pescoço tesos, a traquéia relevada em um óbvio aspecto de terror, os glóbulos oculares exaltados sob a pálpebra cerrada e inquieta. Terão o mesmo arrebatamento daquele que vê o fogo pela primeira vez e o mesmo assombro de quem o ousa tocar. Circundarão a emanação anilada com um caminhar cambaleante, como nômades exaustos de uma jornada infinita e extremamente demandante. Quando pararem, haverá o êxtase da convulsão, da implosão total, o desmoronamento interno das paredes e tecidos que compõe preceitos, princípios e normas de convivência. Grunhirão ariscos e destoados, como quem tudo desconhece. Por fim, deitar-se-ão ao solo bruscamente, desmaiados, desfalecidos, dormentes. Esparramar-se-ão à base da combustão azulada, com sombras fátuas cobrindo-lhes e descobrindo-lhes os semblantes apaziguados. Estes variarão entre o funesto e o prazeroso, o que se mostrará por suas constantes palpitações musculares. Ao se libertarem da modorra, embrenhar-se-ão novamente, ombro a ombro, pelas passagens labirínticas da casa. Percorrerão, dando voltas, a extensa casa de banho, uma cozinha, outros banheiros, despensas, adegas, átrios, salas, câmaras, antecâmaras, para chegarem, enfim, à alcova. Dentro do aposento, a mulher, tendo engolido a aliança, engolirá também a espuma dos travesseiros, enquanto seu marido, também tendo engolido a representação áurea e material do matrimônio, por sua vez, engolirá os cabelos raspados de sua mulher, encaminhando-se à tal e não distante casa de banho onde haveriam sofrido a transformação. Farto, ele retornará ao tálamo e debruçar-se-á sobre o mesmo, regurgitando o que haveria consumido. Ela também o fará, todavia, seu vômito formará um córrego esverdeado, acre e gelatinoso sobre o criado-mudo no qual se encontrarão alguns papéis e um telefone. O líquido de bílis e substâncias parcialmente digeridas cascateará através das gavetas semi-abertas e empoçar-se-á sobre o tapete de feltro estendido sobre os mármores do assoalho. Ambos deitar-se-ão à cama, com a cabeça e as costas apoiadas à parede e os quadris firmes sobre os destroços de espuma, vômito e pêlos. Entreolhar-se-ão com as pálpebras fechadas, as mãos sobre o ventre. Poderá ser percebida a inquietante semelhança. A mulher sem bustos fartos ou quadris bojudos, o homem sem musculatura muito definida ou torso robusto. Delgados, lânguidos, flácidos, abatidos, lívidos, pálidos, doentios. Androides.
Ele cessará o soluçar ao mesmo tempo em que ela se desapoiar da parede, e encaminhar-se-ão a uma extensa casa de banho cortada por uma iluminação tênue que provirá de luzes externas atravessando a janela. Sobre uma longa pia, estarão produtos cosméticos dispostos organizadamente. A mulher, inexpressiva, jogará os braços moles por cima dos frascos e derrubá-los-á todos fazendo movimentos de ziguezague com os cotovelos. Seu marido, aquele que, como ela, engoliu a aliança, debruçará sobres os esmaltes multicoloridos da esposa que estarão no chão, em potes quebrados e com as tonalidades misturadas, e espalhá-los-á pelos lábios, fazendo-os luzir sob o brilho que lhes cruzará. Ela então apanhará o creme de barbear do homem e aplicá-lo-á sobre as pálpebras pesadas de maquiagem, de forma a criar uma viscosidade cintilante e escura, e também sobre os lábios, fazendo seu batom dissipar-se em tons indefinidos. Ele pegará, próximo ao vaso sanitário e a um ralo repleto de fios capilares, um batom destampado e delineará sobre o busto os contornos feitos pelas cicatrizes, tingindo-as como que com sangue, mas sabendo que não é. Já sua esposa, aquela que, como ele, engoliu a aliança, estará a vasculhar pelos azulejos do chão os cacos dos frascos, premindo as palmas contra estes sem deixá-las sangrar. Encontrará uma tesoura bem ao lado da bancada da pia, no assoalho, empunhá-la-á e cortará rente os cílios e os pêlos da cabeça, deixando falhas e irregularidades. O homem fará o mesmo, pegando o utensílio das mãos dela sem fitá-la. Ambos retirarão das gavetas navalhas e, com elas, apararão o restante dos cabelos desordenadamente e deixando tufos. Também, com a mesma meticulosidade, rasparão os pêlos púbicos e as sobrancelhas. A mulher irá novamente se apossar do creme de barbear, pincelando-o sobre as unhas. Ele amontoará os esmaltes espalhados pelo assoalho e, usando-os tal tinta, com as mãos espalmadas, pintará todo o rosto. Apossar-se-á também daquele mesmo batom que já haveria usado e, com este, riscará suas costas onde puder alcançar. Com a navalha e a tesoura, depilará as axilas.
Aquele casal de aparência andrógina regressará, portanto, à sala da lareira e sentará ao redor do fogo, como se estivessem em volta de uma fogueira, reavivando sensações primevas. Gritarão silenciosamente, asfixiando dilemas contemporâneos e libertando um rugido rouco puramente entranhado. A agonia imperará na expressão de ambos. Ficarão os músculos do pescoço tesos, a traquéia relevada em um óbvio aspecto de terror, os glóbulos oculares exaltados sob a pálpebra cerrada e inquieta. Terão o mesmo arrebatamento daquele que vê o fogo pela primeira vez e o mesmo assombro de quem o ousa tocar. Circundarão a emanação anilada com um caminhar cambaleante, como nômades exaustos de uma jornada infinita e extremamente demandante. Quando pararem, haverá o êxtase da convulsão, da implosão total, o desmoronamento interno das paredes e tecidos que compõe preceitos, princípios e normas de convivência. Grunhirão ariscos e destoados, como quem tudo desconhece. Por fim, deitar-se-ão ao solo bruscamente, desmaiados, desfalecidos, dormentes. Esparramar-se-ão à base da combustão azulada, com sombras fátuas cobrindo-lhes e descobrindo-lhes os semblantes apaziguados. Estes variarão entre o funesto e o prazeroso, o que se mostrará por suas constantes palpitações musculares. Ao se libertarem da modorra, embrenhar-se-ão novamente, ombro a ombro, pelas passagens labirínticas da casa. Percorrerão, dando voltas, a extensa casa de banho, uma cozinha, outros banheiros, despensas, adegas, átrios, salas, câmaras, antecâmaras, para chegarem, enfim, à alcova. Dentro do aposento, a mulher, tendo engolido a aliança, engolirá também a espuma dos travesseiros, enquanto seu marido, também tendo engolido a representação áurea e material do matrimônio, por sua vez, engolirá os cabelos raspados de sua mulher, encaminhando-se à tal e não distante casa de banho onde haveriam sofrido a transformação. Farto, ele retornará ao tálamo e debruçar-se-á sobre o mesmo, regurgitando o que haveria consumido. Ela também o fará, todavia, seu vômito formará um córrego esverdeado, acre e gelatinoso sobre o criado-mudo no qual se encontrarão alguns papéis e um telefone. O líquido de bílis e substâncias parcialmente digeridas cascateará através das gavetas semi-abertas e empoçar-se-á sobre o tapete de feltro estendido sobre os mármores do assoalho. Ambos deitar-se-ão à cama, com a cabeça e as costas apoiadas à parede e os quadris firmes sobre os destroços de espuma, vômito e pêlos. Entreolhar-se-ão com as pálpebras fechadas, as mãos sobre o ventre. Poderá ser percebida a inquietante semelhança. A mulher sem bustos fartos ou quadris bojudos, o homem sem musculatura muito definida ou torso robusto. Delgados, lânguidos, flácidos, abatidos, lívidos, pálidos, doentios. Androides.
Wow, muito bom! Até um pouco hipnótico, eu diria.
ResponderExcluirComo o Gui disse, bastante hipnótico. E não sei dele, mas eu consegui sentir o frenesi enquanto lia; algumas partes simplesmente lia freneticamente, enquanto outras lia com mais calma, como se os acontecimentos demandassem uma velocidade maior.
ResponderExcluirMuito bom, Dane!
Grato.
ResponderExcluirÉ curioso que eu já tinha escrito isso há algum tempo numa tentativa de agrupar quatro pequenos contos.
Quando vi o título do blog, me lembrei imediatamente deste e pensei que viesse a calhar.
Sim, diria que escrevo coisas meio "febris" de vez em quando.