domingo, 7 de junho de 2009

Céu de outono

Aconteceu numa quinta feira à noite quando voltava do trabalho. Tinha sido um dia duro, o hospital ficara lotado a tarde toda devido a um acidente envolvendo um ônibus, e uma pista escorregadia. Tratou de algumas emergências, teve sucesso em algumas, mas nem tanto em outras. Comunicou a duas mulheres que seus maridos não voltariam em casa para o jantar, uma delas aparentava ter pouco mais de vinte anos e estava grávida. Realmente um dia duro.
Estava andando por uma das ruas na qual sempre passava durante o trajeto até sua casa, até que sentiu um leve toque em seu ombro esquerdo. Quando olhou para cima notou que estava em baixo de uma grande árvore, concluiu então que um galhozinho havia se soltado e o atingido. Nada demais. Era outono, e esta árvore, assim como a maioria das outras, estava praticamente sem folhas, de modo que era possível ver o céu entre seus ramos nus. Um céu bonito,sem nuvens e com algumas poucas estrelas, por algum motivo não era possível ver a lua, mas isso não importava.Estava lá, aquela escuridão sem fim, pontuada por pequenos pontos brancos brilhantes.
Ficou algum tempo parado observando fixamente aquele céu. Não conseguiu entender como ainda não o havia notado, era algo óbvio, claro como o leito de um lago raso. Talvez estivesse ocupado demais pensando nos homens que não pôde salvar, nas viúvas que não pôde consolar, na criança que não vai conhecer o pai. Nunca lembrava o nome, ou a causa da morte, muito menos lembrava-se de quando partiram, mas os rostos, os rostos daqueles que expiravam em suas mãos ficavam em sua mente e levavam semanas para serem esquecidos,se é que ele realmente os esquecia.
Mas agora só tinha olhos para aquele céu, estava tão absorto que não teria notado se alguém tivesse roubado sua carteira,ou suas calças. Seus pensamentos o levaram a sua juventude, época em que queria mudar o mundo, mudar as pessoas, época também em que optou por seu curso na faculdade. Queria fazer filosofia ou história, acreditava que conheceria pessoas que pensavam como ele. E provavelmente teria encontrado se não escolhesse por ser médico. O leitor pode imaginar que nosso protagonista tenha pensado em seu futuro salário ou sofrido pressão dos pais, mas ele apenas quis fazer algo que fosse importante para a sociedade,onde pudesse fazer a diferença. Não enxergando melhor maneira de realizar seu pequeno sonho, fez medicina.
De repente escutou um som às suas costas:
-O doto ta se sentindo bem?-perguntou um vendedor de doces, que observava curioso aquela cena atípica.
O som desta frase soou distante, quase inaudível, como quando estamos prestes a dormir, e o sono não chega. Nesse estado, onde não se está dormindo, nem se está acordado, nada ao nosso redor parece realmente existir, nem nós mesmos. Por isso só conseguiu distinguir a palavra doutor em meio a sua não existência. ´´Palavra importante essa não?´´Pensou. Houve um tempo em que ele orgulhava-se de ser chamado assim, era na época em que começou a dar seus primeiros diagnósticos. Bons tempos eram esses quando usava brincos, cabelos longos e andava sempre com a barba por fazer.
Virou a cabeça para trás, buscando olhar para aquele que o chamava. Era um homem magro e baixo, tinha um grande nariz, e olhos cansados, seus lábios finos ocultavam uma boca com poucos dentes. Sua camisa xadrez bem passada, e sua cara limpa concediam-lhe um certo ar de humildade e orgulho,que dá a pobreza alguma dignidade.
-Boa noite, senhor.
-Boa noite.-respondeu mansamente.-Quer comprar um doce?-disse em seguida. Nem notou as palavras saindo de sua boca,elas foram sozinhas.
-Quero sim,por favor.
Enquanto realizava a transação não conseguiu parar de pensar no quanto o vendedor lhe era familiar.
-Você sempre fica nessa rua?-Perguntou,procurando ser o mais delicado possível enquanto falava.
-Sim.-disse em voz baixa.-Todo dia,dotô.-acrescentou,timidamente. A humildade daquele sujeito chegava a incomodar.-Sempre vejo o sinhô passando, mais ou menos nesse mesmo horário. Geralmente o sinhô só atravessa a rua com a cabeça baixa e passos firmes, mas hoje o sinhô parou e ficou olhando um tempão para cima.
Olhou a sua volta, um rapaz franzino com fones no ouvido esperava o sinal abrir na calçada, uma mulher gorda e de dedos curtos acenava para um táxi, ao mesmo tempo que o açougueiro começava a fechar sua loja na esquina. Havia também varias outras pessoas, sem rostos, andando na calçada, quase sempre no mesmo ritmo. Todas compartilhando o mesmo destino, todas familiarmente desconhecidas.
-Aqui, seu troco.-disse enquanto levantava a mão cheia de moedas.
Tudo bem, pode ficar-Respondeu ohando naqueles olhos negros, e grandes.-Me diga, qual é o seu nome?
-Omar, dotô.
-Bem, Omar,obrigado pelo doce.-disse secamente. Desviou os olhos e voltou a olhar para aquele céu. Estava com um sentimento inexplicável,misto de resignação e vergonha.
-Eu que agradeço.-pela primeira vez esboçara um sorriso.-Volte sempre.
Chegando na porta de sua casa, também sorriu quando notou que ainda estava com o doce na mão. Sorriu um morno riso de cumplicidade, um pouco atrasado talvez, mas que teve seu valor. Sua mulher estava dormindo, e seus filhos haviam saído. Sentou-se na mesa da cozinha, e comeu o brigadeiro praticamente derretido. Tinha gosto de serragem, e grudou em seus dentes. Quando acabou foi para a sala e olhou o céu pela pequena janela. Depois, caminhou para o canto direito do cômodo, onde tinha um pequeno buraco oculto pelo sofá, e dentro do buraco uma pequena sacola com algumas fotografias. A maioria eram de sua época na faculdade, à exceção de uma, em que aparecia Marcela, sua primeira namorada, ela estava nua, e linda rindo para ele. Sentou-se no sofá e ficou a maior parte da noite olhando para seu pequeno segredo, depois levantou-se, guardou tudo no devido lugar e dirigiu-se para a cama. No dia seguinte acordou cedo e foi para o hospital, havia uma cirurgia marcada para as nove e meia, e outras duas no período da tarde. ``Vai ser um dia duro``, pensou enquanto marchava em direção ao trabalho.

Um comentário:

  1. Texto bem interessante! Bem desenvolvido, apesar de eu achar que o final pode ser melhor escrito.
    Além disso, se quiser dar uma revisada na edição... os espaços depois das pontuações que você esqueceu. E em algumas partes você usou vírgulas demais, quebrou as idéias em excesso. E se reler vai ver alguns pedaços onde pode narrar melhor, como em "Estava sentindo um sentimento inexplicável", onde você não precisa repetir a palavra "sentimento"; pode falar simplesmente "Tinha um sentimento inexplicável", ou "Estava com uma sensação inexplicável".
    Mas o texto ficou super interessante, algumas partes ótimas!

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