terça-feira, 30 de junho de 2009

Errôneo fardo das eras

O l’Oméga, rayon violet de Ses Yeux !
Rimbaud

(...)
R: Das suas vozes áureas;
O: De seu aroma violáceo;
M: Dos seus ruídos cianos;
A: De seu sabor tanto ocre.
(...)
R: De seu bocejar magenta;
O: De seu não-falar carmim;
M: De seu tocar-se prateado;
A: De seu sujeitar de marfim.
(...)
Roedura cinzenta;
Ovacionar marrom;
Mimetizar amarelado;
Amargura verdejante.
(...)

Cidadela
aquela
que não
visitarão.

Invertem-na
e delineiam
sumo alento
de um estulto.

Não aquela
cidadela
visitarão.

Se é defunto
o latim, está
também junto
a ele enterrado
o seu império
tão consumado,
de seu prazer
todo finalizado,
mais perfeita
imagem do
irrealizado.

O Fraterno
lugar ermo
se tornou.
O Eterno
tolo inverno
ele virou.

Por que a herdam diversos
povos e dedicam a ela versos,
que é alta praga da Tradição?!

ROMA
está presa,
indefesa
num passado
tão cromático e
bem soterrado.

Tempos
estáticos!
Extáticos!
Aos valores
passados
atados!
Há cores,
de rastros
sabores
que os
latinos,
meninos,
achavam
possuir!

(...)
A fim de enjaular um consolo,
Muitos padecem a aberração,
O que vedes não é paixão,
Rubis abortados do solo!
(...)
Aquilo que vós sentis pelos parentes,
Magnífico estertor seco dos clementes,
Ocorre de fato em vossas vítreas mentes?
Ruim será se vós estiverdes inconscientes!
(...)

Os bacantes ver-se-ão,
rubras uvas beberão
quando eles então
sutilmente esperarão
de ROMA a exaltação!

Por fim perceberão,
do áureo, ocre, ciano,
violáceo reconhecerão,
cada lasca sob o pano!

Sob a sombra plúmbea
do largo impropério,
ROMA,
fá-la-ão,
a soma,
dos saldos do império!
Que apreenderam,
ou que aprenderam,
os devotos d’O Nome?!

ROMA é fatuidade,
espectro de prazer!
Projeta sua vaidade
para vos satisfazer!

Projetai, portanto,
júbilo e satisfação
uns nos outros e não
lhes dai nomeação.

O anagrama
que conclama,
ávido para se expor,
(ROMA)
lépido para se impor,
(ROMA)
ele vos infama,
e não vos ama.

Não lede além
da incolor tinta
que diz “ROMA
no cor extinta.”

7 comentários:

  1. "Virtù contra furore
    Prenderà l' arme; e fia 'l combatter corto,
    Che l' antiquo valore
    Ne l'italici cor non è ancor morto"

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  2. Boa resposta, uma maneira sutil de rebater uma poesia presunçosa.


    Mas esse poema é mais frívolo do que aparenta.

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  3. Sim, para mim é um poema extremamente destrutivo e iconoclasta, e eu apóio totalmente essa atitude, mas acho que se deve separar os ícones que devem ser mantidos dos que devem ser destruídos. A "alta praga da Tradição" romana, a meu ver, tem muito mais valor do que a sociedade mesquinha em que vivemos hoje. Roma tinha um valor próprio, um valor ocidental. Hoje em dia sofremos uma influência tão grande de mentalidade Juidáico-Cristã que mal temos uma identidade. Nossos valores mais "superiores" foram arrancados de nós e substituídos por valores "inferiores" do cristianismo. As memórias das antigas civilizações foram as únicas coisas que o cristianismo não conseguiu tirar de nós, e também as únicas que podem possibilitar uma retomada de valores para o povo ocidental, ou talvez uma transvalorização destes. Minha sugestão é que, antes de "poetizar com um martelo", escolha bem os alvos das marteladas.
    "First principle: one must need to be strong - otherwise one will never become strong. The largest hothouses for the strongest kind of human being that has ever been, the aristocratic commonwealths of the type of Rome or Venice, understood freedom exactly in the sense in which I understand the word freedom: as something one has and does not have, something one wants, something one conquers..."
    Nietzsche - Crepúsculo dos Ídolos.

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  4. Enfim, não me pareceu um poema frívolo, mas desavenças intelectuais a parte, é um poema muito (MUITO) bem escrito, com certeza o melhor de todos que você postou. Parabéns

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  5. Na realidade, preciso admitir que tenho uma perspectiva muito menos iconoclasta a respeito do assunto. Em outra linha, acredito mais na ponderação e na sobriedade frente às tradições. Não creio nem no desprezo profundo e nem na veneração incondicional, acredito simplesmente na análise e no olhar distanciado (apesar de não sempre ser possível). Portanto, não vejo o valor de algo necessariamente como condição intrínseca, mas como aquilo que lhe é concedido externamente.
    Saindo de Roma, mas ainda no domínio da tradição clássica:
    "What occurred was so astonishing that, until very recent times, men were content to gape and talk mystically about the Greek genius. It is possible, however, to understand the development of Greece in scientific terms, and it is well worth while to do so."
    Bertrand Russell, The History of Western Philosophy

    Contudo, sinto ser desagradável, há uma impropriedade nessa discussão. Acho que o poema não possui essa dimensão, digamos, tão audaciosa. Isso porque Roma não é o alvo do martelo, mas o tropo. Este é um poema de Amor. É por isso que o chamo de frívolo, jocosamente talvez. O tema é manipulado para tentar não se falar dele, justamente porque a ele são dedicados poemas demais. Nesse caso, Roma não passa de um anagrama - e a frivolidade que considero seria essa apropriação um tanto leviana da imagem.

    De qualquer forma, obrigado pelos elogios literários. Talvez as desavenças intelectuais também não sejam tão grandes.

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  6. Bom, neste caso, sinto muito não ter compreendido o poema em sua totalidade, mas você há de convir que o tema está demasiado escondido, apesar de ter lido com outra ótica após essa revelação.
    Enfim, também acho agora que as desavenças intelectuais não são grandes, aliás, chego a acreditar que temos bastante em comum. Parabéns mais uma vez, é bom tê-lo postando novamente no blog.

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  7. Sim, está muito velado, possivelmete em excesso. Pode ser que eu mesmo esteja equivocado na minha própria intepretação e nada disso possa ser depreendido.

    Bom, nunca se sabe, poemas são personas. Mas, ainda, questiono-me se tem como se livrar delas de alguma foma.

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