sábado, 23 de maio de 2009

A vigília e seu pesadelo

- Não creio nos diálogos. São monólogos entrecortados, interrompidos, em conflito, em consonância, em ressonância, em dissonância; mas são monólogos. Só os monólogos carregam conceitos. Diálogos não passam de monólogos a dois.
- Completo desvario! Total incoerência! Diálogos são a reabsorção e o câmbio de ideias. Diálogos são o fluxo consciente redobrado e revertido, em expansão.
- É impossível a manutenção de um diálogo, ele se esgota por si só, em sua suma inconstância. Nenhuma forma de diálogo se mantém, ele se esvai em amenidades, em desinteresse, em polidez; é um desgaste crescente e inevitável.
- Há, contudo, um ápice, um momento culminante da conversação no qual se dá o instante preciso de câmbio de conceitos. Neste instante o diálogo enriquece e engrandece, havendo uma troca de saberes, desenvolvendo todas as partes abarcadas pelo intelecto.
- Ocorrem puramente debates, discussão. A comunicação já é perdida antes mesmo do princípio da interação. Não há uma linha de ligação, de coesão, apenas termos esparsos desvanecendo em uma lava de retórica falseada e repleta de afetação. Ora pode ocorrer a total concordância, a paralisia crítica por ambas as partes, e, por consequência, reduzir-se tudo a nulidade e irrelevância. Ora pode ocorrer também a submissão completa, a aceitação pura e irresoluta do argumento contrário, por conta do desânimo a se engajar em um parlatório fervoroso. Ou ainda este último pode se revelar, a discussão exaltada, a absoluta discordância, a desrazão - o perene, incessante e infatigável desacordo. Ainda que se tente...
Uma boca repleta de sons que se fecha. Uma caneta que se deita sobre uma mesa de canto.
- Vejo diálogos, e os escuto obviamente, por todas as partes. Mesmo os mais ínfimos ruídos são diálogos, e mesmo os cobiçados, por assim dizer, monólogos, também são diálogos aos meus sensos. Pois não passam aqueles, os monólogos, de diálogos entre duas pessoas que são a mesma, ou ainda como gritos ecoados da consciência que responde a si própria. O diálogo é um abismo que se basta, suficiente nas congruências das formas que possui e que se completam. São grandes formatos cônicos que se correspondem e que, neste processo, exercitam...
Manifestações de impaciência. Dois dedos que pousam sobre um copo. Uma palma que gira o pulso no ar. Movimentações vagas. Movimentos insignificantes do pescoço e da cabeça. Gestos e outras posturas sem qualquer importância.
- Há certos diálogos que norteiam a conduta de indivíduos e que impedem qualquer tipo de interação verdadeira. Sendo esse código intraduzível em conversação, é, portanto, impossível que ele seja superado e talvez até indesejável que tal aconteça; isso confere ao diálogo e à comunicação um aspecto de distorção e mesmo de irrealidade, o que faz com que a explanação de ideias, conceitos, termos e mesmo representações jamais sejam válidos. A invalidez é uma característica inerente ao diálogo, e, por conseguinte, a sua inexistência concreta e utilitária é assim uma maneira de...
Agitação brusca de plena inquietação. O ranger de mobílias. O farfalhar de cortinas alvejadas e a textura de um sapato escuro bem lustrado que desliza sobre o tapete. Quietude.
- A afirmação é uma peculiaridade da conversa, ainda que guiada pela dúvida. É irracional negar a presença de respostas dentro de uma conversa. Ainda que obscurecida e omissa, desviada de seu curso direito, a resposta acaba por se revelar em um diálogo. E a gênese desta resposta é a especulação que pode ser provida somente pela duração e pelo vigor de um diálogo bem constituído. Até mesmo o monólogo, que é o diálogo privado, mostra esta duplicidade exercida pela...
Vapores que se envolvem com tecidos. Bruma que perpassa a janela aberta. Luzes que penetram pelo vidro. Vozes exteriores que espreitam o espaço curto do jardim. Inquietude.
- O diálogo é o reflexo do monólogo em um espelho baço, impolido e distorcido. O diálogo é todo de vozes espectrais e especulares.
- O monólogo é também duplicidade, porém auto-suficiente e rebatida. O diálogo é a essência de qualquer fenômeno já compreendido, pois só a compreensão do diálogo é capaz de gerar tal nível de sapiência e realidade. Assim, o diálogo é o concerto de vozes atuantes que se repelem ou se unem para reter conceitos preciosos.
Passos na escada coberta por carpetes felpudos. Ruídos surdos. Uma porta de entrada que se abre e que se fecha novamente. O portão do jardim que oscila ao vento intermitente. Corujas e camundongos. A mudez de um cadeado que se destranca. Desespero. Abalos sísmicos. Pedras que caem. Móveis ao chão. A estrutura que chacoalha. Fuga e desespero. Termina o diálogo.

2 comentários:

  1. obrigado,

    também gosto do que você escreve, tem um estilo "ébrio-poético".

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